Por trás das notas

Fator surpresa sempre traz mais emoção

Bons surfistas aparecem todos os anos. Mas, nem todos terão chance e patrocínio para furar o bloqueio imposto pelo sistema de classificação do circuito mundial.

 

Os resultados do Tânio Barreto e Renan Rocha na etapa brasileira mostraram que o WCT é um circuito muito fechado, que impede o aparecimento de surfistas atrás de um espaço maior.

 

Para piorar, o sistema do WQS prioriza os tops, tornando quase impossível o acesso, ou melhor, dificultando ao máximo a entrada de novos surfistas na elite. 

 

Não sou contra o sistema de estabelecer tops, sou contra eventos fechados, muito previsíveis. O surfe deveria abrir triagens para 16 vagas, assim como no tênis, e dar aos novatos uma chance de aparecer e, quem sabe, conseguir um bom patrocínio.

 

No atual sistema da ASP, os wild cards são muito poucos, e como a maioria dos eventos é patrocinada pela Billabong ou pela Quiksilver, seus atletas acabam beneficiados.

 

Hoje em dia, um bom surfista demora pelo menos três anos para furar o bloqueio do sistema. E para os brasileiros isso tem sido quase impossível. Nos últimos anos, só Raoni Monteiro conseguiu, principalmente por ser fora de série e por deixar de lado o SuperSurf, que atrasou sua carreira em um ano.

 

A maioria não tem patrocinador de longo prazo. Quando muito correm um ano e depois acabam desistindo ou optando pela solução doméstica.

 

O pior é que o SuperSurf é fechado também. É um circuito fechado teoricamente, com esse formato por ter os melhores, mas não é esse o nosso caso. No circuito brasileiro deveria no máximo ter Top 16 e com triagens, assim todos poderiam ter sua chance, do Willian Cardoso ao David Husadel, passando pelo Felipe Dantas e pelo Jadson André, entre outros.

 

Este circuito Brasil Tour é uma lenda. E, mesmo que vingue, vai acabar criando mais um funil, pois devidas às proporções, viajar pelo Brasil para um surfista novo se classificar é tão difícil quanto correr o WQS para o Tânio.

 

Ainda mais se a relação for 36 antigos e 20 novos, sendo que destes 20 quase todos já eram do SuperSurf. Se eu não me engano, só três atletas são realmente novos. Trocaram o sistema, mas com os privilégios, os nomes são os mesmos.

 

Ou será que vocês acham que o Toby Martin e o Natham Webster, que há anos só se classificam pelo WQS, pegam mais que o Tânio?

 

Não, é só uma questão de patrocínio e estrutura. Outra coisa que está dificultando o acesso ao WCT é que desde que se criou o SuperSurf, o número de etapas do WQS diminuíram no Brasil.

 

E, ao invés de ser feito esforço para terem mais etapas, ficam direcionando patrocinadores, que teriam porte para pagar etapas seis estrelas, e conseqüentemente ajudar aos brasileiros a entrarem na elite, para fazer etapas do Super Tour, bem mais baratas e com nível técnico e apelo para a mídia muito inferiores as do circuito mundial.

 

Em Saquarema, no ano de 2002, fui perguntar ao Al Hunt, da Association of Surfing Professionals, o porquê de tanta proteção nos seedings. Ele me disse que eles (os tops) tinham o privilégio por serem os melhores do mundo.

 

Ora, se o sistema que determina os melhores é protecionista, os tops serão sempre os melhores, e os que estão de fora ficarão de fora por não terem estrutura para ficar bancando vários anos de tentativa.

 

Se fosse assim como ele diz, o Tânio não teria ganho tantas baterias no WCT. Além do mais, no surfe nem sempre, teoricamente, os melhores vencem. E, desta forma, está sendo impedindo que novos valores tenham um caminho mais tranqüilo para o WCT.

 

Depois, fiz um estudo de quantos novos surfistas se classificavam pelo WQS nos últimos anos e mandei para o Rabbit (Wayne Bartholomew, presidente da ASP), mas a resistência dos que estão por cima é muito grande e só algumas mudanças bem singelas estão acontecendo.

 

Esse sistema fechado também não é bom para a mídia, pois nada de novo acontece. Ele só é bom para os tops, para que eles fiquem garantidos por 10, 15 anos, o que faz com que muitos valores se percam no meio do caminho. Não quero ser o dono da verdade. Está é só minha opinião e creio que não estou sozinho neste mundo.

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