Carlos Burle

Espírito da adolescência

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Performances de Carlos Burle no México fazem fã lembrar da adolescência. Foto: © WSL / Ecker.

 

Em algum lugar no fim dos anos 80 ou início dos 90, rolou uma etapa do campeonato brasileiro de surf no Quebra-Mar, em Santos.

No treino antes das baterias, os tops de todo o Brasil entravam no Canal 1 e aqueciam as turbinas.

Foi uma coisa indescritível, você adolescente, ter o prazer de surfar com os tops no seu pico.
Parece uma aula de como se surfa a sua onda. Qual o melhor jeito de interpretar aquela formação, como assim fazem os mestres Almir Salazar, Picuruta Salazar e Cisco Araña?

Claro que todo garoto tem as suas referências no esporte. Alguns valorizam uns surfistas, outros discordam, criticam e valorizam outros.

Rolam uns raros consensos entre os pontos de vista altamente especializados, formados nas beiras d´água e outsides perdidos.

Neste dia do campeonato, o céu estava nublado, chuvoso, com a formação em torno de 1,5m.
Tivemos sorte, pois um destes poucos surfistas sob os quais pairava o consenso estava ali, do lado, no Canal 1, fazendo alongamento, pronto pra cair no mar.

Identificado: “É o Carlos Burle” – alguém gritou.

Estávamos de saída, mas não tinha como ir embora naquela hora.

Caindo de cansados… Aquela coisa de moleque, de ficar 4, 5 horas direto no mar… Já havíamos surfado ao lado de grandes nomes, mas… ficamos.

E ele surfou… Muito, muito. Educado, tranquilo, se expressava pelo surf.

Saímos do mar depois, pois não estávamos aguentando o cansaço, mas continuamos olhando da areia.

Foi como se ele falasse pelas manobras: “É assim que se surfa no Canal 1, no estilo Burle!”.

Esse foi o Burle competidor do circuito profissional. No domingo assisti ao vivo a todas as baterias do Todos Santos Challenge, etapa do Big Wave Tour.

Grudado na frente do computador… Torcia, gritava, pulava, sofria e comemorava.

As viradas de resultado que o Burle conseguiu foram simplesmente impressionantes!

Foi para a final. Não deu por pouco, ficou em terceiro. Mas foi fantástico, preciso, com drops de outro mundo.

Daquele dia no Canal 1, 26 anos se passaram. Você já era grande, Burle. Como conseguiu continuar evoluindo por mais 26 anos? Impressionante.

Não há suposições, há provas, pois, nesse meio tempo, você só:
– Em 1998, tornou-se campeão mundial de ondas grandes em Todos Santos.
– Em 2010, foi novamente campeão mundial, o primeiro do Big Wave Tour.
– Em 2012, campeão do Billabong Pico Alto, no Peru.
– Em 2013, dropou uma das maiores, senão a maior onda já surfada, em Nazaré.

E novamente em Todos Santos, 18 anos depois da primeira vitória lá, você foi finalista. Obrigado, Burle:
Por provar que limites existem para serem quebrados;
Por colocar o país no pódio;
E, finalmente, por me devolver, 26 anos depois, a emoção do espírito da adolescência.

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