Pouca coisa é exata no circo da ASP. “Surfe é teatro”, pregava Curren na série de três vídeos “Progressive Surfing Techniques”.

 

Nesse momento, a tela mostrava o surfista caminhando, circunspecto, uma prancha debaixo de cada braço, bonezinho e óculos (Vuarnet), numa atitude considerada extremamente séria e profissional.
 
Inverno havaiano de 88, reta final da corrida para o título mundial. Pipeline perfeito, cerca de 4 metros, ninguém poderia se aproximar do melhor surfista do mundo naquelas condições, Tom Carroll – não em Pipe!

 

No ano anterior, Gary Elkerton, outro animal no Hawaii, tinha conseguido quebrar a hegemonia havaiana na tríplice coroa, vencendo os dois eventos em Sunset, depois de quatro anos de domínio dos irmãos Ho – Michael (83 e 85) e Derek (84 e 86), segurando a coroa.

 

O havaiano Mark Foo, finado bombeiro e comentarista da TV americana durante a Triple Crown, afirmou sem sombra de dúvida: “Para um local, ganhar a coroa é mais importante do que o título mundial”. Praia lotada, Billabong Pro, móvel por todo North Shore, o campeonato mais rico do mundo, nas areias de Pipeline, Banzai!

 

Nenhuma pessoa sensata na ilha desconfiava que Carroll, bi-campeão Mundial (83 e 84), o mesmo Carroll que no ano anterior tinha trucidado adversário por adversário em Pipe para levantar a taça em homenagem a sua irmã, recém falecida num acidente de carro, não havia um único homem, mulher ou criança que duvidasse do destino traçado de Tom Carroll, Pipe e um inevitável título mundial.

 

Nem mesmo Todd Holland, que seria seu oponente numa bateria homem a homem, poderia sonhar com uma vitória sobre um quase imbatível Carroll. Holland, sem nada a perder, atirou-se suicidamente em cada uma das cracas que Pipe oferecia, sendo punido severamente em vacas que ainda hoje me embrulham o estômago só de lembrar.

 

Sendo um solitário representante da Flórida no circuito (fora Frieda Zamba, tetracampeã mundial, 84, 85, 86 e 88), Holland achava que tinha provar ao resto do circuito que podia surfar em Pipe de igual pra igual: “Se você vem do leste (Flórida), tem que mostrar pra eles que se joga”, dizia ele numa entrevista à revista Surfing.
 
Mas não foi desafiando Pipe que Holland conseguiu parar Carroll e sim com uma inesperada e maldita interferência de remada. Parecida com a que Lee Winkler meteu no Andy em Sunset no ano passado e quase comprometeu a festa da turma do Kauai.

Uma merda duma interferência! E de remada, ainda por cima! Tom Carroll sempre foi famoso por ser o maior rabeiro do circuito, as pessoas se entreolhavam e diziam: Karma.

 

No livro sagrado do surfe, uma rabeada está entre os pecados mais mortais, equivalente e tão popular quanto ao “não cobiçarás a mulher do próximo”, como atentou o jornalista inglês Andy Martin no livro “Walking on water”.

 

Barton Lynch, um simpático goofy do norte de Sydney, perseguia o topo do ranking da ASP desde 85, quando foi vice de Curren, mas não gozava de muito respeito em Pipe. Pouca coisa é exata no circo?

 

Quando o locutor anunciou a interferência de Carroll, Lynch viu a sua chance, mas ainda precisava torcer pela eliminação de Damien Hardman, que naquelas condições épicas não seria muito difícil, dada sua fama de maroleiro e falta de intimidade com Pipeline.

Barton ganhou o Billabong Pro e o título mundial que pertencia por merecimento ao homem de um milhão de dólares, Carroll. Mas quem disse que merecer tem alguma coisa com isso?
 
Nada parece perturbar nosso herói Kelly Slater nessa temporada: contusões, rumores de romances extra-tour, pranchas ruins, assédio excessivo? Slater está sempre bem disposto, concentrado.

 

Nem mesmo as seguidas vitórias de Andy Irons tiraram o sono de Slater. No outro lado do ringue, Irons se aborrece com tudo. Reclamou em Mundaka, voltou à carga em Floripa e tudo indica que a pressão no Hawaii vai chegar a níveis assustadores.

 

Desta vez a ilha vai estar dividida. Muita gente quer ver o fim do reinado do wolf-pack do Kauai no North Shore e mais gente ainda quer ver Andy perdendo o rebolado para um veterano careca e invencível.

 

Pouca coisa é exata no circo e pode ser que Fanning, assistindo a tudo calado, tenha a última palavra, ou Taj?

 

Não acreditem que Slater vai ter vida dura no North Shore, porque a Quiksilver tem moral com meia ilha, desde os tempos que produzia os cobiçados calções pretos (black trunks), fora o Eddie Aikau Invitational, que prestigia o maior ícone surfista das ilhas depois do Duke.

 

Em Sunset, Slater vai precisar encarar o estigma de nunca ter vencido lá, ou será que isso é apenas mais um incentivo pro destino pregar mais uma das suas?

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