
Imprevisibilidade é foda.
Surfe é pura paixão, e toda paixão é imprevisível.
Essa coluna deveria falar da sensacional vitória do Neco, coincidindo
com a volta do Ronaldo, os dois fatos mais importantes para o esporte
brasileiro depois da conquista do penta e do título da seleção de vôlei,
na minha modesta opinião.
Mas não.
Passei os dois últimos dias refletindo sobre a bomba no Sari Club, sobre
o Jungle Juice e sobre o fato de Deus ser brasileiro.
Sim, caros crentes que nem pão quente, o todo-poderoso tem um pézinho na
Bahia de São Salvador, na Cidade Maravilhosa e, por que não? na avenida Paulista.
Heresia!
Queime no inferno, infiel! gritou o ‘irmão’ indignado.
Quem já ouviu falar do Sari Club sabe que a casa noturna é tão, ou
mais!, famosa do que Uluwatu.
O sujeito aterrissa na ilha e já pergunta pro primeiro brasileiro que
encontra:
– Onde fica o Sari Club? A que horas abre?
Depois, ânimos acalmados, vem a segunda parte da conversa:
– Tem onda?
Perdoem-me se pareço bem-humorado, não é minha intenção.
A verdade é que fiquei muito impressionado com o covarde ataque e mais
chocado ainda com a impressionante constatação de que Deus, se não é
brasileiro e flamenguista, tem uma simpatia danada com nosso povo.
Quando ouvi a notícia da bomba pensei na mesma hora: – morreram uns
40 compatriotas, no barato.
Saí em busca das informações torcendo pra não achar ninguem conhecido.
Fui na BBC, no Surfersvillage.com, no saite da Surfer (que tem um forum
parecido com o daqui), fui em tudo quanto é canto.
Quando achei o texto do Velho Darsa no saite, esclarecendo tudo pra
gente, apreensivo, aqui no Brasa, tomei um susto.
A inauguração de uma famosa loja de roupas, carioca, a menos de 100
metros do local da explosão salvou a vida de um punhado de felizardos
brasileiros.
Um calafrio tomou minha nuca.
Nos outros 364 dias do ano, o natural era termos maresios, tramandaenses, joaquinos, caiobandas, serrambinos, arpoadeiros e fortenses pendurados pelos cantos do Sari Club, agarrados nas cinturas australianas, italianas, francesinhas e alemãs, dançando alegremente ao som do Fatboy Slim na pista e enchendo a lata de sucos, da selva e de cevada.
Mas, atenção leitor, toda sua atenção, naquele fatídico sábado, especialmente no dia que jamais os surfistas vão esquecer, dia da criança, ironicamente aqui no Brasil, naquele exato dia, a brasileirada celebrava, ou tentava penetrar, numa festa brasileira.
O Luke Egan, saindo d’água em Mundaka, declarou desolado: “- certamente
conhecemos gente que estava lá, no Sari Club.”
Você escuta a notícia e tem a certeza na mesma hora de que alguém, no meio das quase 200 mortas e 300 feridas, você deve conhecer.
Por que um alvo tão característico dos surfistas ?
Essa é a pergunta que angustia Bernie Baker, que escreve: “O comprido braço do terrorismo covardemente contaminou nosso estilo de vida. Não há mais como evitá-lo, dar as costas ou fingir que a ameaça não existe. A causa radical dos muçulmanos parecia ser especificamente e diretamente dirigida aos americanos. Agora, entretanto, todos nós devemos nos defender. Brasileiros, franceses e neo-zelandeses, nesse
dia, os australianos tambem são alvo. Surfistas de todo mundo terão que
reavaliar suas estratégias de viagem. Desta vez era uma boate em Kuta. Aonde vai ser o próximo?”.
Dá arrepio só de escrever um trecho do texto.
Como surfista, tenho a nítida impressão de que o festivo povo de Bali vai pagar caro pelo buraco deixado na Legian.
Logo eles, que nunca temeram a morte, que a celebram coloridamente, cantando e dançando?
No jornal Orange County Register de hoje, dia 15, mais uma notícia terrível: Steve “Webby” Webster, surfista de Huntington Beach, comemorava seus 41 anos em Bali e foi um dos corpos achados entre os 188. O amigo dele, Steve Cabler, que tomava cerveja junto dele, minutos antes da explosão, relata que a última vez que o viu, Steve estava com duas australianas, corpo em chamas e o teto desabou em cima deles.
Outro depoimento no mesmo jornal, mostra a impotência diante da barbárie: John Parodi Jr, outro companheiro de viagem, tinha feito amizade com um australiano, quase dois metros de altura, forte feito um touro, logo em seguida da tragédia, o encontrou chorando e perguntou: – tudo bem, amigo? Posso fazer alguma coisa?
O gigante australiano tinha perdido uma filha de 15 anos.
O Forum do saite teve papel fundamental em informar nossa comunidade dos
paradeiros de filhos, amigos, namoradas, mães, pais, irmãos e meros conhecidos da praia.
Foi feita, finalmente, uma troca inteligente e útil de mensagens que ilustram uma catátrofe de impacto planetário, atemporal.
Poucos babacas se aventuraram e talvez até tenham amadurecido um pouquinho, se dedicaram o tempo que perdem falando e escrevendo merda, na leitura desse bendito Forum, tão esclarecedor, tão emocionante.
Pra mim, fica a desconfiança de que o Camarada lá em cima, sempre tão ocupado, tem certa predileção pelos mulatos inzoneiros – apesar dos beira-mar, hildebrandos, bispos satânicos e dessa elite cagona que manda no país desde sempre.