Lente do sonhador

Drunn é cidadão do mundo

Hugo Cairo encara bomba no Secret de Floripa (SC). Foto: Mauricio Drumm.

Escrever sobre um pouco da minha vida e meu trabalho na fotografia traz muitas das melhores lembranças que tenho na vida com o bodyboard e o universo do surf em geral.

 

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Recordo-me de momentos gravados na memória. As primeiras caídas no mar ainda com pranchas de isopor, os primeiros bodyboards de plástico oco por dentro, longos verões na praia e as primeiras idas à Tramandaí de ônibus desde Porto Alegre e na companhia dos amigos.

 

Lembro bem do caminho pelo centro de POA até a rodoviária e algumas caminhadas no frio e chuva, nos invernos em Tramandaí. QG da galera era o apartamento do Roger e o point fora do mar era a laje do estacionamento, sempre com sol e protegida do vento no inverno.

 

Demitrio Fleck, Punta de Lobos, Chile. Foto: Mauricio Drumm.

E teve o momento que realmente decidi surfar. Detalhe é que era inverno e meu equipamento estava incompleto, faltava o long john. Depois de um drink forte, encarava a reamda e aguentava no máximo trinta minutos no mar.

 

Grande emoção era varar as ressacas de inverno, entrar colado da plataforma ou pelo meio dos pilares para chegar no outside. Esperar a maior onda possível e que certamente me levaria até a beira.

 

Muitas memórias ficaram desse tempo, embora algumas imagens na cabeça tenham se perdido, algumas foram eternizadas em fotos.

 

Tempo foi passando e o surf contaminou minha vida e a de muitos dos meus melhores amigos. As primeiras viagens a Santa Catarina abriram novos horizaontes para nós. Pequenos universos de alegria, ondas mais perfeitas, festas, novas gatas e tudo de bom que o surf traz. Momentos inesquecíveis mas as imagens ainda eram pouco registradas.

 

Um dia, dois grandes amigos decidiram ir para Austrália. Viver em um lugar diferente, aprender inglês, viajar para o país das ondas. Enfim, viver uma grande aventura e o momento não podia ser melhor.

 

Cansado da rotina e estressado com o início de faculdade nada fácil, a idéia pareceu a melhor solução para retomar a energia da vida. Reencontrar a grande paixão que o surf despertava em mim e também a expectativa de uma experiência sem destino definido.

 

A viagem teve quase uma intenção de fuga, um lugar qualquer para viver e me divertir por um tempo. Quando vi como era maravilhoso o lugar escolhido, percebi que uma grande porta havia aberto na minha vida e lembro que desde os primeiros dias conclui que a viagem seria algo muito maior do que tinha pensado.

 

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Hermano Castro entuba na praia Brava, Floripa (SC). Foto: Mauricio Drumm.

O momento era de atitude. Ser responsável para que meu novo mundo fosse bom para mim e me trouxesse tudo de bom enquanto estivesse por lá. A época era perfeita, um outono que bombou de ondas e trouxe a imagem do primeiro point break de verdade, tubular do início ao fim, raso como nunca havia surfado até então em um local amigável e receptivo.

 

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Um pequeno mundo perfeito se formou e tudo estava ali em uma praia há poucos metros de casa. Decidi surfar o máximo possível, pois meu tempo era contado, apenas três meses por pura falta de sorte com meu visto.

 

Meus amigos estavam tranqüilos com um visto que permitia maior permanência no país. Decidi acordar cedo e dormir tarde, conhecer

Punta de Lobos, Chile, lente do sonhador. Foto: Maurício Drumm.

todos os lugares possíveis, correr atrás de novas ondas sem importar-me com a distância. Conheci  muitos lugares, enquanto muitos desculpavam-se à si mesmos por estarem com preguiça de pegar um ônibus, ferry-boat e trem para ir surfar.

 

Não queriam acordar cedo e partir para conhecer um novo lugar, esperavam as ondas chegarem até eles.

Desde a primeira imagem que presenciei em uma praia diferente, o mais clássico que vi quebrar foi Dee Why Point.

 

Fotografar seria maneira de perpetuar aquelas imagens diante dos meus olhos, provar e exibir as aventuras até então somente vistas em revistas e vividas por outras pessoas. O que parecia distante estava agora ali na minha frente.

 

Muitas trips rolaram depois dessa, o significado de viajar tornou-se claro: buscar energia e perfeição de uma onda, interagir com a energia do movimento do mar, registrar toda beleza e cenários. Esses três meses transformaram-se em dois anos vividos no exterior, em diversos lugares, sempre com novos objetivos de vida, ondas e boas amizades por todos lugares que passei.

 

Surf faz parte da minha vida. Um  grande canal que mostra o mundo que vivo, as diversas culturas, da interação e ensinamentos que absorvi de todas as pessoas especiais que convivi e acrescentaram muito na minha vida e formação pessoal.

 

Mostrar a beleza do mar, da natureza e do esporte. Surfar nas ondas através da fotografia é uma forma de trazer para todos um pouco da beleza da vida. No mar encontro minha paz, vejo muitas das belezas do mundo, sinto a grande energia das ondas e vejo um sorriso naqueles que sabem absorver essa vibração positiva.

 

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