Por trás das notas

Estamos chegando lá

Aproveitando a deixa que o Bocão proporcionou em sua última coluna na Fluir, sobre a realidade do surf brasileiro, vou esticar o assunto para um outro lado.

 

Apesar de estarmos sempre esperando um título mundial para satisfazer nossa necessidade de afirmação, a situação do surfe brasileiro é muito boa, somos com certeza uma das maiores potências do nosso esporte e com muito potencial de crescimento.

 

Mesmo não tendo um campeão mundial profissional, nós temos um esquadrão de oito atletas e uma grande capacidade de renovação. Já estamos melhor que o tênis brasileiro, que já teve o número 1 do mundo, mas que não tem continuidade e renovação. Na verdade o surfe brasileiro pode ser comparado ao tênis argentino, sem nenhum grande campeão, mas com grandes jogadores e contínua produção de novos talentos.

 

Muito se fala sobre o que acontece com nossos surfistas que não conseguem um título mundial profissional. O engraçado é que até os 18 anos quase não há diferenças técnicas, o problema começa na hora de se profissionalizar e planejar suas carreiras. As questões do foco e da motivação estão intimamente ligadas ao bom desempenho dentro da água.

 

Quando estamos distraídos, pensando em problemas externos, nossa produção não é como poderia ser. Seja pensando na namorada ou nas contas do mês a concentração é desviada. Nossa natureza latina e nossa herança cultural acabam acelerando o processo de insatisfação com a cansativa vida da estrada, com seguidas viagens, horas de espera, grandes deslocamento e vários dias ociosos longe de casa enquanto as ondas não aparecem.

 

Quanto ao planejamento, existe uma grande confusão de prioridades que acaba influenciando direto no nível de motivação. Se o objetivo for alcançável, aumenta a auto-estima, a motivação do competidor e a satisfação do patrocinador. Caso o objetivo for inalcançável, todos se desestimulam e acabam abortando um projeto mais longo e caro como o circuito mundial e ficam brincando de ser surfista profissional, gastando mais do que se ganha até que o sonho acabe.

 

A única aposentadoria real para um surfista no Brasil é montar uma escolinha, ou então abrir uma loja, ou representação de marcas. Não existe espaço na área de marketing e com a globalização das empresas o espaço vai ser sempre menor, só tem vaga para PHD de escritório, e não de praia. Não existem garantias de um futuro tranqüilo e tudo que for economizado será útil mais tarde.

 

Com o desenvolvimento do surfe como esporte, os atletas têm de ser direcionados para uma evolução técnica, cultural e profissional cada vez mais cedo. Num futuro próximo somente aqueles que estiverem devidamente preparados terão chances de integrar a elite do surfe mundial. Arrisco-me a dizer que só os que têm contrato de longo prazo, e que geralmente só as multinacionais fazem, terão oportunidade no circuito mundial.

 

Falar é fácil, eu sei, quando temos que criar filhos e pagar contas o buraco é mais embaixo, e é por isso que caras como o Joel Parkinson, que acabou de fechar um contrato de mais de US$ 1 milhão por ano, pode se dedicar exclusivamente às provas do WCT. Enquanto isso, o melhor brasileiro ganha uns US$ 5 mil por mês e tem que ficar matando um leão por dia para tentar se manter, ter uma vida digna, dar um futuro melhor para seus filhos e fazer um pé de meia.

 

Apesar do desenvolvimento técnico do surfe brasileiro, nossa realidade não é o Teco Padaratz e o Fábio Gouveia, está muito mais para Cauli Rodrigues, o esquecido campeão dos anos 80 que nunca teve um patrocínio decente e que depois de dedicar boa parte de sua vida na construção de um futuro melhor para estes que estão aí, não terá uma aposentadoria decente.

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