Em memória de um big rider

Amigos homenageiam Zeca Scheffer na ilha dos Lobos (RS). Foto: Gildo Bueno.

No último domingo, cerca de 150 pessoas – entre surfistas, familiares e amigos – seguiram de barco até a Ilha dos Lobos, em Torres (RS), para homenagear o big rider Zeca Scheffer.

 

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Familiares e amigos assistiram e aplaudiram a homenagem a bordo do catamarã, enquanto mais de 100 surfistas formaram um círculo próximo à ilha.

 

Eles rezaram e exaltaram feitos de Zeca. No momento da oração, inesperadamente, um leão-marinho saltou no meio do círculo.
 
Na segunda-feira, foi a vez de Jaguaruna homenagear o gaúcho, que realizou na laje da Jagua o primeiro campeonato Brasileiro de Tow-in.
 
O mar estava agitado e por isso a homenagem foi realizada na lagoa. Pais, irmãos, amigos e admiradores rezaram, cantaram e lembraram as conquistas do big rider.

 

O gaúcho Zeca Scheffer faleceu na madrugada do último dia 22 de dezembro depois de sofrer acidente de carro no trecho não-duplicado da BR-101 em Santa Catarina.

 

Segundo boletim divulgado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), Scheffer, 32, dirigia uma Toyota L200 que bateu de frente contra um caminhão de Criciúma.

 

Confira nas páginas a seguir, as homenagens a Zeca Scheffer enviadas por amigos e admiradores.

 

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Fabiano Tissot e Zeca Scheffer na Laje da Jagua. Foto: Christopher Arlington.

O único local da Ilha dos Lobos

Por Fabiano Tissot

 

Eu fico aqui sozinho do outro lado do mundo pensando na morte do nosso amigo e não sei se ele era um pai, um filho, um irmão ou um anjo para mim. Acho que foi tudo isso.

 

Estou relutando em escrever algo com medo de não ser justo o suficiente com tudo que ele merecia ouvir numa hora dessas e com certeza não serei.

 

Mas chegou a hora de começar a repensar o futuro, pois seria isso que ele gostaria de nos ver fazendo agora. Seria preciso mil homens de fé para levantar a bandeira que o Zeca estava carregando.

 

Uma das coisas mais marcantes que lembro foi quando aguardávamos pra surfar a Ilha dos Lobos no dia seguinte, esperando as indicações dos centros de meteorologia. Eram dez da noite e estávamos na casa dele, do lado de fora do pátio.

 

Era a sexta vez que íamos atrás das previsões aquele ano e todas tinham falhado. Ele parou em silêncio, olhou pro céu por um momento e falou: “Vai dormir Tissot, descansa que amanha a Ilha vai quebrar”.

 

Na outra noite, após o dia de surf, me chamou com duas velas apagadas e foi comigo até a gruta da Nossa Senhora que fica no pé do Morro do Farol, entre as pedras e o mar. Deu uma vela na minha mão e mandou que eu a acendesse e colocasse ali. Fez o mesmo com a dele, virou pra mim bem claro e falou: “Essa aqui é pra agradecer pelo teu tubo e essa é pra agradecer por eu ter saído vivo”.

 

Ele tinha uma ligação mística com aquele lugar, difícil de entender e de explicar; sempre dizia que a Ilha era um lugar “temperamental”. A primeira vez que fez tow-in no seu pico, recebeu as mais lindas séries do dia como um presente de boas vindas.

E surfou ondas gigantes como uma criança brinca em volta da mãe. Fez de tudo, o possível e o impossível, pra realizar seu sonho de “montar uma base de frente pra Ilha”.

 

Dizia que queria ir lá de manhã cedinho quando a cidade ainda estivesse dormindo e a neblina impedisse que todos vissem as ondas. Quando a Ilha fosse liberada essa era a primeira coisa que queria fazer. Surfar numa hora que ninguém pudesse ver nem ficar sabendo.

 

Falava que queria poder ficar velhinho num barco assistindo a Ilha quebrar. Sabia que o surf nesse lugar, que ele gostaria de passar o resto da sua vida, ia ajudar Torres a crescer e melhorar.

 

Estava empenhado em usar os jets em salvamentos, queria implantar o uso deles nas principais praias do estado e esse ano estava trabalhando em Garopaba. Montou uma entidade em Torres para servir como anjo da guarda dos surfistas na Ilha dos Lobos, chamada Jet patrol. Num mar cabuloso com doze tow surfers na água, foi o único a entrar na zona de impacto pra resgatar um surfista em perigo.

Salvou muitas vidas com seu jet-ski, por vezes arriscou a pele mar a dentro nas piores condições para resgatar pessoas que sequer conhecia, mesmo na escuridão solitária da noite. No verão que trabalhou na Praia Cal com seu jet-ski, nenhuma morte foi registrada por afogamento em Torres. Estava estudando inglês pra ir aos Estados Unidos fazer um curso de salvamento.

 

Não usava o tow-in só pra ele, usava pra todos. Sempre dizia que “todas as roubadas vão valer a pena quando tu passar por trás dum tubão na Ilha dos Lobos” e que “nada acontece por acaso”.

 

Quando o proibiram de surfar lá, desbravou outra laje, ainda mais longínqua e solitária, a Laje da Jagua, ou Laje do Zeca. Empreendeu em Jaguaruna o primeiro campeonato brasileiro de tow-in e chamou os mais respeitados nomes pra se juntar a ele. Terminou aquele evento como um verdadeiro monumento à garra, dedicação e coragem.

 

Fundou e presidiu a Associação Gaúcha de Tow-in e montou a Storm Surf Team, primeira equipe de tow in do Rio Grande do Sul. Um verdadeiro campeão nas ondas grandes e no caráter.

 

Como era bonito ver que ele sempre se referia com a primeira pessoa do plural pra falar das coisas boas que fazia. Pois o Zeca vai continuar vivendo em cada tubo que quebrar na Ilha dos Lobos e na Laje da Jagua.

 

E vai continuar ao nosso lado como o anjo da guarda que sempre foi. Pois é, maluquinho, você é uma bênção a todos nós que podemos ter um amigo tão perto do coração e vivo na nossa memória e no nosso futuro, como um exemplo e uma luz a ser seguida.

 

Zeca Scheffer. O único local da Ilha dos Lobos, um homem do mar que amava as ondas, salvava vidas e subia nas baleias. Valeu Doido, por tudo que nos ensinou. Sempre vão faltar palavras e sobrar lembranças.

 

Espero que Deus nos de força suficiente para seguir em frente e honrar teu nome.

Swell na área. Atento. 1,2.

 

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Flávio Boca Oliveira em Maresias, São Sebastião (SP). Foto: Anselmo Venansi (Cachorrão) / Avpictures.com.br.

Quem divide multiplica

Por Flávio “Boca” Oliveira

 

Compartilhar. Para mim essa é a palavra que mais pode definir este amigo, guerreiro e visionário. O Zeca sempre nos mostrou que sem “compartilhar” não chegaremos em lugar nenhum.

 

A prova disso é que para poder desfrutar as ondas da Ilha dos Lobos, ele a compartilhou com todos nós, pois ele queria ver aquelas ondas sendo surfadas e também queria surfar as ondas impossíveis na remada que aquela bancada produz.

 

Quando conheci o Zeca em Floripa com seu golzinho branco, carreta enferrujada e o jet branco e amarelo (Tabajara, como ele mesmo dizia), logo vi que ele era um ser especial.

 

Era um cara diferente, que amava os desafios, era capaz de decifrar os enigmas atmosféricos e geológicos e acima de tudo era, e ainda é, capaz de movimentar e influenciar todos que o conheceram.

 

Ele compartilhou a Ilha dos lobos mesmo sem acreditarem nele. No primeiro swell de 2003 ele pilhou todos para surfar nos Lobos, mas a galera quis surfar no Moçambique e na Lagoinha do Leste. Mesmo desacreditado, ele partiu sozinho para Torres para encontrar o Monster, que passou o dia vendo do Hotel as bombas com sprays enormes quebrando na Ilha, sem ninguém é claro.

 

Eles partiram para a ilha com apenas um jet e surfaram bombas enormes. Ainda bem que na semana seguinte o swell bombou de novo e graças às chocantes fotos que eles fizeram a galera se convenceu e partimos eu o Capilé o Romeu e o Zeca para aquela session, que entre todas que participei foi a mais espetacular, pois o vento oeste trabalhou o dia inteiro e as ondas estavam com aquela perfeição sinistra que só a Ilha dos Lobos tem.

 

Foi nesta session que o Zeca deu um fade numa onda enorme e perfeita, não conseguiu fazer a curva na base, pois a onda deu um passo para trás lá em baixo, a prancha dele parou, e ele foi engolido por uma monstruosidade que o deixou entalado no mesmo lugar por quase 20 segundos.

 

Eu vi de camarote, pois estava com o longboard do Roque, que estava rebocando ele. O Zeca sobreviveu, foi parar no hospital em choque com os membros inferiores desativados, com meu long john todo rasgado, e com riscos no capacete.

 

Nós compartilhamos a BR algumas vezes indo para Torres e, numa das vezes, quando a carreta quebrou, ele decidiu nos guiar para Campo Bom para checar uma tal laje, que ele  tinha informações, mas nunca tinha ido checar. Esse dia foi a “descoberta” da laje de Jagua.

 

Ele foi seguindo seus instintos e informações e pudemos avistar da praia as espumas lá no horizonte. Ele e o Monster partiram com o sol de inverno já baixando atrás das casas em Campo Bom, numa missão que poderia ser sem volta, pois o jet tabajara, alguma rede, ou a própria laje poderiam aprontar alguma e deixar os dois numa puta roubada, pois faltavam uns quarenta minutos para escurecer quando eles partiram mar adentro em direção à laje, que a galera da praia nos disse que nunca ninguém havia ido surfar.

 

Eu, a Paty, a Gisa e o Dê ficamos na areia de prontidão caso eles não voltassem, e assim que a luz começou a cair ligamos os faróis dos carros para que eles pudessem se balizar na volta para terra.

 

Operação bem sucedida, Graças a Deus. Eles voltaram com a seguinte afirmação: a direita é um Backdoor e a esquerda pode ser um Teahupoo com a ondulação certa. Essas foram duas das infinitas histórias que o Zeca escreveu nesta sua passagem pela Terra.

 

Graças a Deus que ele compartilhou sua equipe, o Storm Surf Team, com todos nós. Com certeza ele está e estará como um anjo cuidando de todos que forem seguir seus rastros nas ondas dos Lobos, em Jagua ou nos picos que ele já havia descoberto espiritualmente e só estava esperando para nos revelar.

 

Zeca, obrigado por compartilhar comigo a sua especial energia. Fica com Deus meu amigo, que os Bons Espíritos te assistam no que você precisar e que teu anjo da guarda continue contigo para sempre… Grande abraço a todos que fazem parte da comunidade Storm Surf Spirit.

 

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Zeca Scheffer: atrás da cara de rebelde havia um amigo fiel para todas as horas. Foto: André Bianchi.

Boa viagem Zeca!

Por Rosana Sacchet

 

Sabe aquela pessoa que jamais passou desapercebida? Esse é Zeca Scheffer. O Zeca sempre foi uma cara de personalidade. Marrento, invocado, doidão, encrenqueiro, amigo de verdade, inteligente, trabalhador, big rider, solidário, cômico, corajoso, kamikase, praticamente heróico.

 

Apesar do ‘pavio curto’, era uma pessoa única, excelente caráter, um enorme coração e capaz de coisas incríveis. Um grande contador de histórias, sempre tinha uma nova, protagonizada por ele, claro. E no final de 2006 ele aprontou a última: resolveu encarar de frente um caminhão. Ele nunca gostou de pouca coisa mesmo.

 

Quando penso nele vejo sempre cenas surreais! Já vi o Zeca andando em pé em um cavalo numa madrugada fria de inverno, depois de um banho de mar. É claro que ele caiu e se arrebentou todo. Em quase todas as festas na Sapt (isso há ‘trocentos? anos…) era certo que ele arranjava ‘bolo’ e saia arrastado pelos seguranças.

 

Teve um verão que ele vendia água de coco na praia. Já vi o cara ir na remada pra surfar e ficar tomando caldo na Ilha dos Lobos para aumentar a capacidade de apinéia: uma preparação para botar pra baixo na maior onda de sua vida. E ele brigava de soco no outside quando perturbavam suas ondas, sua paz… Mas apesar desse jeito invocado, que muita gente conhece, o Zeca sempre foi alguém capaz das atitudes mais generosas e solidárias.

 

Percebi o quanto ele era amigo pra valer, muito além de uma parceria divertida pra festas e para o surfe, em um dia crítico. Eu estava com a galera na Guarita, tomando um sol nas pedras depois de uma caída no mar, quando a polícia confundiu o carro da Carol, minha amiga, com o utilizado em um assalto a um banco em Torres. O Zeca se meteu junto com a gente na viatura e ficou ao nosso lado até que tudo fosse esclarecido na delegacia.

 

E o melhor, isso não era uma atitude reservada aos bons amigos. Ele era a operação resgate mais solicitada e eficaz quando algum surfista qualquer pegava uma corrente mar adentro. O Zeca foi quem salvou a vida daquele menino que passou a noite na Ilha dos Lobos, entre outros muitos resgates. E, hoje em dia, ele era o responsável pelo treinamento do pessoal da Operação Golfinho, no uso do jets-ski para salvamento.

 

Eu e todas as pessoas que um dia tiveram o privilégio de conhecer de perto o grande Zeca Scheffer vamos sentir muito sua falta, mas ele sempre será uma lembrança alegre e de alguma forma, sempre estará conosco, no coração. Tenho certeza que ele encontrou a luz, já que era realmente uma pessoa linda e de bom coração.

 

Desejo a ele uma ótima viagem e o que me consola é que quando eu chegar no pico, lá na outra dimensão, já vou ser amiga de um ‘local’ respeitável. Com certeza ele vai se enturmar rápido e colocar ordem por lá.

 

Zeca, sempre tive muito orgulho de ti e curtia muito teu sucesso. Agradeço a Deus por ter tido a oportunidade de nossos caminhos terem se cruzado nessa vida. Esteja em paz meu brother!
 
Obs: Está muito enganado quem pensa que o outside em Torres vai virar bagunça porque o Zeca foi surfar em outro pico (rs).

 

 

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