Empresários do surfe completam 20 anos de praia

Em 2003, o mercado nacional de surfwear completou 20 anos de existência e de muita luta e trabalho em nome do sonho de levar o esporte ao topo do cenário comercial e empresarial.

 

Para fazer uma comemoração à altura dessa conquista e homenagear os empresários do meio, o site Waves.Terra traz um artigo publicado na revista Surf & Beach Fashion Business, de autoria do jornalista Oswaldo Pepe*, sobre essa vitoriosa trajetória.

 

Conheça um pouco mais sobre a história e saiba o que pensam as pessoas que acreditaram no sonho e construíram o que hoje é a promissora indústria do surfe brasileiro.

 

 

Empresários espertos, afinal são 20 anos de praia

 

Para as empresas do surf o sonho não acabou: ele foi conquistado e virou real. Este ano, um pequeno número de empresas brasileiras de surf – 98% delas fundadas por surfistas – completa 20 anos depois de atravessar planos econômicos, hiperinflação, câmbio fixo e flutuante, com direito até a uma década perdida. Um modelo de perseverança e amor ao esporte. É o exemplo que o surf oferece.

 

Uma geração que sonhava

 

Houve uma época em que um grupo de pessoas acreditou que viver deveria ser uma luta pela realização de seus sonhos, de seus ideais. Que era possível construir uma vida produtiva, constituir família, ganhar o sustento e se realizar, sem abrir mão de seus valores da juventude, dignidade e crenças. E, neste caso especial, de seu esporte de alma, o surf. Para estas pessoas, o sonho se realizou. Hoje um grupo de surfistas, que se tornaram empresários apenas para poder pagar as contas, comemora os vinte anos de suas empresas e a realização de seus sonhos: viver no esporte, do esporte e para o esporte. É uma façanha que traz esperança e exemplo para todos que também amam o esporte: o sonho é real.

 

Não foi e não é fácil

 

A maioria das empresas dura muito pouco: apenas 1% sobrevive por mais de dez anos. Vinte, então, é exceção. Como explicar que estes surfistas conseguiram manter suas empresas por tanto tempo? É simples, diz o surfista Marcelo Baboghluiam, médico de vários dos maiores surfistas brasileiros: perseverança – um surfista nunca desiste fácil, superar limites é inerente ao surf e enfrentar a arrebentação com humildade e sabedoria é uma lição básica do surf. E isto passa para a vida, como um todo.

 

Poucos esportes têm tido um sucesso tão grande na difícil tarefa da inclusão social como o surf, com um grande diferencial: o surf não afasta o atleta da sua comunidade, da sua praia, da sua cultura. Um atleta de sucesso de outros esportes tende facilmente a adotar um novo estilo de vida, de outros grupos sociais. Não no surf. Um dos maiores jornalistas que o esporte revelou, Fernando Costa Neto, o Dandão, comenta: em nenhum esporte o praticante sai da arena e se volta para olhar onde estava, amoroso. No surf, ele senta e fica olhando o mar…

 

Há muito tempo…

Não havia internet, os instrumentos de comunicação tinham nomes estranhos como telefoto e telex, conseguir uma revista de fora, jornal ou livro, era uma dificuldade superada apenas por aqueles pouquíssimos que tinham condições de viajar – em si, uma aventura cara e difícil. Tudo era muito complicado e distante, principalmente para nós que vivíamos aqui nas latitudes do Sul. Ainda assim, um grupo de jovens surfistas resolveu que para eles a única vida possível era o surf. Simplesmente queriam viver surfando, por toda a vida. Tudo bem, mas como? A resposta foi singela, direta: vamos trabalhar para o esporte, fazer o que for preciso, bermuda, parafina, prancha, revista e por aí foi. Com isso, esperavam ganhar algum e viver para surfar.

 

E deste ideal, em vinte anos, nos transformamos numa das três maiores forças do surf mundial, com 3,5 milhões de praticantes, atletas disputando os melhores campeonatos, com mais empresas do setor que a Austrália e possivelmente o mesmo número que os Estados Unidos, com uma imprensa mais representativa e forte do que qualquer outro esporte e com uma feira própria que completa dez anos agora.

 

Tempestades, ressacas e ondas perfeitas

 

Esta matéria trata dos surfistas brasileiros que formaram empresas com nomes próprios e que hoje chegam aos vinte anos. É um reconhecimento e uma homenagem. Mas o panorama não estaria completo se não se falasse de outros surfistas, igualmente valorosos, que desenvolveram seu trabalho com nomes do surf mundial, em um momento em que patentes, leis e mercado eram desconhecidos na praia.

 

Sua importância não pode ser subestimada: foram tremendamente importantes. Deram ao surf brasileiro uma ligação com o mundo externo e distante do esporte. Trouxeram, da maneira que foi possível, um pouco do verdadeiro espírito do surf. Ajudaram que se percebesse um estilo de vida, uma cultura e uma atitude que iluminaram gerações e gerações. Mostraram um mundo novo e devemos ser gratos a eles.

 

Estávamos no começo; a imitação é a primeira forma de aprendizado e a mais sincera homenagem. E foi o que deu para fazer na época pioneira, sem recursos, sem nada e, principalmente, sem maldade. Devemos tanto a eles como aos que criaram suas marcas próprias; em um dado momento todos foram fundamentais e hoje, com a globalização, nos deram uma lição importante que não devemos esquecer: olhar para fora, sair do paraíso do futuro e encarar as ondas perfeitas que correm alhures. É fundamental despertar do berço esplêndido.

 

Qual é o recado afinal?

Perseverança, confiar em seus próprios valores, construir seu sonho na realidade. Amar o esporte e confiar que dele virão as forças que se precisa para enfrentar e vencer as dificuldades da vida, tanto as externas como as internas.

 

Os próximos vinte anos estão aí, à nossa frente, esperando que a gente se decida a dropá-los. Neste balanço, parece pequeno o número de empresas de surfwear – criadas e tocadas por surfistas – que sobreviveram a esses vinte anos: umas dez, se tanto. É pouco e, paradoxalmente, muito. Pouco porque, claro, queríamos mais. Mas é muito, porque sobreviver tanto tempo é tarefa para titãs – ainda mais se compreendermos como sobrevivência à tarefa de criar uma marca própria, decolar e agregar tal valor a ela de modo que seja reconhecida como essencial ao esporte, superar planos e mais planos econômicos, confisco de poupança, hiperinflação e ainda assim, ir em frente – sempre lembrando que marcas, como tudo, têm um ciclo já conhecido de vida e de morte – que poucas, muito poucas, conseguem romper.

 

Não é mole. Por isso, fomos falar com os que conseguiram chegar até aqui, sãos e salvos. Não conversamos com todos, mas com os que deu para ouvir, furando agendas apertadas de empresários que além de tocar os negócios, têm por obrigação, ah-há, surfar sua santa onda de todo dia… Considero que o que aqui vai dito, vale por todos, na mesma medida em que a vitória deles é também a nossa. Aloha.

 

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Os depoimentos – ou o que eu entendi do que me disseram…

 

“É minha existência, é o absoluto dentro da minha existência. Foi aqui que construí meu círculo de amizades, é daqui que eu como, que eu vivo, que eu viajo, é o que me dá saúde a ânimo para viver” (David, criador da 775 que chamou as modelos mais lindas do país quando elas eram absolutamente desconhecidas.)

 

“Para o surfwear, o mundo gostaria de ser brasileiro. Nossos  produtos têm a nossa cara e esta é a cara que o mundo quer hoje: o Brasil está no moda. O fenômeno do surf no Brasil tem características próprias, diferentes do resto do mundo, onde prevalece um pouco o cote aristocrático. Não aqui. Em nosso país o surf foi o instrumento de uma grande inclusão social. Temos mais de 2 milhões de praticantes. Numa comunidade muito pobre como a Rocinha, no Rio de Janeiro, são 350. Temos surfshops no cerrado, aonde nem a falta de mar impediu que a percepção do esporte se estabelecesse entre os jovens. O surf não é só um esporte. Tem uma cultura, uma atitude e um modo original de olhar a vida, de raízes e tradições antigas, que se estende à modernidade, com sua moda irreverente, música e imprensa própria. E a influência polinésia – religiosidade, relação feliz com a sexualidade, natureza como mãe e guia, alegria de viver – casou super bem com o jeito de ser brasileiro.” (Romeu Andreatta, um dos fundadores da Fluir, o criador da Alma Surf e um dos pensadores mais afiados do setor).

 

“Foi tudo muito bom, tanto que começaria tudo de novo. Tenho muita saudade do começo, quando a sensação de tribo era muito presente. Havia união e amizade, as questões financeiras contavam bem menos. Todos nós, afinal, surfávamos juntos, quer coisa melhor? E como foi o começo? A história parece repetida, a família não queria ver seus dois irmãos como `vagabundos de praia´, como todos fomos vistos por muuuito tempo. Queriam tudo o que pais bem intencionados querem para seus filhos: faculdade, emprego, família, a gente já sabe. Portanto, para viver no surf não havia jeito… bem, a não ser que eu pagasse algumas roupas de um amigo surfista, o Sidão (fundador da OP brasileira e um dos criadores deste mercado), e fosse eu mesmo vender no litoral. Desse começo humilde, vendendo de loja em loja, surgiu uma empresa. Lembro até hoje, fui mostrar um modelo de carteira novo, com um tecido que meu pai acabara de me mostrar, novidade absoluta, emborrachado! Mas vendendo tudo o que produzia em nylon, o Sidão não se interessou. Naquela noite, liguei para o desenhista dele e pedi uma marca com meu nome, Fico. Foi daí que decolamos, eu e meu irmão. E a faculdade, esta foi a da vida, na prática diária da indústria e do comércio.” (Raphael Levy, o Fico, que criou sua marca usando seu próprio apelido.)

 

“O surf é um esporte muito sério, que ganhou muito respeito empresarial nas últimas décadas. Dos 80 para cá surgiram várias outras revistas, várias publicações, a Alma Surf, a Hardcore e outras. É um segmento extremamente respeitável, super importante. E a Fluir é um veículo que se firmou como o elo de ligação com o mercado, como o arquivo de consulta do esporte, como um dos meios mais seguros e confiáveis do surf. Nunca tive nenhuma dúvida. Desde o início, sempre acreditei bastante no negócio. Como especialista no setor, logo percebi que a área era muito mal servida pelo mercado. A Fluir se consolidou como líder e só me deu boas emoções. Foi um ótimo negócio.” (Ângelo Rossi, head da Editora Peixes, publisher da Fluir.)

 

“Não consigo sentir a sensação de um passado distante. E nem me arrependo de nada, valeu a pena acreditar. Meu objetivo era viver no surf, do surf. E não havia parâmetros, não havia em quem ou no que se inspirar. Fomos obrigados, quase todos, a partir do zero. Agora, quando você me pergunta e sou obrigado a olhar para trás, vejo que não houve nenhuma mudança de direção, o conceito é o mesmo do começo. Manter-se fiel ao surf, criar uma surf-shop para surfistas de verdade, de tal forma que mesmo aqueles que não são do esporte possam sentir o espírito dele, o clima, sua cultura e seu modo de viver. Passar o sentimento deste mundo, a magia do esporte. Daí que cada item tem a maior importância: a arquitetura, a luz, o som, o pessoal que está atendendo, tudo tem que ser, de certa forma, uma extensão do que você vai ver quando for surfar. Acho que para nós, os sobreviventes do surfwear, o sonho não acabou, se concretizou.” (Tucano, criador do conceito de loja Star Point, hoje uma franquia se espalhando pelo país, em um formato original, multimarcas.)

 

“Cheguei até aqui e estou feliz, vivo do que eu gosto. Surf é a minha vida, foi o que me abriu o mundo, as viagens, todas as alegrias. Claro que não tenho a segurança que aos 20 anos (no meu caso um pouco mais) se espera ter, ainda que tenha recebido reconhecimento mundial, vendendo para a Europa, para o Japão. O mercado tem suas inseguranças, não é sempre que tudo corre bem, temos as nossas crises também. Mas meu recado é este: se você gosta do que faz, é possível viver seu sonho; se eu consegui, vocês também conseguirão.” (Tino, criador da Stanley)

 

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“Foram dois fatores, um alimentando o outro. Perseverança pessoal e a pujança do mercado. O mercado existe, o surf é vitorioso. É muito gratificante poder viver daquilo que se gosta. Larguei a medicina, imagine, para criar minha marca. Consegui morar em um lugar paradisíaco como Garopaba, criar uma empresa reconhecida mundialmente nos meios do esporte, gerei empregos, pago impostos… Surf para mim é tudo, é meu trabalho, meu lazer, meu tesão, é o que me dá vontade de trabalhar, de continuar vivendo.” (Morongo, criador da Mormaii)

 

“Ela chega, agrada ou não, se estabelece, estabiliza e começa a cair. É um ciclo conhecido. Por isso, é uma vitória enorme termos estas empresas do surf sobrevivendo e se renovando a cada estação. É emocionante saber que conseguimos criar e dar continuidade, é uma alegria enorme saber que apesar de todas as crises, estamos aí firmes. Acho que isso tem tudo a ver com o surf e esta paixão que desperta. Outro dia, meu pai me perguntava: você surfa desde os 15 anos, está com 45; não enjoa? Não, amo cada vez mais, vou levar esta minha paixão até o caixão, não dá para parar, está dentro da gente. Acho que este é o diferencial que nos torna tão fortes, a ligação estreita com o esporte. É uma felicidade.” (Celsinho, da Wagon)

 

“Sempre amei o surf. Comecei a consertar pranchas em 1966 e sempre fiz meu trabalho com amor, buscando a excelência, fazendo bem feito, afinal, é o esporte que se ama. E quando se trabalha assim, as coisas tendem a se eternizar. Essa é a minha mensagem. O surf é a alma de tudo, paixão, filosofia de vida, tudo. Nestes 40 anos não mudou nada em relação ao esporte. Continuo fissurado. Continuo treinando, competindo, continuo em busca da onda perfeita. Quer coisa melhor?” (Rico de Souza, que completa muito mais que vinte anos de esporte)

 

“Não é só o que já fizemos, mas a consciência de que é bom o que fazemos, que acabamos por criar conceitos e exporta-los. É uma enorme realização. Hoje não somos um setor colonizado, temos o nossos próprio jeito de ser, somos empresas brasileiras que têm cor, maneira, visão original para mostrar para todo o mundo. E as portas para fora estão abertas, não temos mais os limites de fronteiras na globalização. O momento histórico é auspicioso: o Brasil é bem quisto no mundo inteiro, as pessoas gostam e querem Brasil – e o surf, mais que qualquer outra indústria, ousaria afirmar, é isto, o Brasil que todos gostam e pelo qual todos têm a maior simpatia. Somos para frente, refletimos uma série de desejos e anseios que estão na pauta de todo mundo – viver bem, em paz, na natureza, com uma sexualidade alegre, divertida, resolvida, com simplicidade, sem conflitos internos, com uma religiosidade que convive – o mundo gostaria de ser brasileiro. Por isso é bobagem falar que somos o país do futuro: nós já demos muito certo, hoje, agora, em aspectos muito mais profundos e valiosos do que riqueza e poder, no modo de vida, na nossa filosofia de vida.” (Avelino Bastos, criador da Tropical Brasil)

 

“E isto tudo, originado do que em um primeiro momento foi chamado de irresponsabilidade, de largar carreiras certas e estabelecidas, sérias, para fazer calção para maluco, para cabeludo. Sem saber se havia mercado ou se havia futuro… só para poder ficar perto do mar e das ondas. Foi um início de loucuras, sair da faculdade, largar a engenharia, a medicina, o cargo e a carreira no banco. Mas hoje, em retrospectiva, não imagino nada melhor que pudesse ter acontecido. Nunca precisei usar um terno. Passei os últimos vinte anos surfando, viajando por todo o Brasil e pelo mundo, me relacionando com gente simples, que age, pensa, tem postura e atitude como a sua. A gente do surf. O surf ensina a ter respeito em relação às forças superiores, a ter paciência e perseverança, a esperar e escolher a onda certa – e a se atirar e descê-la naquele momento único em que ela te recebe, te convida a passear com ela e te envolve de tal forma que você se sente um só com o todo, com a natureza, realizado. Constituí família e hoje tenho a chance de dar aos meus filhos a visão deste caminho maravilhoso que ensina que não é preciso muita coisa para ser feliz na vida. Quer mais do que isso? Eu não. Sinto-me mais que realizado, muito mais que eu imaginava ser possível. Graças ao surf, à sua cultura, ao seu estilo de vida.” (Álfio Lagnado, fundador da Hang Loose)

 

“A coisa mais linda do mundo é ser surfista; acho que foi graças a isto que consegui passar por tudo quanto foi obstáculo que o governo enfiou na gente. Comecei quando vi uns óculos de nylon, que achei perfeito para quem vive na praia, nós. Passamos por muitas, nem dá para falar. Mas estamos aqui, nos reconstruindo sempre, lutando para superar as dificuldades que aparecerem sempre. Tenho 45 anos e graças ao esporte continuo surfando nos quatro cantos do mundo. Estou agora voltando da Indonésia onde fui considerado um dos melhores surfistas da barca… É uma satisfação enorme ser empresário e ser surfista ao mesmo tempo. Estou super otimista, nossa marca passa por uma renovação, estamos recriando toda nossa linha, vamos dar um salto à frente, quem for à Feira vai ver. Não imagino uma vida melhor, trabalhar com o surf e viver dele.” (Micro, criador da Spy)

 

* Oswaldo Pepe, o Pepito, 55, fundou a Art Presse Comunicação Empresarial, em 1976; presta serviços ao surf há muitos anos, começando quando foi convidado pelo Paulo Lima e pelo Carlos Califa para organizar a comunicação de lançamento da revista Trip. Depois, cuidou da estratégia de comunicação que Romeu Andreatta imaginava para a indústria do surf, através da revista Fluir. Com Cláudio Martins de Andrade trabalhou a comunicação das feiras do setor e a estruturação inicial da ABIS (Associação Brasileira da Indústria do Surf), entre outros projetos. No ano passado, realizou o maior sonho de sua vida: aprendeu a surfar de verdade e atualmente pode ser visto nos fins de semana na praia da Baleia ou no Canto do Moreira (se estiver pequeno) com seu técnico Zé Paulo, do ZP Surf Camp.

 

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