Fotógrafo de atitude

Eduardo Castro aposta na Austrália

Eduardo Castro largou estável carreira no mercado financeiro para fotografar na Austrália. Foto: Arquivo pessoal Eduardo Castro.

Fotografar é uma atividade que atrai muito quem gosta de surf. Ter o life style ligado à praia, estar sempre nas areias, em contato com a natureza e com os esportistas, é algo muito bacana e tem atraído cada vez mais adeptos ao redor do mundo.

 

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Mas não é todo mundo que pega onda que gostaria de perder o melhor horário do mar para posicionar-se atrás das lentes de uma câmera, torrar no sol, encarar trilhas e pedras em busca do melhor ângulo, entrar na água gelada com todo o corpo imerso cercado por criaturas como tubarões ou mesmo correr o risco de ser arrastado junto com um lip pesado de encontro à bancada rasa e afiada de point e reef breaks.

 

Eduardo Castro é um desses malucos que encara tudo isso. Mais ainda, largou uma estável carreira no mercado financeiro, onde atuou por

Esquerda perfeita em Manly Beach. Foto: Eduardo Castro.

mais de 15 anos, e se jogou para a Austrália com tudo e mais um pouco.


Colaborador do Waves, ao lado de Marina Vivacqua, com ótimas imagens do Mundial Pro Junior este ano, Eduardo conta um pouco de como é a vida de fotógrafo fora do Brasil.

 

Conte um pouco de sua trajetória na fotografia.

 

Iniciei na fotografia fazendo cursos de extensão na UFRGS em Porto Alegre, depois de um swell gigante oriundo de um ciclone no Farol de Santa Marta (SC) em 2004. A única foto publicada foi a do Dê da Barra na Fluir, se não me engano. Uns diziam 15, outros 20, outros 24 pés de onda.

 

O lance é que tenho aquilo até hoje na cabeça. Não consegui uma imagem pra mostrar o que tinha visto. Conto o fato aos incrédulos amigos até hoje, então resolvi fotografar surfe já que somos surfistas. É a maneira de dividir com os outros a vibe do local.

 

É importante fazer um curso, pois te dá a idéia das possibilidades manuais de abertura, exposição e como arrumar as coisas na foto. A partir de então, vi que meu negócio era fotografia de esporte e movimento. Não gosto particularmente de fotos posadas ou de pessoas, mas gosto daquelas onde a pessoa passa, em um momento de descontração ou algo que você possa compor na hora como paisagem. Prefiro a fotografia artística ou jornalística, nunca a tradicional.

 

Meu equipamento é simples para competir com as potentes lentes e avançados corpos de câmera que possuem os profissionais com mais tempo de mercado, contudo, para investimento inicial consigo fazer algumas boas fotos.

 

Precisava fotografar surfe, comecei em Tramandaí (RS), onde eu e minha esposa surfávamos todo o inverno (no litoral sulista, poucas praias são como ?Tramanda? e têm área de surf demarcada, parece que está mudando agora, pois muita gente morreu em outras praias enrolado nas redes de pesca) em águas que chegam a 9 graus e vento tão gelado quanto.

 

Faço um trabalho informativo sobre as praias daqui da Austrália para um amigo (dono de um site no Brasil). Viajava pra Santa Catarina e picos mais próximos pra surfar e sempre fotografar. Mas sentia que faltava mais tempo pra me dedicar às fotos de surfe, já que não tinha condições de me transferir pra outra cidade sem um custo muito alto e a praia mais próxima de Porto Alegre fica a 130 quilômetros.

 

Por que resolveu ir para a Austrália? O que você faz na Austrália?

 

Tinha idéia de mudar pra algum lugar perto de uma onda boa pra surfar a outra metade da vida com a família, mas não imaginava que seria tão longe.  Andava pesquisando há tempos o “lifestyle ozzie”, lugar de muita onda, campeonatos, atletas profissionais e clima parecido com o Sul, frio no inverno e quente no verão.

 

Bom, acho que não entenderam bem o meu negocio de fotografia lá no meu trabalho (risos), e eu estava um pouco cansado da rotina caótica da cidade. Já havia decidido que iria abandonar a vida estável e estressada por algo que eu realmente gostasse de fazer, como a ?promissora? carreira na fotografia.

 

Achei bem interessante a vida selvagem daqui da Austrália, posso fotografar em um lago, no mar ou simplesmente parar em um lugar sentado e esperar acontecer alguma coisa. Vários pássaros vem na tua sacada, vários mesmo! Existem diferentes tipos de aranha, cangurus, patos, pelicanos, etc., tudo isso na porta da tua casa ou bem na tua janela, incrível!

 

No mesmo dia que saí do trabalho, cheguei em casa e anunciei: “Mulher, faz as malas que estamos indo pra Austrália!”. Foi o caos em cadeia: esposa, família, família da esposa, ninguém entendia nada!

 

Passei seis meses estudando e me organizando e vi que era possível cozinhar e fotografar. Hoje cozinho e fotografo. Ou melhor: cozinho pra poder fotografar.

 

A culinária aqui é outra profissão rentável a ser explorada. Consegui trabalho com um paranaense muito gente boa que faz pizzas excelentes aqui nas Northern Beaches de Sydney.

 

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Long Reef quebra de gala. Foto: Eduardo Castro.

A fotografia na Austrália é mais valorizada do que no Brasil. Por quê?

 

É difícil ser fotógrafo no Brasil. Fiz fotos muito boas de um campeonato de Pólo que eu acreditava ser esporte da elite local, ricos em peso, carrões, roupas caras, cavalos e etc. Mandei para a organização por um preço compatível, pois estava começando. Acharam caro. Acredito que seja falta de informação do custo operacional para fazer uma foto daquela a 200m de distância, com qualidade pra fazer um pôster e quanto custa um simples clique com um equipamento similar.

 

Quando completei cinco meses na Austrália, (estou aqui há 10 meses), fiz algumas fotos de still para uma revista nova local, hoje indo pra terceira edição. Continuo trabalhando na mesma publicação fazendo fotos de culinária, fashion e surf. Também faço fotos para

Joel Parkinson passeia pela alto na praia da Vila, Imbituba (SC). Foto: Eduardo Castro.

publicidade, freesurf, lifestyle, paisagismo e fotos artísticas.

 

Outro quesito seria quanto à cultura da fotografia local. Existem muitas galerias de exposição e fotógrafos. Aqui na Austrália, equipamento semi ou profissional você encontra em casas especializadas no “mall” (shopping) mais próximo. O preço é bem mais em conta e o poder aquisitivo do pessoal aqui é maior. Lembro de algumas fotos muito boas no Margs, em Porto Alegre, e ter visto obras do Cartier-Bresson em outra galeria por lá.

 

Quais as diferenças técnicas em se fotografar na Austrália ou no Brasil?

 

O inicio da manhã e final de tarde possuem luz igual a um filtro alaranjado. Em dias de swell de Sul, encontro muitos picos a poucos quilômetros de casa. Swell de Leste aqui em Narrabeen é a bênção. Quando o vento vira, sempre tem uma onda protegida. Muitos cliffs e point breaks.

 

Sem falar que você encontra o Tom Carrol na água, o Nathan Hedge quando você fotografa, o Ross Clark Jones fazendo tow-in num dia chuvoso, a galera local e os grommets. Brasileirada também representa aqui. Você aprende com os caras e o teu mercado fica a duas quadras, pois sempre tem onda de qualidade quando entra swell. Mas não é raro ficarmos 10 dias ou mais sem onda. Sempre sonhei em morar em algum pico no Brasil, mas era inviável financeiramente e as coisas conspiraram pra virmos pra cá, dei sorte de morar em South Narrabeen, que também é perto de onde rola o Pro Junior.

 

Tranquilamente você deixa teus pertences à beira-mar ou no teu carro (os parks geralmente são pagos e tem fiscalização aqui em Sydney). Acredito que a segurança seja a maior diferença entre nosso país e aqui, pois te dá condições de andar sozinho com o teu equipamento e surfar também. Cautela é sempre bom. Tenho amigos que receberam mais de uma vez a carteira perdida pelo correio, com todos seus pertences e dólares.

 

Aqui perto existem picos conhecidos. Deadmans (onde o Kelly Slater surfou), Avalon (onde o Kelly Slater surfa e tem casa), North Narrabeen, Dee Why, Curl Curl, Freshwater, Long Reef, Whale Beach, entre outras. Todos ótimos e com ondas pra todos os gostos, de 2 a 12 pés, até onde eu vi.

Quais suas experiências profissionais com fotografia no surf?

 

Campeonatos locais no Sul do Brasil: WCT- Imbuituba 2007; Volcom Stone 2008 ? Sydney ? Austrália; Billabong Pro Junior – 2009 – North Narrabeen ? Sydney – Austrália; fotógrafo da revista Radar Magazine ? Sydney – Austrália e colunista do site Ondasdosul.

 

O que você acha do mercado de fotografia do surf mundial atualmente?

 

Considero-me novo no mercado, mas já dá pra traçar parâmetros quanto às limitações e dificuldades do mercado mundial com o advento digital. Informação mais rápida vinda da ASP, que tomou conta dos principais campeonatos obstruindo o trabalho de fotógrafos autônomos. Acredito que não com o mesmo cuidado e qualidade que andei observando. Acho que tudo que é produzido industrialmente perde qualidade, alma, feeling.

 

Fotografar o Jadson ou o Alex Ribeiro, ou qualquer um daquela gurizada que esteve por aqui no mundial, é bem diferente quando se trata de freesurf. Portanto ainda dá pra criar, fazer material promocional e diferente, galera que faz arte gráfica, enfim tem que inventar pra se adequar à situação. Até cubro campeonatos, mas acredito que trip e ondas diferentes são o caminho a ser percorrido.

 

O que e quem te inspira para fotografar?

 

As fotos do Sebastian Rojas, Tony Fleury, Sean Davey, Donald Miralle, David Púu, Scott Aichner, Julian Breever (não é surfe, mas é legal), Clemente Coutinho, Thiago Braga, James Thisted, Borghi, entre tantos outros. Todos eles tem linguagem própria e aprecio a diversificação.

 

Outras são as praias, o tipo de luz incidente, tipos diferentes de ondas, onda como filtro e todas as condições que você consegue enquadrar e dizer: ?pôxa, isso daria uma boa foto!? Gosto de fotografar animais também, são espontâneos. Acredito que cada fotógrafo tem sua maneira de ver o surf e colocar sua alma na foto. Isso faz a diferença.

 

Quais seus planos dentro da fotografia?

 

Atualização, evolução e fotografar na água. Essa última não muito aconselhável, pois semana passada cinco tubarões brancos de 4 a 5 metros cercaram pessoas em caiaques em Long Reef, derrubando um homem, isso a 1 quilômetro da praia! E ainda acharam outros bichos rondando Narrabeen e Palm Beach. Tenho que fazer amizade com eles!

 

Gosto do trabalho fotográfico voltado para informação de surfe e pretendo continuar neste sentido.  Sinto-me à vontade pra desenvolver meu trabalho aqui, pois sei que Indonésia, Bali e Taiti não são muito distantes, nem custam tão caro como se fosse saindo do Brasil.  Acredito que sejam meu próximo objetivo.

 

Gostaria de ver uma foto de surfe ganhando o World Press Photo, pois o foto jornalista português Miguel Barreira chegou perto com o Bodyboard em 2007, conquistando o terceiro lugar. O Aleko Stergiou tem foto na National Geographic. Seria bom ver o surfe quebrando alguns paradigmas.

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Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.