Engenheiros do Hawaii

Pela primeira vez o canal Waves Hawaii publica reportagem sobre os shapers brasileiros que vivem no Hawaii, mais precisamente no North Shore de Oahu, principal Meca do surf mundial quando se fala em potencial de ondas e também de equipamentos.

 

O idealizador e responsável pelas entrevistas com seis dos principais profissionais da plaina brazucas nas ilhas é o cinegrafista Bruno Lemos, que falou com shapers experientes do calibre de Heitor Fernandes, Jorge Vicente, Biro, e expoentes da nova geração como Johnny Lopes, Eddie Picollo e Christian Piani.

 

Além de mostrar um importante panorama do mercado havaiano, levantar as vantagens e desvantagens de  uma carreira de shaper no Hawaii, e discutir novas tecnologias como máquina de shape, tow-in e outras tendências para o futuro, um dos objetivos desta matéria é homenagear um dos principais profissionais que o Brasil teve nesse campo, o carioca Fernando “Sheena” Ribeiro.

 

Sheena faleceu em outubro de 2001 depois de sofrer um acidente enquanto praticava kitesurf, sua última paixão. Durante 12 anos ele abriu as portas e foi um dos shapers mais conceituados

do North Shore, conquistando respeito e admiração da comunidade local também por suas performances em Banzai Pipeline.

 

Sheena fez pranchas para para vários tops brasileiros como Neco Padaratz, e gringos, como o havaiano Andy Irons, e também introduziu novas tecnologias no mercado com as pranchas Surflight, testadas e aprovadas inclusive pelo campeão mundial Mark Occhilupo.

 

Portanto, fica registrada a homenagem do site Waves.Terra ao Sheena, extensiva a todos os que de alguma maneira contribuem para a evolução das pranchas de surfe.

 

 

Confira nas páginas seguintes as entrevistas com os shapers brasileiros residentes no Hawaii.

 

Página 2 – Heitor Fernandes

Página 3 – Jorge Vicente

Página 4 – Biro

Página 5 – Johnny Lopes

Página 6 – Eddie Picollo

Página 7 – Christian Piani

 

 

 

 

 

 

 

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Heitor Fernandes

 

Ficha técnica

 

Nome: Heitor Fernandes
Idade: 49 anos
Anos de surf: 36 anos
Anos de shape: 32 anos
Média de pranchas feitas até hoje: 15 mil

 

Como você descreve o mercado de pranchas no Hawaii?

 

É um mercado no mínimo interessante. Vem muita gente de fora para surfar, mas, da mesma maneira que eles trazem pranchas, também querem levar pranchas de volta. Acho que o número de pranchas que entra é maior do que o número que sai. Temos, é claro, que levar em consideração que muitas pranchas quebram ou se deterioram. Mas, não é um mercado tão bom como na Califórnia, Austrália, Brasi, talvez por causa do preço. As pranchas são muito caras aqui. Muitas pranchas vendidas aqui vêm da Califórnia. E hoje em dia estão vindo da China, da Malásia. Tem pranchas sendo vendidas no Costco (supermercado local) mais barato do que o custo do material. Então, não é um mercado tão bom assim como se imagina.
 
Quem já surfou com suas pranchas e quem surfa com elas hoje em dia?

 

Acho que se eu falar alguns nomes a garotada de hoje em dia não vai nem conhecer. Caras das antigas, como Buttons, Buzzy Kerbox, Marck Willdman, outros mais recentes, como Fábio Gouveia, que já usou prancha minha… Dadá Figueiredo, Fernando Bittencourt e Roberto Valério também.

 

Quais as vantagens e desvantagens de ser um shaper brasileiro nas ilhas?

 

A vantagem é que somos malandros e sabemos nos virar em qualquer lugar do mundo. A desvantagem, talvez hoje em dia não seja muito relevante, mas antigamente existia um certo preconceito contra brasileiros, mas acho que hoje em dia nós fizemos o nome aqui no Hawaii sim. Devido a nossa malandragem, conseguimos nos infiltrar no mercado de uma maneira ou de outra, mas acho que o nosso nível técnico nunca foi reconhecido como realmente deveria.

 

Quantas pranchas você faz por semana e qual o estilo de prancha que mais tem feito?

 

Hoje em dia estou fazendo poucas pranchas, talvez uma média de uma por semana. Depois dos ataques terroristas em 2001, comecei a trabalhar em uma fábrica de barcos e hoje em dia só faço pranchas no fim de semana para amigos, filhos, esposa e alguns outros.

 

Quanto custa em média um shape seu? Dá pra se manter apenas shapeando ou você faz algum outro trabalho paralelo para pagar as contas?

 

Um shape meu custa US$ 200 pela mão de obra, independente do tamanho. Claro que tem um ou outro que dá uma choradinha, mas essa e a média. Acho que daria para eu viver só de pranchas, mas estou muito contente com esse meu trabalho na cidade, produzindo e desenvolvendo protótipos de barcos. É muito interessante e tem tudo a ver com o mar, e o salário é até maior do que eu estaria ganhando com as pranchas.

 

Quais os segredos para se fazer uma prancha boa?

 

Acho que não tem muito segredo não. Ou você tem talento ou não tem. Se você tem talento, acho que o segredo seria fazer o que acha que deve, as linhas que estão parecendo boas aos seus olhos. Acho também que se você surfar com as pranchas que faz ajuda muito também.

 

O que acha das pranchas de tow-in? Teria algum palpite de como elas poderiam ser melhores?

 

Eu não tenho muita experiência com pranchas de tow-in, mas se pudesse fazer um comentário diria que eles estão no caminho certo. Existem alguns materiais que nós não usamos na fabricação de pranchas que talvez podem ajudar nas pranchas de tow-in, tipo umas resinas e fibras muito fortes que iriam encarecer um pouco a fabricação, mas elas ficariam muito fortes e pesadas sem ser preciso injetar ferro ou chumbo nelas. Ficariam também menos flexíveis, que é uma das coisas importantes para a velocidade.

 

O que acha das pranchas brasileiras que os surfistas trazem para a temporada?

 

São ótimas pranchas, acho que o nível do shaper brasileiro não deixa nada a dever ao shaper americano, australiano. Pelo contrário, acho que estamos um pouquinho na frente. Talvez nos longboards, por ser algo meio novo no Brasil, seja um pouco diferente dos daqui. Mas no resto tá no nível.

 

Você acha que ser shaper no Brasil é muito diferente do Hawaii?

 

Não, acho que hoje em dia é a mesma coisa. As salas são iguais, as máquinas são iguais e com a internet pode-se achar tudo que há por aqui também.

 

O que acha das máquinas de shape?

 

Esse é um assunto muito interessante. Que eu saiba a melhor máquina que existe foi feita por um brasileiro, o  Luciano Leão, há mais de 10 anos. Mas, se perguntar aqui na esquina poucas pessoas sabem disso. As máquinas são ótimas para quem tem produção grande, mas ainda acho que a prancha feita à mão é melhor, pois para a máquina existir temos que fazer pranchas à mão. Não acho que a máquina vai acabar com o shaper, isso é lenda, tem alguns lugares do mundo onde as máquinas jamais vão existir e sempre vai ter aquele soul surfer que vai querer sua prancha sob encomenda feita à mão…

 

Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

 

Foram vários momentos, principalmente quando um surfista ganha um campeonato usando uma prancha sua. Mas acho que recentemente, mesmo sem shapear muito algumas pessoas me perguntam se eu sou o “shaper” Heitor Fernandes e quando eles descobrem que sou eu eles ficam amarradões. Isso é alucinante.

 

De onde vem sua inspiração?

 

Essa é uma resposta muito comovente para mim, pois tem a ver com a minha família. Minha inspiração foi o meu pai, é comovente porque ele já está com uma certa idade. A saúde não está muito boa, faz tempo que não o vejo. E foi uma pessoa que me inspirou muito para fazer pranchas. Se eu devo minha vida no surf e a minha carreira de surfista e shaper para alguém, é o meu pai.

 

Qual o shaper que mais admira?

 

São muitos. Erick Arakawa é um que faz um excelente trabalho dele, também admiro muito a personalidade, religiosidade e a filosofia de vida dele. Admiro muito também o trabalho do Rusty Preseindorfer, Nev Haiman e outros como Avelino Bastos, Pedro Bataglin, Victor Vasconcelos, Paulo Rabelo. No longboard, o falecido Mike Defendefer e Randy Rarick são nomes que me deram inspirações no meu trabalho.

 

Qual toque você daria para alguém se tornar um bom shaper?

 

Shapeie o máximo possível. Bloco velho, desencapar pranchas… Todo mundo um dia começou assim. Acredite na suas próprias idéias, crie suas próprias linhas, vá fundo.

 

 

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Jorge Vicente

 

Ficha técnica

 

Nome: Jorge Vicente
Idade: 48 anos
Anos de surf: 36 anos
Anos de shape: mais de 30 anos
Média de pranchas feitas até hoje: Entre 8 e 10 mil pranchas

 

Como você descreve o mercado de pranchas no Hawaii?

 

O pior, o mais competitivo e o que dá menos dinheiro. Havaiano não quer saber de pagar o shaper. Tem muitas fábricas, mais shapers que surfistas e é muito grande a competição. Se você é shaper brasileiro e quer vir tentar shapear aqui no Hawaii, pode vir preparado para cavar buraco e carregar pedras por um bom tempo antes de deslanchar na carreira de shaper. 
 

Quem já surfou com suas pranchas e quem surfa com elas hoje em dia?

 

Dos surfistas brasileiros praticamente todos. Aqui do Hawaii quase todos também. Entre eles o Derek Ho, na época em que ele conseguiu impedir o Kelly Slater de ser mais uma vez campeão mundial. O Derek foi campeão mundial usando as minhas pranchas. Fora Sunny Garcia e nas antigas Mark Foo, Mike Latronic, Johnny Boy, entre outros.

 

Quais as vantagens e desvantagens de ser um shaper brasileiro nas ilhas?

 

A desvantagem é que as gerações mais antigas de shapers e surfistas brasileiros no Hawaii tinham um filme meio queimado com tráfico de drogas e fama de passar os outros para trás. Acho que isso mudou muito hoje em dia, mas os gringos ainda têm um pouco de pé atrás para fazer negócios com brasileiros. Para me levantar aqui foi um sufoco, e eles podem me derrubar em um segundo. A vantagem é que somos conhecidos como uns dos melhores artesãos da ilha.

 

Quantas pranchas você faz por semana e qual o estilo de prancha que mais tem feito?

 

Entre 10 e 15, focando mais qualidade do que quantidade. Faço todo o tipo de prancha, depende muito da estação. No verão sai mais longboard e funboards e no inverno as gunzeiras.

 

Quanto custa em média um shape seu? Dá pra se manter apenas shapeando ou você faz algum outro trabalho paralelo para pagar as contas?

 

Cerca de US$100, dependendo do tamanho um pouco mais. Graças a Deus estou conseguindo me manter com as minhas pranchas.

 

Quais os segredos para se fazer uma prancha boa?

 

Fé em Deus, muita dedicação e muito cuidado pra não estragar o bloco.

 

O que acha das pranchas de tow-in? Teria algum palpite de como elas poderiam ser melhores?

 

Os caras de Maui é que estão trabalhando muito nesse estilo de pranchas. Eu faço algumas pranchas para tow-in, mas pelo pouco que tenho visto acho que as pranchas poderiam ser mais leves. Esse ano, em vez de concave e v-boton, vou tentar fundos diferentes, como o double-barrel até o bico, vamos ver no que vai dar. Essa vai ser minha nova invenção, um duplo concave saindo até o bico. Algo bem louco que vai ter gente até rindo.

 

O que acha das pranchas brasileiras que os surfistas trazem para a temporada?

 

Acho que está faltando um pouco. As pranchas me parecem muito finas. Chega aqui e fica difícil de encarar uma morra de 12 pés. Acho que prancha para o Hawaii tem que ter volume.

 

Você acha que ser shaper no Brasil é muito diferente do Hawaii?

 

Sem dúvidas. As máquinas lá são um pouco diferentes e a qualidade dos blocos um pouco inferior. A resina, a fibra, os blocos aqui vem quase já shapeados, uma qualidade muito mais avançada.

 

O que acha das máquinas de shape?

 

Faz um ano e meio que eu trabalho com o Erick Arakawa usando a máquina dele. Mas, devido a minha idade tive que dar o braço a torcer. Sempre fiz minhas pranchas na mão e teve uma época que era até contra as máquinas. Mas ainda continuo achando que um shape feito à mão tem muito mais valor que um shape feito na máquina. Mas com a máquina consigo duplicar todos os melhores shapes que já fiz. A prancha que o Derek ganhou o mundial, a prancha do Sunny, a gunzeira do Mancusi… É show.

 

Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

 

Foi ver o meu filho Gabriel Vicente, de 23 anos, arrepiando no sul do Brasil e seguindo os mesmos passos do pai sem eu forçar. E ver os meus dois filhos daqui serem números 1 e 2 no circuito havaiano.

 

De onde vem sua inspiração?

 

Minha inspiração veio das dificuldades. Eu só tinha abacate e peixe para comer, todos os meus amigos tinham pranchas e eu não tinha. Aí conheci o Ricardo Wanderbill, o vi shapando e me interessei. Como não tinha trabalho na época, fiz minha primeira prancha, ganhei um campeonato com ela, os meus amigos compraram a prancha e fizeram mais duas encomendas… Aí eu vi o dinheirinho entrando no meu bolso, pude comer um filezinho em vez de abacate e peixe e depois disso fui evoluindo.

 

Qual o shaper que mais admira?

 

É difícil de dizer, mas admiro muito o Erick Arakawa, ele é muito meu amigo e trocamos muitas informações.

 

Qual toque você daria para alguém se tornar um bom shaper?

 

Dedicação, cuidado com a saúde, usar a máscara e pensar muito no que vai fazer, porque depois que cortar o bloco já era.

 

 

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Biro

 

Ficha técnica

 

Nome: Marco Polo Marcello (Biro)
Idade: 41 anos
Anos de surf: 27 anos
Anos de shape: 18 anos, sendo 14 no Hawaii
Média de pranchas feitas até hoje: 4.500 catalogadas

 

Como você descreve o mercado de pranchas no Hawaii?

 

É um mercado muito disputado e difícil, pois aqui se encontram muitos dos melhores shapers do mundo. Mesmo assim, acho que tem espaço para quem tem talento. Mas não é fácil, uma coisa é achar que você tem talento, outra é ter, e isso é algo que você logo descobre aqui. Uma coisa é certa, aqui é o mundo do surf e se você quer aprender tem que vir para cá, é muito diferente.
 

Quem já surfou com suas pranchas e quem surfa com elas hoje em dia?

 

É difícil lembrar de todos, mas entre havaianos já fiz pranchas para o David Miller, Branden Dias, Mike Latronic, Bobby Owes, Buttons Kalohiokalani, entre outros. Do Brasil já surfaram Teco Padaratz, Marco Polo, Bernardo Pigmeu, Marcondes Rocha, Pato, Ayrton PB, Stephan Figueiredo, Kalunga, entre outros.

 

Quais as vantagens e desvantagens de ser um shaper brasileiro nas ilhas?

 

Bem , acho que estar em contato com os melhores shapers do mundo, vendo os melhores atletas e seus equipamentos, andar na vanguarda do esporte, poder testar as pranchas em ondas de verdade e principalmente aprender muito são algumas das vantagens. Posso dizer que depois de quatorze anos aqui, continuo vendo coisas novas todos os dias. Entre as desvantagens está o fato de ser  sul-americano, pois querendo ou não eles protegem bem o mercado ajudando uns aos outros. Isso não é difícil de imaginar… Alguém aí no Brasil liga pra um americano que queira jogar num time grande de futebol? Depois tem a questão da experiência mesmo, pois leva muito tempo para adquiri-la, eles já estavam nesse mercado quando eu ainda nem era nascido, alguns deles têm a minha idade só de shaper, os caras são muito bons.

 

Quantas pranchas você faz por semana e qual o estilo de prancha que mais tem feito?

 

Faço em média dez pranchas por semana. A maioria é de pranchas pequenas e guns, com alguns longboards no verão.

 

Quanto custa em média um shape seu? Dá pra se manter apenas shapeando ou você faz algum outro trabalho paralelo para pagar as contas?

 

Em média eles custam US$ 100. As encomendas, no meu caso, são muito inconstantes e me forçam também a dar o glass nas minhas pranchas, o que não é de todo ruim, pois faço um dinheiro a mais e mantenho uma qualidade alta no produto final. Você pode transformar um shape bom numa prancha ruim como pode fazer ao contrário, um bom acabamento é tudo numa prancha. Também sou back shaper do Jeff Bushman aqui, ajudo ele na produção das pranchas de lojas, o que ele está gostando muito, pois fica livre para fazer as dos consumidores diretos.

 

Quais os segredos para se fazer uma prancha boa?

 

Primeiro ter um bom material e segundo fazer um bom estudo sobre vários tipos de prancha.

 

O que acha das pranchas de tow-in? Teria algum palpite de como elas poderiam ser melhores?

 

O surf de tow-in em si é um esporte bem diferente, muito mais veloz do que o surf de remada. Daí as pranchas de tow-in tendem a ter características de esqui aquático, pranchas mais finas com bordas afiadas e com menos envergadura. O que vejo aqui é uma tendência do aproveitamento destes testes feitos nas pranchas de tow-in passarem para as de surf de remeda e vice-versa. Neste último inverno dei o glass em algumas pranchas de alguns brasileiros e havaianos, e procurei laminar os tecidos separadamente, ou seja, dois tecidos primeiro e depois os outros dois. Num glass de 4 em cima e 4 em baixo, de 6 onças. Isso aumentou o peso das pranchas e garantiu um melhor acabamento sem mudar muito as características do shape. Creio que a maioria dos shapers também tem palpites para melhorar as pranchas de tow-in, pois é um esporte relativamente novo. Acredito que com certeza o fundo deve ser algo que vá mudar muito, acho que os concaves devem ficar ainda mais fundos e o bico mais funcional, cortando mais a entrada de água para que as pranchas não precisem ser tão pesadas.

 

O que acha das pranchas brasileiras que os surfistas trazem para a temporada?

 

Acho que elas ainda têm muitas características das pranchas feitas pro Brasil. As ondas aqui são mais fortes, eu vi vários surfistas nessa temporada não conseguindo cavar direito com suas pranchas, acho que os shapers deveriam se focar mais nisso.

 

Você acha que ser shaper no Brasil é muito diferente do Hawaii?

 

Sim, sem dúvida. Não só pela qualidade da matéria-prima, mas pelo fato de que aqui você vai ter que fazer uma prancha que realmente ande, pois o fundo é de pedra, não se esqueça disso.

 

O que acha das máquinas de shape?

 

Acho que é algo muito bom. Eu tenho modelos de pranchas que são muito bons, mas levam uma eternidade para faze-los. Com a máquina você pode fazer várias destas pranchas perfeitas para todo mundo. Gostaria de parabenizar o Luciano Leão pelo excelente trabalho, muito obrigado.

 

Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

 

É difícil apontar um só. Começou com a minha vinda para o Hawaii, depois trabalhei na Blue Hawaii com o Glenn Minami, peguei um mar clássico na manhã do dia 28 de fevereiro passado em Waimea e agora estou trabalhando com o Jeff Bushman. Acredito que ainda vou ter muitos momentos marcantes na minha vida.

 

De onde vem sua inspiração?

 

De tudo que envolve design, moda, carros, arquitetura, música e a vontade de querer ir cada vez um pouquinho mais rápido.

 

Qual o shaper que mais admira?

 

Não tenho um só, mas alguns fazem a lista: Dieffendorfer, Dick Brewer, Owl Chapman, Pat Rawson, Al Merrick, Jeff Bushman, Chuck Andrews, Heitor Fernandes, Simon Anderson… Todos são excelentes e devotaram muito de suas vidas para o esporte.

 

Qual toque você daria para alguém se tornar um bom shaper?

 

Primeiro achar a razão pela qual você está querendo shapear. Daí estudar muito e confiar nos seus instintos em criar algo. Contato: [email protected] .

 

 

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Johnny Lopes

 

Ficha técnica

 

Nome: Johnny Lopes
Idade: 42 anos
Anos de shape: 8 anos
Média de pranchas feitas até hoje: 1.200 pranchas

 

Como você descreve o mercado de pranchas no Hawaii?

 

Um mercado muito estável com grande demanda para funs e longboards o ano todo, sendo que nas temporadas de inverno aumentam muito as encomendas de shortboards e guns.
 
Quem já surfou com suas pranchas e quem surfa com elas hoje em dia?

 

Já fiz pranchas para James Santos, Marcondes Rocha, Marcelo Nunes, Hilo, Bruno Lemos, Paulo Costa, entre outros.

 

Quais as vantagens e desvantagens de ser um shaper brasileiro nas ilhas?

 

As vantagens é que devido ao idioma e ao bom relacionamento com os brasileiros que moram ou freqüentam as ilhas, temos a preferências deles, e não vejo desvantagens consideráveis.

 

Quantas pranchas você faz por semana e qual o estilo de prancha que mais tem feito?

 

Faço em média 15 a 25 pranchas por mês, e na maioria são longboards e guns.

 

Quanto custa em média um shape seu? Dá pra se manter apenas shapeando ou você faz algum outro trabalho paralelo para pagar as contas?

 

Meus shapes custam em média US$ 15 por pé, ou seja, US$ 100 por uma 7 pés e $ 150 por um longboard ou Waimea gun. Daria para me manter shapeando, mas como gosto muito de visitar o Brasil, sou também comissário de bordo da American Airlines e instrutor de jiu-jitsu.

 

Quais os segredos para se fazer uma prancha boa?

 

O segredo é saber entender o que o surfista quer e precisa. Saber diagnosticar as limitações de cada surfista e receitar um shape que cure suas deficiências técnicas. Além disso, é importante que a prancha seja totalmente harmoniosa e fluída em todas as linhas dimensionais. O mais importante é a comunicação entre shaper e surfista.

 

O que acha das pranchas de tow-in? Teria algum palpite de como elas poderiam ser melhores?

 

Essas pranchas estão em constante desenvolvimento e na minha opinião deveriam ter mais shapers surfando de tow-in, para que haja maior entendimento entre os shapers e os surfistas. Assim como o Gerry Lopez e nosso saudoso Sheena, ter a experiência de surfar de tow-in ajuda muito na comunicação com os big riders, que dão o “feedback” necessário para o desenvolvimento destas pranchas.

 

O que acha das pranchas brasileiras que os surfistas trazem para a temporada?

 

São excelentes as pranchas menores, ate 7 pés, que tenho visto, mas as guns acima de 8 pés especialmente, não são próprias para a potência das ondas havaianas.

 

Você acha que ser shaper no Brasil é muito diferente do Hawaii?

 

Não posso responder corretamente a essa pergunta porque nunca produzi pranchas em grande escala no Brasil.

 

O que acha das máquinas de shape?

 

Uma excelente ferramenta para aumentar a produção e desenvolver novas idéias tendo por base os seus “probes” de maior aceitação.

 

Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

 

Foram vários, mas sempre que um cliente me liga dizendo como a prancha que fiz melhorou sua performance, me sinto realizado e considero um momento muito marcante. Por isso gosto muito mais de fazer encomendas do que shapear para lojas, mesmo ganhando menos nas encomendas.

 

De onde vem sua inspiração?

 

Das ondas havaianas. Sua potência e perfeição me fascinam e me inspiram a shapear melhor para que possamos buscar cada vez mais linhas harmoniosas, fortes e fluídas.

 

Qual o shaper que mais admira?

 

Heitor Fernandes pelo seu acabamento e simetrias impecáveis, Dick Brewer pelos seus outlines e pelas linhas de fundo de suas Waimea guns, Jorge Vicente e os saudosos Difenderfer e Sheena.

 

Qual toque você daria para alguém se tornar um bom shaper?

 

Muita observação. É preciso muito tempo vendo outras pessoas shapear e olhando muitas pranchas prontas. Ainda hoje eu passo horas nas surf-shops de Haleiwa observando e comparando as melhores guns e longs do mundo, que logicamente são produzidas aqui no Hawaii.

 

 

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Eddie Picollo

 

Ficha técnica

 

Nome: José Eduardo Bahia Picollo, mais conhecido como Eddie Picollo
Idade: 41 anos
Anos de surf: desde os 15 anos
Anos de shape: Envolvido na fabricação de pranchas desde 1979 e profissional desde 1987, quando morou na Austrália e trabalhou com a Aloha surfboards
Média de pranchas feitas até hoje: Aproximadamente mais de 5 mil pranchas

 

Como você descreve o mercado de pranchas no Hawaii?

 

Muito competitivo. Aqui há inúmeros excelentes profissionais, com vários anos de experiência, e não há espaço para aprendizes.
 
Quem já surfou com suas pranchas e quem surfa com elas hoje em dia?

 

No passado, atletas como Carlos Santos, Glen Winton, Tinguinha Lima, João Capilé, entre outros, me ajudaram muito no desenvolvimento do design de pranchas na época. Hoje em dia, aqui no Hawaii, trabalho para o John Carper e tenho minha logomarca, sendo que shapeio para atletas como Shane Dorian, Sean Moody, Peter Mel, Jason Frederico, Carlos Burle, Sylvio Mancusi, Rodrigo Resende, Danilo Couto, Pato, entre outros.
 

Quais as vantagens e desvantagens de ser um shaper brasileiro nas ilhas?

 

Entre as vantagens está o fato de sermos criativos por natureza, e aqui temos todos os tipos de materiais, ferramentas e ondas para desenvolver um trabalho de ponta. A desvantagem é que é muito difícil chegar aqui e conquistar credibilidade ou montar sua própria fábrica sem antes ter que trabalhar como back shaper para os profissionais mais renomados.
 
Quantas pranchas você faz por semana e qual o estilo de prancha que mais tem feito?

 

Faço em torno de 20 a 30 nas altas temporadas, caindo um pouco na baixa. Também Trabalho direto com o Japão, pra onde desenvolvo muitas pranchas de alta performance entre 6’0″ e 6’8″.

 

Quanto custa em média um shape seu? Dá pra se manter apenas shapeando ou você faz algum outro trabalho paralelo para pagar as contas?

 

Meus shapes custam entre US$ 60 e US$ 120, dependendo do tamanho e do design desejado. Na alta temporada dá para ficar um pouco descansado e se concentrar somente nos blocos de poliuretano, mas nas baixas você já tem que lidar com trabalhos como fibragens, lixação e outras áreas, pois as contas continuam a vir do mesmo jeito.

 

Quais os segredos para se fazer uma prancha boa?

 

Não há segredo algum, e sim amor, dedicação e visão.

 

O que acha das pranchas de tow-in? Teria algum palpite de como elas poderiam ser melhores?

 

As pranchas de tow-surf estão no mesmo ritmo da modalidade, ou seja, ainda existe muita coisa para ser desenvolvida. E na minha opinião, no momento que houver um sistema que possa aumentar ou diminuir o peso delas, acredito que seria um passo importante na evolução do tow-in.

 

O que acha das pranchas brasileiras que os surfistas trazem para a temporada?

 

Para o surfe em ondas pequenas e médias, elas não devem nada para as daqui. Mas, para ondas maiores e tow-in, levam vantagem os que encomendam suas pranchas com os shapers que possuem experiência em viagens para as ilhas.

 

Você acha que ser shaper no Brasil é muito diferente do Hawaii?

 

Como já disse, no Brasil, como temos um outro padrão de ondas, levamos vantagem em shapes de alta performance para condições medias e pequenas. No Hawaii é o contrário.

 

O que acha das máquinas de shape?

 

São  excelentes para grandes produções e para repetir o sucesso de determinado design. Por exemplo: você cria um modelo do qual obteve excelentes resultados e quer manter este padrão para outros atletas. A máquina lhe dá esta possibilidade.

 

Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

 

Tiveram alguns momentos marcantes, como a vitória de Carlos Burle no WG em Grumari, o título de Rochelle Ballard em um campeonato da OP feito em um barco na Indonésia e o fato de que todos os brasileiros que disputam a Tow In World Cup têm pelo menos uma Picollo no quiver.

 

De onde vem sua inspiração?

 

Principalmente do presente que Deus me deu de ter o dom de transformar um bloco em algo que seu irmão possa desfrutar.

 

Qual o shaper que mais admira?

 

Tenho uma grande admiração pelo JC (John Carper). Ele é um grande designer e apesar de já ter seu nome consagrado, continua trabalhando duro como se estivesse iniciando na profissão.

 

Qual toque você daria para alguém se tornar um bom shaper?

 

Se você realmente sente no coração a vontade de se dedicar à profissão, tenha fé em Deus, muita dedicação, estrague alguns blocos e vá em frente, meu irmão.

 

 

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Christian Piani

 

Ficha técnica

 

Nome: Christian Piani
Idade: 30 anos
Anos de surf: 20 anos
Anos de shape: 12 anos
Média de pranchas feitas até hoje: 1.500

 

Como você descreve o mercado de pranchas no Hawaii?

 

O mais completo e mais competitivo do mundo, em que grandes marcas como Local Motion, HIC e Town & Country dominam.
 
Quem já surfou com suas pranchas e quem surfa com elas hoje em dia?

 

A maioria dos que já usaram é composta de brasileiros e havaianos. Hoje em dia quem usa são alguns brasileiros e japoneses que vem para a temporada. Por um bom tempo Kai Murphy, local de V-land, e Masaijah Lani, do Kauai, usaram pranchas minhas. Atualmente shapeio para minha marca, Hawaiian Boards, além de fazer back shapes para Island Walker Surfboards, aqui de Haleiwa, onde moro.

 

Quais as vantagens e desvantagens de ser um shaper brasileiro nas ilhas?

 

As vantagens: melhor qualidade e variedade de blocos; melhor matéria-prima; melhores ondas pra testar as pranchas; maior quantidade de fábricas de prancha pra se tentar emprego; muita encomenda de prancha grande durante a temporada; fazer pranchas para brasileiros que moram aqui ou que vem durante a temporada, além de fazer pranchas para havaianos, americanos, japoneses e outros; grande contato com fabricantes de pranchas. Talvez o Hawaii esteja na frente de qualquer lugar em se tratando de fabricação de pranchas de surf. As desvantagens: sem dúvida o fato de estar longe de casa, da família e dos amigos. Sem contar que aqui é outra língua e outra cultura.

 

Quantas pranchas você faz por semana e qual o estilo de prancha que mais tem feito?

 

Tenho feito em média 5 a 10 pranchas por semana. O estilo de pranchas que mais tenho feito e mais gosto de fazer é para ondas fortes e tubulares.

 

Quanto custa em média um shape seu? Dá pra se manter apenas shapeando ou você faz algum outro trabalho paralelo para pagar as contas?

 

Varia entre US$ 100 a US$ 200, dependendo do tamanho. Além de shapear, entrego pizzas á noite pra ajudar nas contas.

 

Quais os segredos para se fazer uma prancha boa?

 

A escolha do bloco certo para o tipo de prancha a ser feita, o tipo de onda para a qual a prancha vai ser feita e a maneira que o surfista deseja surfar essas ondas. Tudo isso vai influenciar na hora de fazer uma prancha boa.

 

O que acha das pranchas de tow-in? Teria algum palpite de como elas poderiam ser melhores?

 

Quem tem ditado as regras são Timpone e Dick Brewer. As pranchas e o esporte em si são caros. As pranchas de tow-in feitas de madeira balsa são as melhores, mas infelizmente o custo é bem alto. Ele poderia abaixar com a descoberta de alguma matéria-prima que seja mais forte e mais barata que a madeira balsa.

 

O que acha das pranchas brasileiras que os surfistas trazem para a temporada?

 

As maroleiras parecem ter melhorado bastante, agora as guns e longboards ainda precisam evoluir muito.

 

Você acha que ser shaper no Brasil é muito diferente do Hawaii?

 

Sem dúvida é bem diferente. Os blocos aqui se comparados com os do Brasil são bem mais fortes e mais resistentes. Além disso possuem densidades diferentes. Em outras palavras, pesos diferentes. A Clark Foam dispõe de plugs que vão de 5″9 até 12 pés. Aqui as ondas são muito mais power e mais constantes que no Brasil, e tem também a vibração da ilha.

 

O que acha das máquinas de shape?

 

A única que tive contato foi a do Eric Arakawa. Por sinal é muito boa pra quem faz de 20 a 50 pranchas por semana, o que não é meu caso. Eu ainda sou a favor dos shapers que fazem tudo e contra essas máquinas.

 

Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

 

Como shaper foi em 1996, quando conheci Cippy Cabato, dono da Classic Longboards, e fazia back shapes pra ele. E em 1997, quando o Beto Santos veio pra cá passar um tempinho shapeando e surfando. O Beto abriu bastante minha visão de pranchinha, gun e longboard. Como surfista, foi em fevereiro de 1998, quando ganhei um campeonato amador da N.S.S.A. em Turtle Bay. Na final estavam Tory Barron, Aamion Goodwin, Aaron Naluai e Marcus Hickman. Eles viram que além de shapear eu também sabia usar minhas pranchas direitinho, e com isso conquistei o respeito de muitos surfistas aqui na ilha.

 

De onde vem sua inspiração?

 

Minha inspiração pra shapear vem das ondas e tubos que pego aqui na ilha, especialmente em Sunset. Acho que Sunset é minha maior inspiração.

Qual o shaper que mais admira?

 

Fernando Sheena Ribeiro. Porque ele foi um revolucionário na arte de shapear, além das suas performances em Pipeline grande e Waimea. Ele foi um dos que mais levantou a moral dos brasileiros aqui na ilha de Oahu.

 

Qual toque você daria para alguém se tornar um bom shaper?

 

Tudo está no ar, é uma questão de visão.

 

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.