Soul Surf

Estamira, metas e enfados

Anchors Point, Marrocos: os surfistas viajam atrás de ondas e também encontram maravilhamento. Foto: Ricardo Borghi.

“Quando olho para dentro, sei que não sou nada – e isso é sabedoria.

 

Quando olho para fora, sei que sou tudo – e isso é compaixão”.

 

Equilíbrio Zen

 

Estamira, profetisa delirante, ser que habita aquele país-limítrofe que tanto tememos, entre a sanidade e a loucura, a mulher real que foi título e objeto do documentário de autoria magistral do meu amigo Marcos Prado, e que mora (ela morava?) no aterro do Jardim Gramacho, que contém 70% do lixo do Rio de Janeiro, disse: “Tudo que se pensa, existe, é”. Imagino que Buda diria: “Tudo o que se pensa, não existe, não é”

 

Estou mais maduro, óbvio instigante. Para um surfista não é nada fácil tornar-se mar duro – não podemos perder a flexibilidade, sem a qual seremos prancha, não surfista. A combinação entre nós dois – eu e a prancha, o flexível e o rígido, o ser que pensa e que executa, o que dá energia e quem a recebe e flui, – é que faz a coisa acontecer. Ela tem que ser rígida para que não precisemos ser.

 

O que eu exijo dos outros é o que eu quero ser? Como Buda, acredito que não existe a separação entre coração e mente, entre razão e paixão, entre dor e prazer, – essa conceito presente em boa parte da cultura ocidental -, e que as soluções estão dentro de nós, da nossa entidade coração-mente-espírito integrada, não nos deuses.

 

O cristão pede ajuda a Deus, o budista recebe as ferramentas para lidar com o problema. Como se pronuncia “Cês vire, malandro!” em sânscrito? No surf vamos buscar o coração da mente. Aí, o que parece um imenso fardo de responsabilidade torna-se uma sutil libertação – e assim o fardo se vai e se esvai nos borrifos de espuma.

 

E agora um prefácio meiado (no meio do texto) nada a ver, com pinta de epígrafe, de autor que vocês não vão querer conhecer. Só adianto que surfava: “Sofro de enfado. É uma doença grave, que consome paisagens e encerra amizades.

 

Um dos sintomas é consumir o tempo com voracidade peculiar, – não deixa sobras nem para o jantar boreal, com cuidado para não ter que ser testemunha da morte de um anjo. Sofro de enfado, tédio mesmo, canso-me fácil de novidades, da vida, e dos meus próprios desejos. Basicamente canso-me de mim. E aí, com grande relutância, sou forçado a me renovar.”

 

Dei para voltar a ler o escritor argentino Jorge Luís Borges. É perigoso ler Borges, deveria ser ainda mais perigoso ser Borges. Por quê? Por sua capacidade de, através de raciocínios, poemas incisivos e idéias inusitadas, nos atirar a lugares desconhecidos da nossa própria mente, ameaçando desestruturá-la – e às vezes conseguindo. O cara é meio pingüim com pena de papagaio.

 

Teve um amigo meu que, na adolescência, tomou meio ácido e nunca mais voltou. Foi internado e acessou o outro lado sem escalas e sem ticket de volta. Sua bagagem de equilíbrio (e de paz?) ficou retida numa alfândega feita de uma teia de neurônios fragmentados.

 

O poder de Borges pode ser lisérgico. Ele nos fustiga com combinações de palavras inovadoras. O conceito de “tempo como labirinto”, por exemplo. Dá um nó no fio de Ariadne! (que quase enforcou o Minotauro), provoca tendinite com escoliose na psique. Para nós, surfistas, poderia ser “mar como labirinto”.

 

Essa idéia me deu uma vertigem assim que a li, como se resgatasse uma sensação que eu pressentia existir em mim, mas não tinha coragem de encarar. Dei de cara com o complexo insolúvel. Tinha medo de me perder dentro da minha própria mente e numa mais voltar a ser “são”. Perder-me no mar de pensamentos, onde não há surf, só tempestades.

 

Marejar… Como disse: já vi acontecer. Tá certo que alguns tiveram um empurrãozinho lisérgico – o surf, ao contrário, te integra no universo – cogumelo mágico de água salgada, ventos e ondulações. Sem rebordose. A Integridade é o conceito-saúde por excelência. Ufa! Menos mal.

 

Quem cria uma meta, cria uma tensão. Não adianta visualizar o fim da onda sem exercê-la plenamente durante o percurso. Não é bom nem ruim, é uma tensão, simples e vital, como a corda do violonista, e do equilibrista: pode-se atravessá-la com leveza, prazer e arte, ou com obrigação, medo e rigidez.

 

Eu não quero chegar ao fim da onda, eu quero surfá-la. “Chegar ao fim” é uma conseqüência. Os amantes do resultado não saboreiam o processo, como nos aconselham os praticantes de sexo tântrico.

      

O surf não é uma atividade de resultados. Daí a contradição de se competir no surf. É uma prática de vida. Mais vivos seremos e, principalmente, nos sentiremos, tanto mais estejamos naquele exato momento naquela exata onda, sem que um rabicho da consciência esteja preso na areia, no olhar do outro. Se me apego à consciência de um juiz externo me perco, saio da essência, do momento presente, e deixo de ser.

 

Os surfistas viajam pelo mundo explorando suas vísceras. Eventualmente encontram ondas, às vezes nada, às vezes merda. Mas o espaço do planeta é limitado, e a imaginação e o crescimento populacional, aparentemente, não. Portanto esgotam-se as possibilidades de maravilhamento.

 

Que merda! Vamos supor que eu não aceite essa condição, e que, com o meu otimismo compulsivo diga que essa circunstância exige que auscultemos ainda mais fundo nossas capacidades. Se uma limitação nos é apresentada é porque o nosso desafio é encontrar uma alternativa, e dessa forma nos tornarmos um pouco melhor e mais capazes do que há um segundo. Hopefully.

 

“A dor desabrocha em nós a expansão do entendimento” (Hermann Hesse). Filosofia excessivamente otimista? Sorry, e não sorry. Parafraseando livremente o escritor francês Marcel Proust: o fato de novas paisagens estarem se esgotando requer que tenhamos cada vez mais novos olhos.

 

Posfácio com caráter de P.S., parafraseando sem escrúpulos a escritora dinamarquesa Isak Dinesen:

 

“Sou poeta de rimas mudas, até que um inocente nativo kikuyu do Quênia venha e me diga: “Sahib, fale como a chuva…”.

 

Sidão Tenucci, escritor, surfista há 42 anos, viajou por 50 países. Diretor de marketing da OP Ocean Pacific. Autor dos livros Almaquatica ( Fnac ) e O Surfista Peregrino ( Livraria Cultura ). Na verdade não é nada, não é ninguém, e mais perplexo e com frio fica a cada vez que tenta descobrir-se.

 

 

 

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