Experiência faz a diferença

Aos 34 anos, o paulista Renan Rocha garantiu seu regresso ao WCT e, de quebra, bateu o recorde do australiano Mark Ochillupo, que voltou aos 33 e foi campeão mundial em 99, um ano depois.

 

Há dois anos fora do circuito mundial em que competiu por 12 anos, ele afirma que “a idade está na mente de cada um e é uma cultura imposta pela sociedade”.

 

Nesse meio tempo sua vida sofreu várias mudanças. Renan se casou com a gaúcha Marina San Vicente e juntos tiveram uma filha, Luna, que já completou um ano.

 

Mesmo fora do tour, Renan foi convidado nas duas últimas etapas do WCT no Brasil e em

ambas conseguiu duas excelentes terceiras colocações.

 

Exímio tube rider, em 2000 Rocha conseguiu outro honroso terceiro lugar no Pipeline Masters e, de quebra, foi o primeiro brasileiro a tirar uma nota 10 na temida e cobiçada onda do North Shore de Oahu.

 

O prêmio veio no ano seguinte em forma de um convite especial, pois o Pipe Masters saiu do WCT e foi realizado apenas para surfistas convidados. Renan entrou na lista dos oito especialistas estrangeiros no pico.

 

Segundo ele, o segredo é ter “muita vontade para dropar Pipeline”. Agora, Rocha é novamente mais um dos guerreiros no WCT 2005, que pode contar com até 10 brasileiros.

 

Trocamos uma idéia no dia do seu aniversário, 2 de dezembro, durante um churrasco de dupla comemoração.

 

Então Renan, foi duro o “great come back”?

 

Não foi fácil. Tive que colocar várias regras na minha vida, força da família, pai, amigos. Remei muito contra a maré. Estou dando muito valor e agradecendo muito. Foi muito corrido, está cada vez mais difícil com esses novos talentos aparecendo.

 

Você já saiu e entrou duas vezes no WCT?

 

Foi. E ainda quebrei o recorde da ASP, pois o Occy voltou com 33 anos e eu voltei com 34, quebrando esse tabu de que idade é documento.

 

A experiência contou muito nessa retomada?

 

Muito. Eu vi que o Pigmeu correu a última bateria dele em Sunset sem caddie. Pôxa, era a bateria mais importante da vida dele. Eu mesmo estava sem fazer nada e entrei de caddie para o Neco, fiz minha parte. O surfista brasileiro precisa se ajudar. O cara tava disputando o título, eu me senti responsável em ajudá-lo.

 

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Ser pai ajuda a ter mais determinação nas baterias?

 

Ajuda bastante, sim, eu me concentro bem mais hoje em dia. Essa luz que a criança passa reflete em mim direto e ela me dá força para os meus objetivos, que são todos benéficos para ela. Rola uma sintonia forte entre eu e minha filha.

 

Ficou com saudades de competir em ondas como Teahupoo, Fiji e Pipeline, lugares em que seu surf cresce?

 

Pôxa, você matou a charada. Tem o dinheiro

envolvido, patrocínio e tal, mas tem outra realidade que a galera precisa saber: estou voltando para o WCT por muito amor ao surf. Entrar em uma bateria em Fiji ou Pipeline com mais um cara no line up, ou dois, não tem preço. Essas baterias em Sunset durante o WQS, eu não queria nem saber, eu saia remando e surfando altas ondas sem ninguém. Peguei mais onda do que numa queda normal de três horas. Eu dou muito valor para isso, pois é uma coisa que me dá muito prazer. No próximo ano eu fico com a certeza que irei surfar altas ondas…

 

Qual o quiver que você leva para o WQS e WCT?

 

Eu vou com um quiver selecionado. Normalmente são quatro pranchas, mas em lugares como Margaret River eu acabo indo com seis. Varia de 6 ate 7’2 e aqui no Hawaii até 8’6. Eu não tenho uma Waimea Gun, se eu precisar pego emprestada. Não sou um cara que deliro para surfar ondas grandes.

 

Tem caras que gostam de ondas tubulares, outros de ondas enormes, e outros um pouco de cada, de repente…

 

Exatamente. Eu faço meu quiver para as ondas que eu vou surfar, que deve ser bem diferente do seu (rs).

 

Você ainda treina jiu-jitsu? Que faixa?

 

Eu ganhei a marrom do Ryan Gracie há alguns anos e dei uma parada. Preferi dar um tempo depois de ter torcido um dos joelhos. Competir com contusão é muito difícil. O surf exige muito do corpo, o negocio é sempre estar 100%.

 

Você acha que o jiu-jitsu ajuda na hora da pressão nas baterias?

 

É diferente, eu comparo porque as duas modalidades são individuais, requerem talento, técnica e preparo físico. Tem que tirar essas qualidades do jiu-jitsu e aplicá-las também ao surf. A mentalidade, garra e técnica que a família Gracie passa para a galera tento incorporar no surf.

 

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O julgamento mudou muito com relação ao WCT de antigamente. Agora são as duas
melhores notas e o quesito radicalidade conta muito.

 

A evolução do julgamento é perfeita. Agora os melhores surfistas se destacam, acabou o fator sorte, apesar que no WQS ainda rola. No WCT, mesmo com altas ondas o fator sorte é minimizado. Você hoje pode esperar a melhor onda e arrebentar, não tem mais essa de sair pegando qualquer uma.

 

Você teve dois terceiros no Brasil e mostrou que sabe “rebolar” na marola também?

 

A verdade é que Imbituba é uma onda alucinante e que encaixa com o meu surf. Nas

duas edições fiquei na Guarda do Embaú e quando eles davam o chamado do campeonato eu era sempre um dos primeiros a chegar no pico. Esse ano mesmo eu fui o segundo cara na água. Altas ondas! A onda ali encaixa no meu surf.

 

Onde você mora no Brasil?

 

Em São Paulo, como você. Eu moro na capital mesmo, endereço, telefone, tudo. Se falarem que moro em Ubatuba não é verdade. Não pretendo ficar lá, mas tenho que ficar um tempo pelo menos.

 

A idade pesa Renan?

 

Não, eu acho que não. A sociedade e a mídia tentam fazer você acreditar que está ultrapassado, é uma cultura.

 

Mas está mudando essa mentalidade. Olha o Slater.

 

Vai mudando, o Raoni e essa nova geração irão pegar essa mudança.

 

A sua geração abriu as portas para a deles de diversas formas…

 

É verdade, a nossa geração não tem o reconhecimento que essa galera vai ter. O surf está crescendo forte em todos os sentidos e eles sentirão isso nos próximos anos.

 

Quais são os seus patrocínios?

 

Pôxa, para você ver, eu sou paulista, conheço todos os empresários e quem me patrocina é uma marca do Nordeste, a Smolder, em uma parceria com a rede de lojas Natiluca. Isso mostra que a indústria do surf cresceu e o monopólio atrapalha o crescimento do esporte. Eu uso as pranchas do Joca Secco há mais de dez anos.

 

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A tendência é as empresas investirem depois de terem retorno. São poucas as que têm a visão contraria.

 

Eu vi o Pigmeu entrando na água sem um caddie na bateria mais importante da vida dele. As empresas precisam investir também em alguém que acompanhe essa nova geração. O Mineirinho tem o “Pinga”, a Quiksilver pega os moleques e manda passar 15 dias com o Kelly Slater em um barco. Esse entrosamento é alucinante. E você me falar que as marcas brasileiras não têm condição de dar esse suporte eu não acredito. Eles gastam a maior grana com atletas e não querem gastar mais um pouquinho nesse suporte que é importantíssimo. A Austrália e os EUA estão

na nossa frente, temos que melhorar esse aspecto.

 

Qual a sua visão do jogo nas baterias. Você respeita seus adversários, é sorte… Como você vê isso?

 

Eu tento me conectar com o universo, com as ondas. As baterias do WCT  são show por causa disso. Você pode sentar e esperar.

 

Andy versus Kelly. Quem você acha que surfa mais hoje em dia?

 

O Andy. É normal. Pega um vídeo do Kelly com 20 anos, no filme Black and White, por exemplo. É a evolução natural do esporte. Não tem comparação. Agora tá vindo o Andy e daqui a pouco vem outro.

 

E os brasileiros, têm chances de vencer o WCT?

 

Pôxa, numa análise fria, por exemplo, o Mineirinho, o Raoni, eles fazem parte da indústria e têm apoio para isso.

 

Na minha opinião no Brasil não dá onda grande como rola no WCT hoje em dia. Isso dificulta e muito nossos atletas no tour. Você representou muito bem no Pipe Masters que ficou em terceiro.

 

Eu te falo uma coisa, por que o Mineirinho está preocupado em ganhar etapa do circuito paulista em vez de estar entubando muito em Puerto Escondido grandão? Isso é treinamento para Teahupoo. Vai com a namorada para Fiji ficar entubando muito, só assim criaremos campeões. Ele tem estrutura, dinheiro, mas tem que pensar diferente. Pôxa, eu sou paulista, pedia para minha mãe para surfar no fim de semana. Somos surfistas, não somos playboys. Torcíamos para nossas mães liberarem para irmos de ônibus para o Guarujá. Eu ia para o Peru e ficava dois meses sem tomar banho, tem que ralar, tem que fazer, correr atrás.

 

Bem, parabéns Renan. Welcome back to WCT!

 

Muito obrigado. Isso vai instigar o Fabinho, o Herdy, caso infelizmente ele não venha a entrar de novo. O Pedro Henrique, Trekinho, quero ver esses moleques lá também.

 

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