“Escrava do materialismo, a ciência tradicional presume que tudo o que não pode ser medido, testado em laboratório, ou comprovado pelos cinco sentidos ou as suas extensões tecnológicas, simplesmente não existe. Não é ‘real’. A sua consequência: toda a realidade foi esvaziada de sentido e transformada em realidade física.
As dimensões espirituais, ou aquilo que eu chamaria de não-físicas, da realidade foram corridas para fora da cidade. Isso colide com a “filosofia perene”, consenso filosófico que atravessa eras, tradições e culturas, e que descreve dimensões diferentes mas contínuas da realidade. Estas vão das mais densas e menos conscientes – aquilo a que chamaríamos de ‘matéria’ – às menos densas e mais conscientes – a que chamaríamos de espirituais”. Eckart Tolle
Gede em Bali, Tinguinha no Brasil, mais Costa Rica e Eckart Tolle
As relações que criamos dentro da comunidade do surf são realmente tribais, ou seja, compartilham hábitos e localidade, muitas vezes mantendo-se por toda a vida. Dois exemplos recentes remexeram meus neurônios afetivos: Gede em Bali e Carlos Tinguinha no Brasil.
Bali. Fui surfar Serangan em fevereiro e na saída dei de cara com o Gede. Um cara especial. Um balinês das antigas, da época que só existiam um punhado esparso de locais na ilha!
Ele lembrou de mim e ficamos trocando informações de velhos lobos do mar e cracas de reef de coral, enquanto os garotos locais olhavam com curiosidade um dos seu ídolos conversando com tanta intimidade com um estrangeiro. Muito bom.
O fato de não haver diferença ou estranhamento, principalmente entre os surfistas daquela geração, independente da origem, é realmente impressionante. Foi como nunca tivéssemos nos separado depois daquelas seções de surf de décadas atrás.
Independente do cara ser do Alaska, de Bali, do Brasil, ou do Uzbequistão (tem mar lá?), o feelling é o mesmo. “Opa, vou escrever isso antes que eu esqueça!”, pensei na hora.
Kuta Reef na madrugada ou Uluwatu nos finais de tarde daquele maio 1981 eram um planeta à parte. As ondas possuíam um sotaque, traziam uma personalidade muito característica. Eram entidades balinesas, não havia dúvida, não poderiam estar em nenhum outro lugar do mundo. Fortes mas acolhedoras, quentes mas refrescantes, rápidas e tubulares mas não impossíveis.
O mesmo rosto sorridente que eu me lembrava no outside de Kuta Reef ou no inside corner Uluwatu, assim que o sol nascia, estava lá, na areias de Serangan, olhando para mim e sorrindo mais uma vez, com o acolhimento típico dos amigos, de uma alma que te reconhece como um igual.
É difícil expressar o sentimento de ser reconhecido, realmente reconhecido, 30 anos depois, do outro lado do mundo. É como se o tempo não existisse, fosse um truque de Deus para anos hipnotizar enquanto a vida acontece.
Hoje Gede tem uma mecha de cabelo branco a mais, mas com o mesmo brilho e humor balinês, a mesma disposição e abertura para a vida, a mesma filosofia aberta, amorosa, demonstrando no olhar as características que compartilha com o seu povo. Uma dimensão não-física facilmente percebida.
Me senti em casa novamente.
Brasil. Já com o Tinga esbarrei em Camburi, litoral Norte de São Paulo, depois de anos que não falava pessoalmente com o meu amigo e antigo patrocinado. Pelo menos três horas de risadas e boas lembranças vindas da formação do embrião do surf brasileiro.
Tinga era um moleque muito pequeno e magérrimo, mas esperto, ágil no raciocínio e surpreendente nas ondas naquele também começo da década de 1980. Vê-lo surfando pela primeira vez foi como observar um ser alienígena que praticava outro tipo de esporte, não exatamente o que conhecíamos.
Deu um upgrade feroz nas manobras conhecidas e na velocidade e fluidez habituais da galera da época. O mundo tinha uma velocidade e uma flexibilidade menor que Carlos Tinguinha. Ninguém conseguia acompanhá-lo. Tipo Messi jogando na várzea (existe ainda?).
A praia das Pitangueiras nunca mais seria a mesma. O mais interessante, comentamos, é que ainda somos amigos depois de tanto tempo. Por que será? Um dos motivos é que, na época, os patrocinadores e os patrocinados eram da mesma tribo, conviviam dentro da água. Não havia hierarquização social, separação. A exclusão é mito? Sim, tudo é incluso, o universo é um, o resto é ilusão, portanto praticávamos, instintivamente, a realidade da inclusão que também tem o nome de amizade. O talento e a presença na água é o que valiam.
Lembrem-se que era o começo do surf profissional no Brasil. Esse fato se desdobrava num convívio inusitado nas relações corporativas que ia mais além.
Constatamos, mais uma vez, que não existe paralelo na história do capitalismo mundial o fato de cinco marcas concorrentes, mais seus patrocinados, serem todos amigos e conviverem socialmente. Essa amizade e paixão pelo surf foi determinante para o crescimento do esporte no país, quando ainda era desacreditado e praticamente inexistente.
Ou seja, o amor realmente constrói!
Viajamos para a Costa Rica numa matéria para a revista Trip, em 1990. A barca era constituída dos cinco patrocinados mais os donos das cinco marcas que fundaram o Circuito Brasileiro de Surf Profissional e iniciaram a Abrasp (Associação Brasileira de Surf Profissional), entidade que tornou outro sonho recorrente – viver de surf -, algo finalmente viável para a molecada com talento.
O time foi escalado: pela OP Ocean Pacific, Sidão e David Husadel; pela Sundek, Hermínio e Tinguinha (na época na Sundek); pela Lightning Bolt, Zézinho e Picuruta; pela Town & Country, Zé Roberto e Amaro do Tombo; e pela Fico, Raphael Levy (o próprio) e Kias. Tava feita a festa! O Dandão (Fernando Costa Netto) e o Adrian Kojin foram na administração do “inadministrável”. O ótimo fotógrafo e boa praça Roberto Price foi o encarregado de registrar a parada.
Surf alucinante em Salsa Brava, no Oceano Atlântico, e outras ondas no Pacífico, como Playa Negra. Sacanagens e risadas o tempo todo. Não dava para dormir de olho fechado que alguém ia aprontar alguma, como no dia em que o Zé da Town & Country deu uma “desmaiada” pós-almoço iniciando um suave ronco.
O Tinga e o Picuruta colocaram pasta de dente na mão dele e começaram a coçar o nariz e a orelha do cara com uma pena. Maldade. Qual foi o seu instinto? Meter a mão no próprio rosto para afastar o incômodo. Quando o Zé acordou de susto com a cara toda melecada de pasta de dente o Picuruta já tinha pulado fora fechando a porta e deixando o Tinga trancado com a fera. “Eu te mato, neguinho!”, foi só o que ouvimos de fora…
Sidão Tenucci é diretor de marketing da OP (Ocean Pacific), escritor, com dois livros publicados: Almaquatica (Fnac) e Surfista Peregrino (Livraria Cultura). Ele parte para o terceiro em poucos meses, o Poentes de Amor. Viajou 50 países tentando entender um pouco dessa nave verde, azul, ocre, líquida, concreta e rarefeita que chamamos Terra.