Fabinho testa a paciência em Bell’s Beach

Dando sequência às entrevistas feitas por Charles Padaratz com os tops brazucas do WCT, apresentamos nesta sexta-feira de Páscoa um depoimento do paraibano Fábio Gouveia. Aqui ele comenta sobre as suas chances e dos demais brasileiros, bem como relata suas opiniões sobre o tour.

 

Como avalia os resultados da primeira etapa e quais as chances individuais e coletivas de um brasileiro em Bell’s?

 

Rapaz, me ferrei na Gold Coast, embora tenha surfado bem. Espero ir melhor aqui em Bell´s, pois já tive excelentes baterias aqui e adoro esta onda.

Como o seu surfe se encaixa nas direitas do pico?
 
Tenho um surf paciente e que se encaixa muito bem nesta onda, que é longa e de difícil leitura. É difícil competir em Bells, e, na maioria das vezes, o surfista tem que estar no lugar certo para conseguir dropar a onda no “time” certo. Tento prestar muita atenção nas horas das cavadas, pois muitas vezes, se o cara for muito na base acaba atropelado pelo lip, ou então acaba projetado para uma parte gorda, dificultando um retorno radical. Uma boa prancha pra Bell´s é esencial e prefiro uma mais larguinha e mais cheinha.

O que achou da atuação do Neco na primeira etapa e em que medida o quinto lugar dele serve de estímulo?

 

Neco estava mandando muito bem em Sanapper Rocks e seu surf estava encaixado. Mas, precisamos de resultados melhores em nível de estímulo. Faz tempo que não chego em uma quinta colocação em um WCT, mas, pra instigar temos que ganhar.
 
Pelo fato de Bell’s ser outra direita, você acredita que Dean Morrison pode beliscar novamente e consolidar a liderança no início do tour?
 
Não achava o Dean um favorito para aquela etapa, como também não acho para esta, mas tudo pode acontecer. O cara tem potencial, caso contrário não teria ganho lá, né?
 
Quem você apontaria como favorito ou tudo é possível?
 
Kelly, mas tudo é possível.
 
O que acha do critério de somar as duas melhores médias?
 
Positivo para a peformance ser elevada, mas muitas vezes ficamos restritos em ação, pois pouquíssimas ondas são surfadas durante a bateria. Isso chega a prejudicar uma possível cobertura ao vivo pra televisão. Penso que o critério de radicalidade atual teria que ser levado à frente. Mas, para o público e TV penso que poderiam ser contadas mais ondas por bateria. Nem que fossem pontuadas apenas manobras individuais por onda, ou seja, o cara que desse um aéreo irado poderia ganhar uma nota máxima e ganhar a bateria, mesmo que tivesse outras cinco ondas pontuáveis em baixo escalão.
 
Como tem sido a experiência de dividir uma coluna mensal na Fluir?
 
Achei superpositivo por nos dar a oportunidade de falar várias coisas que rolam em nosso meio. Ah… são muitas coisas que temos que aguentar por não ter um espaço para expressar nossa opinião e aquilo vai nos ajudar.

O que você acha do fato do WCT estar sendo levado para Santa Catarina, e do fato do
Teco fazer parte deste projeto como licenciado?

 
Achei show a idéia de levarem o evento para Santa Catarina. E, pelo fato de ser móvel, teremos a chance de encontrar excelentes ondas. Mas, na minha opinião, teríamos que ter dois eventos no Brasil. Acho que nunca teremos uma cobertura de mídia como a do Rio. A esposição lá é enorme. Superpositivo também o envolvimento do Teco no projeto e agradecemos a ele o enorme empenho e esforço. Apenas torço para que ele não fique sobrecarregado para quando tiver que realizar seu trabalho atual.
 
O estilo de vida do surfista ainda é visto com desconfiança por parte da sociedade. O que você teria a dizer aos pais dos moleques que estão iniciando no esporte?
 
Não concordo mais com este estereótipo, pois nosso esporte tá em alta há muito tempo e cada vez mais tem sido divulgado em grande escala por meios de comunicação diferenciados. Quem tem essa visão conservadora é sinal de que não evoluiu. E, se não evoluiu, não está preparado pra dar uma educação legal ao filho. Mesmo que não fosse surfista, se eu conhecese o esporte indicaria sem nenhum problema para uma filha ou um filho, como também para filhos de amigos etc. As perdições estão em qualquer canto, qualquer lugar e em diferentes classes sociais. O surf é maravilhoso, estamos em contato direto com a natureza e aprendemos muito com isso, sendo pessoas mais felizes e eternamente mais jovens.
 
O que há de melhor em ganhar a vida surfando?
 
Não é tarefa fácil ganhar a vida surfando, mas sendo assim, terei condição de surfar a vida inteira. Viajando o mundo para as competições, a bagagem de aprendizagem é inigualável.
 
Ganhar a vida praticando esporte é um sonho para muitos jovens, mas com certeza há algumas dificuldades neste meio de vida. Quais seriam as maiores dificuldades a serem superadas neste estilo de vida?
 
A quantidade de campeonatos e o fuso horário dos países. É muito difícil pular de um país pro outro com poucos dias para nos adaptar e nos prepararmos para competir. O fuso horário me deixa cansado e sem estímulo para um trabalho físico paralelo ao surf. Sendo assim, a quantidade de eventos que tenho de disputar dificulta minha forma física, pois só surf não dá um preparo físico ideal para uma competição. Sei que eu poderia disputar apenas o WCT e ter menos provas no calendário, mas não quero perder minha vaga na primeira divisão caso não vá bem nela, então sempre corro os circuitos alternativos. O mesmo acontece com o Super Surf, pois não quero deixar de estar presente na elite do surf nacional.
 
Como em todo esporte, a aposentadoria do atleta chega cedo. O que planeja quando parar de competir profissionalmente?
 

Uma coisa que acho injusta na ASP é o fato de não termos nenhuma aposentadoria. Na maioria das vezes os surfistas nada fazem em paralelo ao esporte para ter um futuro tranquilo. Se não é pelo dinheiro guardado durante os anos bons, ou investido em algo, fica difícil viver após o término da carreira. Se eu for enumerar surfistas que se aposentaram e estão passando por perrengues financeiros vou ter uma lista enorme. Por isso, também reclamo da quantidade de eventos, pois sem tempo pra permanência em nosso país, ficamos sem ter como agilizar outras coisas na maioria das vezes. Outra coisa que pega é que o atleta tem que estar totalmente concentrado na competição e fazer coisas à parte pode facilmente tirar o foco. Muita gente pensa que é frescura, mas o surfista não pode ter coisas na cabeça além da propria competição. Os patrocinadores que não dão uma condição legal a seus patrocinados jamais podem querer que o atleta vá bem sob pressão, pois o cara tem que estar tranquilo e bem instalado. Pode haver exceções, mas os casos não serão duradouros.

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