
No final de fevereiro foi encerrada a janela de espera para a realização do Quiksilver in Memory of Eddie Aikau. O evento, marcado para o dia em que Waimea Bay quebrasse perfeito com ondas acima de 25 pés, foi criado em 1986 para homenagear o lendário waterman havaiano Eddie Aikau, desaparecido no mar em 1978.
Participam somente convidados e a galeria de campeões inclui Clyde Aikau, irmão do big rider, Keone Downing, Noah Johnson, Ross Clarke-Jones e Kelly Slater, campeão da última versão do evento, em 2001. Neste ano, o pernambucano Carlos Burle novamente teve o nome na lista dos substitutos.

É sempre importante contar a história de Eddie Aikau, morto enquanto buscava socorro para a tripulação do Hokulea, réplica das antigas embarcações polinésias, que naufragou durante uma expedição comemorativa entre o Hawaii e o Tahiti.
No texto abaixo, Cristiano Morley relembra dos fatos que tiraram a vida do big rider.
Primeiro salva-vidas de Waimea, Eddie Aikau é considerado um dos maiores big riders de todos os tempos. Venceu o Duke Classic em Sunset num mar… clássico, competindo contra os melhores surfistas da época, incluindo Barry Kanaiaupuni, Terry Fitzgerald, Mark Richards e Shaun Tomson.
Desapareceu aos 32 anos, enquanto remava na busca de ajuda para a tripulação que naufragou ao simular uma travessia entre o Hawaii e Tahiti, para resgate das tradições e cultura do povo havaiano.
A “Polynesian Voyaging Society” organizou a expedição para refazer a a rota feita pelos polinésios, numa tentativa de valorizar as tradições e a própria cultura havaiana, dizimada pelos missionários europeus.
Com a colonização a partir de 1778, as expressões culturais e religiosas foram duramente reprimidas. Além do massacre da população do arquipélago, toda e qualquer manifestação de crenças e costumes foi proibida.
Séculos mais tarde, foi construída a Hokulea, canoa/catamarã de 60 pés, réplica da antiga embarcação utilizada pelos polinésios, para partir do porto de Magic Island com destino ao Pacífico Sul.
Cerca de 2 mil pessoas compareceram à despedida. A partida seria feita às 19 horas, mas devido ao péssimo clima, foi adiada até por volta da meia-noite. Aparentemente, tudo estava perfeito para a viagem, não fosse a tempestade no canal de Molokai.
Algum tempo depois do início da viagem, em alto-mar, o capitão da embarcação – David Lyman, integrante da primeira expedição em 1976 com o mesmo destino – foi checar o convés e notificou à população de que havia um alagamento.
A tripulação iniciou um trabalho de retirada de todos os objetos do local para aliviar peso, pois o barco já começava a adernar. Os ventos fortes e o alagamento do convés indicavam uma combinação infeliz.
Até que uma série de ondas se direciona ao Hokulea, para a maior delas atingir e virar a embarcação.
Todos se apavoram, mas Eddie, com instinto de salva-vidas, começa a contornar os problemas e acalma a todos. Os tripulantes seguram-se aos destroços. Passado o susto, todos resolvem aguardar até o dia seguinte para tomar uma atitude.
Eddie propõe remar com sua prancha de 10 pés em busca de ajuda, pois na noite anterior avistaram luzes que acreditaram ser a costa de Molokai ou Lanai. O medo do capitão era se afastar daquele litoral devido aos fortes ventos e correntes, tirando-os da rota dos aviões comerciais.
Após a insistência de Eddie, o capitão Lyman concorda que não há mais tempo para esperar. Aikau partiu na direção do continente com um par de pés-de-pato, um apito, sacos de torrões em volta do pescoço, uma faca, uma luz de sinalização e um colete salva-vidas e adaptou um leash, que não existia naquela época, com uma corda de nylon.
A princípio, recusou o colete. Teria dito que atrapalhava sua remada ajoelhado, estilo comum naquela época. E disse: “Não se preocupem, vou conseguir, posso alcançar a terra”. Estas foram suas últimas palavras e partiu.
Momentos depois, o colete salva-vidas retorna trazido pela corrente em direção aos tripulantes. E Eddie nunca mais foi visto.
Algumas horas depois de sua partida, um navio costeiro move-se na direção do Hokulea. Todos imaginaram que Eddie havia conseguido ajuda, porém, o navio desacelera, fica parado e desaparece sem que fosse notada a presença dos náufragos.
No dia seguinte, foram resgatados pela marinha americana. Então, perguntaram pelo amigo e, sem uma resposta positiva, todos já imaginavam um terrível acontecimento.
A busca do corpo de Eddie Aikau foi suspensa semanas depois. Encontram somente a prancha boiando em uma região próxima.
Eddie viveu situações perigosas nos mares havaianos, momentos que um ser humano normal não suportaria.
Há uma fotografia que o eterniza, ele surfando uma besta de 40 pés com a baía de Waimea fechando, completamente concentrado e tranquilo. A natureza e Eddie interagiam, eram um só, cada um fazendo um parte do outro. Era a harmonia perfeita entre homem e onda.
Na baía de Waimea foi criado um campeonato para homenagear uma das mais belas histórias da mitologia do surfe, intitulado “Quiksilver em memória de Eddie Aikau”.
O evento é aberto com uma cerimônia e os surfistas convidados se direcionam ao outside, onde gritam algumas vezes o nome do havaiano. Em seguida, formam um círculo e depositam flores no mar.
O campeonato só acontece quando as ondas atingem um pico acima de 25 pés, quando a habilidade dos surfistas de ondas grandes é comprovada. É uma grande homenagem ao homem que perdeu a vida tentando buscar ajuda e salvar a vida dos companheiros.