E quem um dia irá dizer que não existe razão

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Taiu Bueno e Gabriel O Pensador. Foto: Arquivo pessoal.

 

Quando me batizei de Pensador aos 16 ou 17 anos de idade, queria dar destaque a uma qualidade que valorizo muito na música, que é a de nos fazer pensar, estimulando através de suas letras (e das interpretações vocais e do som dos instrumentos) reflexões, questionamentos, ideias e, consequentemente, atitudes e ações.

Ouvindo rock brasileiro, Bob Marley e Peter Tosh, um pouquinho de MPB e muito rap americano (numa época de letras mais conscientes e realistas), eu arrombei a porta do meu jeito, com esse nome ousado, e achava que tudo seria muito mais racional e “pensado” do que é na verdade, como logo viria a descobrir.

Resumindo, antes do pensamento e da razão, no meu processo de criação e comunicação, estão a emoção e o sentimento. Ao longo dos anos isso fica cada vez mais claro, e eu cada vez mais sensível a esta energia que ultrapassa os limites da compreensão da minha mente.   
 
A chamada “inspiração” tem algo de mágico e espiritual, muitas vezes inexplicável e estranho até para o próprio compositor. A troca de vibrações com o público nos shows então, nem se fala. Eu me arrepio com frequência com os olhares e sorrisos e histórias que a galera compartilha comigo na estrada. As chamadas “ideias”, em grande parte das vezes, não nascem no cérebro, mas sim no coração e na alma, e foi nesse solo que brotou a minha música mais recente, “É Brasil Representa (Brazilian Storm)”.

Convidado pelo Globoesporte.com para gravar uma matéria “fazendo umas rimas” com o nome dos atletas brasileiros inscritos no tour principal da WSL que estava prestes a começar, na mesma hora eu imaginei (ou melhor, eu senti!) que o nosso surf merecia algo maior do que isso.

Antes mesmo de desligar o telefone eu já me propus a entregar uma música inteira em tempo recorde, cerca de seis dias, reverenciando alguns dos mais importantes nomes da história do surf brasileiro, e desta forma homenageando TODOS que, tendo ou não seus nomes citados na gravação, reconheceriam sua presença nela por terem feito parte dessa legião de sonhadores e desbravadores que, com muito esforço e paixão, plantaram e regaram na terra, no mar, as sementes dos frutos que o nosso surf vem colhendo recentemente.

Comecei a letra já feliz por poder homenagear o grande Maraca, que pouco antes de morrer tinha me pedido para fazer uma música para seu futuro projeto de um filme de cinema.

Escolhi uma base musical que o produtor Apollo tinha me mandado para eu usar no próximo CD, respirei fundo e anotei alguns nomes, empolgado e feliz com o meu difícil desafio de fazer caber em menos de 4 minutos uma letra minimamente representativa sobre os heróis que representam o nosso surf!

Um desse nomes, além de ser citado duas vezes na letra, por pouco não entrou nos créditos da autoria. Foi o Ricardo Bocão, a quem recorri pedindo uma ajuda, por ser um amigo que gosta de ajudar os amigos e por saber que ele é uma verdadeira enciclopédia em matéria de ondas, pranchas, surfistas, campeonatos e tudo que envolve o nosso esporte querido. Já viajamos juntos e batemos altos papos, e ele adora falar! Ainda bem, pois me encheu de referências e lembranças mais pontuais sobre alguns nomes que eu já tinha lembrado e anotado. Ou seja, se você sentiu falta de algum nome importante, a responsabilidade foi minha mesmo, não reclame com o Bocão! Lembrei-me de quando gravei a Festa da Música Tupiniquim, que deixou de fora nomes gigantes da nossa galeria de cantores, por falta de espaço, e ainda ficou com mais de seis minutos de duração.

Minha saída agora foi seguir um fio-condutor baseado na história da evolução do surf de competição, o que me ajudou a não me afogar no meio de tantos nomes possíveis de serem incluidos numa música sobre os surfistas brasileiros. Foi muito prazerosa essa missão e enquanto escrevia eu viajava no tempo até o meu quarto cheio de pôsteres da Fluir e da Visual no armário, quando eu comecei a aprender a pegar onda.

Já depois de virar cantor, pude conhecer alguns daqueles ídolos da época, como Jojó de Olivença, Picuruta, Pedro Muller, Renan Rocha, Guilherme Herdy, Neco Padaratz e tanta gente boa, tornando-me amigo pessoal de surfistas e pessoas incríveis como Fabinho Gouveia, Carlos Burle, Teco Padaratz, Taiu Bueno…

Outro dia, em Maresias, conversamos bastante, eu e o grande Taiu. Esse representa mais do que ninguém a nossa tribo! Mesmo depois de perder todos os movimentos do pescoço pra baixo em um acidente surfando, ele segue vivendo e amando o surf (e ainda praticando com uma prancha adaptada!), transmitindo por onde passa a vibe positiva que esse esporte nos traz.

Falando em acidente e vibe positiva, eu me lembro de grandes figuras como o Calunga. E falando em grandes figuras, me lembro de personalidades autênticas como Binho Nunes. Falando em autenticidade, a memória volta lá no Dadá Figueiredo… e assim você já tem uma ideia do nível de complicação deste quebra-cabeças.

Como encaixar tudo rimando e fazer o som fluir de maneira agradável e empolgante? Seria impossível fazer isso se eu fosse só “pensador”, né? Tinha que ser com a alma e o coração! Tinha que ser o Gabriel, o Surfador! O Gabriel que é mais um na água, mais um na torcida pelos nossos atletas no tour, e no QS, e nas ondas grandes…

Ainda não tive o feedback da maioria dos amigos que mencionei na letra, mas muitos surfistas anônimos emocionaram-se com a música, e isso foi melhor ainda. Um local veterano da Rocinha que surfava com o Pepê, um aluno de jiu-jitsu do Renan Pitanguy, um primo distante e orgulhoso do Daniel Friedmann, um companheiro de surf trip do Ricardo dos Santos… Muitas pessoas, algumas que nem pegam onda, vieram com os olhos brilhando me agradecer por esse som. E um dos grandes ídolos do nosso surf me ligou e comentou que chorou duas vezes ao ouvir e ver o clipe!

Que coisa boa ver que deu certo esta minha homenagem mais do que merecida a todos os nossos atletas do surf masculino e feminino, os pioneiros e os atuais, e extensivamente a todos nós surfistas, afinal eles (e elas) nos representam!

E a emoção, enfim, teve um pouco de razão ao me deixar arrepiado pelo menos duas vezes no estúdio, porque é Brasil, meu irmão, e na água os brasileiros estão sempre, e desde sempre, arrepiando.