Torcedor Fanático

Entrega dos boletins

Para torcedor fanático, Heitor Alves teve ano convincente e ganhou respeito da mídia internacional. Foto: Aleko Stergiou.

Fim de ano é hora de fazer aquele balanço dos principais circuitos, puxar a orelha de quem mandou mal, parabenizar os que mandaram bem, incentivar quem está querendo mandar alguma coisa no ano que vem e, sobretudo, colocar algumas (temidas) cartas na mesa.

 

Só um segundo… Deixe-me plantar a famosa bananeira aqui para olhar os rankings mundiais e achar os brasileiros. Ok, achei o pessoal aqui nas rabeiras, vamos lá!

 

Não me lembro muito bem de outro ano tão sem sal para o surf brasileiro nos principais circuitos mundiais. Os lampejos de alguns mais afortunados e dedicados apareceram com Bruno Santos no Tahiti e Adriano de Souza sendo o mais regular no circuito.

 

O vice de Silvana Lima e o total domínio brasileiro nos rankings de bodyboarding são as outras duas façanhas que merecem destaque. Meus parabéns, mas queremos mais e vocês podem mais!

Adriano de Souza, sétimo colocado, foi o melhor brazuca na temporada. Foto: ASP Kirstin / Covered images.

Mas, vocês quem? Quem saiu do World Tour este ano já estava mesmo na hora da aposentadoria. Já vim cantando essa bola e agora os circuitos nacionais vão engrossar com mais esse time que “cansou” do tour.

 

O surf brasileiro passa por uma entressafra de talentos na primeira divisão. Quem deveria emplacar pelo WQS se acomodou antes da hora e no fim já era tarde demais pra buscar alguma coisa.

 

A real é que a pressão era pouca devido à pouca idade de muitos deles. O foco saiu de Raoni e Pedro Henrique, mais experientes, e foi pra cima de Hizu, Jadson e até Guigui Dantas. Os dois últimos não tinham como prioridade ingressar no World Tour já em 2009.

 

E o que aconteceu foi isso: no fim das contas, Jihad correu por fora no WQS, Mineiro e Heitor se garantiram pelo World Tour e ficamos chupando dedo sem ter muito ao que assistir (e torcer) de interessante no próximo ano. Menos mau que temos os três mosqueteiros… Poderia ter sido pior!

 

É notável também como cada vez mais a divisão de acesso está mais séria e competitiva. Pena que alguns brasileiros fanfarrões não tenham sacado isso antes de chorar as pitangas agora no fim do ano.

 

Mas, quem perde com isso? Todos perdem! A mídia, a torcida, os próprios atletas e os patrocinadores, ou seja, se antigamente causamos impacto ao quebrar as barreiras do World Tour com uma invasão, agora vamos começar 2009 com uma debandada gigantesca.

 

O WQS de 2009 vai pegar fogo mais uma vez e os jovens talentos precisarão se dedicar muito se quiserem ingressar.

 

A ASP sabe da importância da audiência brasileira na internet e também do nosso mercado consumidor. Não duvido nada que ainda sobre algum convite para correr o Tour.

 

Mas, vamos à entrega dos boletins que todos estavam esperando. Uma enxurrada de notas vermelhas e aposentadorias!

 

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Jihad Khodr teve dificuldade em adaptar-se às ondas do World Tour. Foto: Aleko Stergiou.

Jihad (44º)

No World Tour teve um ano muito pobre, muito mesmo. Não surfou nada em comparação ao que fez no WQS de 2007. É fácil de notar que seu problema em adaptar-se às ondas foi o principal motivo de seus péssimos resultados.

 

Em contrapartida, foi o atleta que me deu o maior “cala-boca” em três anos de coluna ao se classificar pelo WQS. Tudo bem que foi de uma forma mais do que inusitada, na qual uma combinação de resultados aliada à falta de ondas nas suas baterias em Haleiwa o trouxeram de volta à elite como num último suspiro.

Claro que não é somente de um resultado que fora composta sua reclassificação, mas quem assistiu ao derradeiro campeonato sabe muito bem do que estamos falando. Todos merecem uma segunda chance e é isso que vamos ver em 2009.

 

Para torcedor fanático, surf de Neco Padaratz caiu no conceito dos juízes. Foto: ASP Robertson / Covered Images.

É o campeão de críticas construtivas e algumas piadas de mau gosto no Fórum do Waves. Sua atitude está acima de tudo isso e é assim que se faz: surfar bem é a receita para virar essa mesa. Se Peterson sem estilo conseguiu manter-se temido por tanto tempo, por que Jihad não pode fazer o mesmo?

 

Neco (43º) Antes de Trestles só havia feito um resultado mais ou menos em Bell’s. Depois desse campeonato, sucessivos 33º lugares já faziam transparecer algo de ruim pela frente. Seu power surf com raros lances de modernidade não estava mais se encaixando muito bem aos olhos dos juízes.

 

O que há pouco tempo parecia ultramoderno caiu no conceito dos que soltam as notas, somando-se ao fato da explosão da nova geração ultrapassando limites.

 

Umas rasgadas no meio da parede da onda, uns cutbacks meio quadrados, umas vacas sem sentido fizeram seu surf ficar meio estranho em meio a essa transformação toda atual. O resultado é que o nosso futuro ?Taylor Knox? acabou encalhado no limbo de mais dúvidas sobre o seu real potencial de continuar representando o Brasil no Tour.

 

Pedra (36º) Quando o campeonato de Sunset ainda estava em andamento e Rodrigo Dornelles surfou com maestria uma onda acima de 9 pontos, fiquei emocionado. Recebi até um e-mail de meu amigo big rider de Mavericks, Christian Beserra, comentando sobre o fato.

 

Uma onda de impressionar e um surf de gente grande. Mas, e o que mais Pedra fez este ano? Um nono lugar na França? Décimo sétimo em Fiji, Indonésia e Califórnia? Pouco, muito pouco para quem tem pretensões de brigar pau a pau com rabetadas insanas e tubos impossíveis. Dedicado e aos 34 anos de idade ainda pode voltar ao Tour, assim como Greg Emslie fez este ano, incomodando a molecada no WQS. Mas, precisa querer e muito, pois a tarefa não é nada fácil.

 

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Leonardo Neves fez boas apresentações em Snapper, mas caiu de produção no Tour. Foto: ASP Robertson / Covered Images.

Leo Neves (35º)

Seu melhor resultado foi o quinto lugar no Brasil? Não foi. Foi a nona colocação no primeiro evento na Gold Coast. Surfar bem nas linhas perfeitas de Snapper, primeiro evento do ano, todos querendo começar com o pé direito, não é fácil, não.

 

Ficar em quinto no Brasil nas ondas caseiras e com ausências de peso, não reflete a real nobreza do feito. Mas todos esperavam muito mais de Leo.

Esperávamos que ele engrossasse pra cima das estrelas do circuito e mostrasse personalidade ao carregar a bandeira brasileira pelos quatro cantos do planeta.

 

Esteve despreocupado demais numa época em que o nível dos bem rankiados está cada vez mais forte e profissional. Vai penar agora no WQS, onde a garotada incendeia geral e onde cara de mau não resolve nada, que o diga Sunny Garcia!

Rodrigo Dornelles ainda pode retornar à elite, mas precisa querer e muito. Foto: Aleko Stergiou.

Heitor Alves (25º)

Quem diria, hein, Heitor – claro, além do Simon, seu técnico e shaper – que você faria um ano de estréia com resultados tão convincentes e ganharia respeito da mídia internacional? Tem, sim, o surf moderno necessário para ir às cabeças.

 

Tem, sim, a tranqüilidade e a consciência do quanto é difícil chegar lá. Tem, sim, a humildade e simplicidade bem dosada da pureza nordestina, aliada à esperteza carioca, para driblar as adversidades que aparecerão.

 

Para chegar às cabeças, é preciso ter surf, preparo e cabeça! Não pode relaxar agora que debutou, pelo contrário, tem que entrar com a pegada mais forte ainda! Na minha opinião, Heitor ainda vai surfar melhor em competição do que Bobby Martinez!

 

Mineirinho (7º) O ano foi tão ruim para os brasileiros no World Tour que a nossa única esperança de um final triunfante se machucou nas últimas etapas! O que parecia que teria cheiro de vice-campeonato ou mesmo de top 5 ou top 3 acabou tirando um pouco mais do brilho deste ano para o nosso time.

 

Uma das maiores perdas foi não ver ao menos um brasileiro no pódio na praia da Vila (que provavelmente seria Mineirinho). Para muitos, essa sua colocação entre os top 10 foi surpresa, tendo em vista a colocação no ano passado, onde precisou da forcinha do WQS para se classificar.

 

Porém, o que temos agora é a promessa de que você vai brigar pelo título. A mudança para a Califórnia e o amadurecimento físico e psicológico para as competições devem trazer resultados mais positivos ainda. Será? O que nós, brasileiros, muitas vezes esquecemos é que não somos só nós que estamos nos preparando para as conquistas.

 

Assim como Mineiro, muitos dos tops fazem uma preparação intensa, concentrada e voltada para o título mundial, mesmo que muitos deles apareçam em fotos empunhando latas de cerveja e olhos vermelhos. Talvez o ano que vem ainda não seja ano de título mundial, mas, quem sabe, de levantar algum caneco, nem que seja em seu novo quintal (Trestles) ou, melhor ainda, na estréia, na Gold Coast. Assim como o francês Jeremy Flores, Mineiro deverá continuar a triturar adversários de peso sem dó nem piedade!

 

Não poderia deixar de comentar a façanha de Slater em utilizar uma carenagem de fusca com motor de Ferrari em Pipeline, onde usou uma 5’11, e mostrar mais uma vez como limites são ultrapassados.

 

Pessoal do WQS: agora chega de dar mole, né? A garotada que esperou o Brasil para pontuar não pode mais vacilar assim, precisa ir pra cima de janeiro a dezembro, seja onde for, seja contra quem for!

 

Aos três mosqueteiros do World Tour: boa sorte e muita dedicação. Nada de desculpinhas esfarrapadas estilo jogador de futebol (?ah, a onda não veio, surfei bem mas não deu, a prancha não estava boa, comi acarajé batizado na noite anterior?). Queremos ver gol, não precisa ser de placa, mas queremos ver gol!

 

Feliz 2009 a todos! Aloha!

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.