Local de Saquarema (RJ), Lucas Chumbinho ganhou destaque no site da World Surf League (WSL) na última semana.
Em reportagem assinada por Anna Dimond, Chumbinho é elogiado como um dos primeiros a atacar as ondas gigantes, em vez de apenas surfar e sobreviver.
“Quando caio no mar, não quero pensar em tamanho. Quero surfar aquela onda. Mavericks para mim é como uma onda gigante em J-Bay. Você pode achar o tubo e surfar as seções. Quando falo de surfe, estou falando de manobrar na onda, surfar a onda inteira”, diz Chumbinho.
O atleta praticamente nasceu para surfar ondas grandes. Seu pai – conhecido como Chumbo – começou a rebocá-lo em ondas mais pesadas quando ele tinha apenas 12 anos.
Lucas Chumbinho também foi muito influenciado pelo tio, Marco Monteiro, big rider reconhecido internacionalmente. Eles viajaram juntos para algumas das melhores ondas do mundo, como Mavericks e Puerto Escondido. Foi aí que Peter Mel, comissário do Big Wave Tour, começou a ver Chumbinho de perto e percebeu que era um candidato em potencial.
“Ouvia falar de Lucas, mas a primeira vez que notei que ele era um pouco diferente foi quando vi um vídeo dele surfando em Puerto Escondido. Foi logo depois do nosso evento (em junho passado). Escutei que ele estava quebrando lá, mas aí vi o vídeo e ele estava arrebentando nos tubos. Ele já surfa muito bem em ondas pequenas e consegue levar isso para os dias grandes”.
“Ele então chegou para mim e disse ‘Quero ser um competidor do Big Wave Tour. Por favor, conheça o meu nome'”, lembra Peter Mel. “Quando realmente vimos que ele tinha algo especial, no entanto, foi quando surfou Mavericks. Foi ali que vi que ele tinha um talento especial para a coisa”.
A parceria com Carlos Burle, 49 anos, também foi destacada na reportagem. Burle revelou que Chumbinho chamou a sua atenção durante um campeonato amador no Brasil. O legend notou que o promissor atleta tinha talento, mas ainda não estava pronto para o “horário nobre”.
“O diretor do evento veio até mim e falou algo como ‘Lucas é um bom garoto, mas ele deu em cima de uma garota no vestiário e um cara quase o esfaqueou'”, lembra Burle. “Ele tinha 16 anos. É porque ele gosta das garotas, você sabe… Estou sendo honesto. Então, pensei que seria difícil segurar esse garoto. Onde está o foco?”.
Cinco anos se passaram e a maturidade veio. Até o último outono, Chumbinho vinha colecionando resultados ruins no QS, sonhando com o CT e usando qualquer lucro obtido nos eventos para perseguir as ondas grandes. Resumindo, ele estava em todo canto.
“Quando tem 2 ou 4 pés, não me sinto à vontade”, diz Lucas. “Quando as ondas chegam aos 18, 20, 30 pés, me sinto muito mais confortável na água. Eu me sinto muito conectado com o oceano. Não sinto a pressão. Agora sinto que estou surfando o que quero e fazendo o que eu amo. Esse é um detalhe que mudei para a minha vida inteira”.
A virada veio em outubro de 2016, quando Burle convidou alguns surfistas – incluindo Chumbinho – para encarar Nazaré, em Portugal. Burle (junto com Maya Gabeira e alguns atletas) tem uma base lá no inverno, quando as ondas estão maiores. Dos atletas convidados, apenas Lucas Chumbinho aceitou, voando de Saquarema para Lisboa em busca da promessa de condições de vida ou morte. O que ele conseguiu, entretanto, foi muito mais do que trip de surfe como outra qualquer. Houve meditação e um retiro de yoga. Havia rotinas de exercícios e mais meditação. Depois de tudo isso, o swell finalmente chegou.
“Estamos falando de ondas de 60 pés”, disse Lucas, com uma risada nervosa. “Naquele dia eu vi Jamie Mitchell na água e falei ‘Sim, eu quero remar’. Estou muito assustado, mas quero fazer isso. Quero sentar debaixo do pico, embaixo de Jamie, e acabei pagando algumas ondas boas.
“Depois de pegar a minha primeira onda grande lá eu me sentia como ‘Olha o quanto essa onda é grande’. Peguei a onda, saí, fiquei olhando para trás e uma gigante veio em minha direção. Eu vi Carlos vindo me pegar, mas falei ‘Você não tem tempo para vir me buscar’. Então ele voltou para tentar me pegar antes da segunda da série, mas eu levei uma montanha gigante de espuma na cabeça. E fiquei me sentindo como ‘Estou colocando todo o meu treinamento na vida real. Eu posso fazer isso. Eu só quero a minha mãe’”.
Depois de mais algumas “subidas e descidas”, Lucas e Carlos finalmente saíram da zona de impacto. Mas a provação ainda não havia terminado. “Passamos 30 minutos no shorebreak tentando entrar com o jet”, fala Lucas. “Eu nunca vi um shorebreak com aquele tamanho, 15 pés de espuma. Foi horrível. Mas esse é o nosso trabalho agora”.
Apesar da angústia naquele dia, Chumbinho deixou uma ótima impressão. Peter Mel observou tudo. “A primeira vez que o vi surfando ao vivo foi no dia em que fizemos as finais do Rip Curl Pro Portugal”, conta Mel. “Fui cedo naquela manhã para surfar Nazaré. Peguei o jet ski preparado para pegar umas ondas. Uns dois caras estavam remando e Lucas estava sentado a uns 100 metros abaixo de todo mundo – ele estava arriscando a sua vida para pegar essa onda”.
“Há uma foto dele em que está pulando na frente de uma bomba que parece ter uns 100 pés de espuma. Então o vi levar essa onda na cabeça e aí ele voltou ao lineup em 45 minutos. Ele foi amassado, ficou preso no inside, e então retornou e estava ali no pico novamente. Isso mostra o quanto ele quer isso”, continua Mel.
Essa primeira sessão não apenas impressionou Mel, como deu confiança a Lucas para seguir em frente. Ele continuou a trabalhar com Burle, e desde aquele dia em Portugal está totalmente imerso no programa zen do seu mentor.
Burle explicou: “Não é um relacionamento normal de treinador / esportista, é um treinamento de vida. Estou dando tudo o que aprendi na minha vida. Não estou tentando controlá-lo. Eu lhe digo: “‘É a sua vida, se quiser me ouvir, me escute, se não quiser me ouvir, tudo bem!’”.
A parceria entre eles foi selada no fim do ano.
“Saímos em frente à nossa casa no Havaí. Acordamos muito cedo, antes de tomar o café da manhã, e pegamos algumas pranchas de stand-up paddle. Era uma bela manhã. Tudo liso. Perguntei a ele se queria ficar mais próximo e falei ‘Lucas, deixe-me falar uma coisa. Toda vez que você pega o telefone, você tem ideia de quem é essa pessoa. Você tem uma lembrança delas. Qual o tipo de lembrança que você quer deixar? Como você quer que as pessoas te entendam? Qual o tipo de história que você quer para si mesmo?’”.
“Naquele dia, alguma coisa deu um estalo. As pessoas estavam pensando que ele tinha muito talento, mas é isso, estou emocionado porque estou certo de que aquele dia fez a diferença. Naquele dia ele entendeu que ele é o único que pode fazer, não eu ou qualquer outra pessoa. Isso vem do coração. Você tem de estar lá todo os dias da sua vida e você tem de ser o seu próprio mestre. Tudo isso aconteceu no último mês de novembro. A felicidade pode não ser alcançada comprando carros ou ganhando títulos. A felicidade é a paz”.
Uma publicação compartilhada por Lucas Chianca “Chumbo” (@lucaschumbo) em Ago 18, 2016 às 6:11 PDT
Ser Zen não é nada /fácil, principalmente para um garoto de 21 anos. “É um sacrifício, mas um bom sacrifício. Eu não vou ser um garoto normal, ir à festa e em todos os lugares, beber cerveja. Não quero isso agora. Quero continuar sério e focado no meu caminho e na minha carreira”.
“Aprendi muito com Carlos. Mas o ponto importante que aprendi é que, se você quer ser o melhor surfista de ondas grandes do mundo, precisa treinar para isso, porque todo mundo está treinando para isso. O que penso muito é que agora eu tenho de trabalhar bastante”.
Fonte: WSL