A melhor e a pior da vida.
Exatamente um ano após a morte de Mark Foo em Mavericks, Donnie Solomon, um jovem de apenas 23 anos de idade e promissor surfista profissional californiano, morreria em Waimea. Abalados pela notícia, surfistas ao redor do mundo queriam saber detalhes do que havia acontecido. Era como se um parente ou amigo próximo houvesse falecido, não importando se para a grande maioria o nome de Donnie fosse desconhecido até aquele momento.
Realmente ele ainda não havia conseguido obter nenhum resultado significativo em campeonatos nem muito destaque nas revistas, mas aqueles que conheciam seu surf o respeitavam por sua habilidade e dedicação. Freqüentador fissurado de Mavericks, Donnie já havia provado sua coragem em diversas ocasiões e aquele dia em Waimea, em 1995, estava sendo a realização de um sonho. As ondas entravam consistentes com séries de 20 pés e algumas um pouco maiores. Surfando na companhia de seus companheiros de equipe, amigos e ídolos, Kelly Slater e Ross Williams, ele usava uma Al Merrick 9 pés, um pouco fina e estreita para os padrões de Waimea, mas que não estava comprometendo em nada sua performance. Aliás, muito pelo contrário, já que segundo suas próprias palavras, direcionadas a Slater pouco antes de entrar a série que o mataria, ele havia acabado de surfar “a melhor onda da minha vida”. Dropando no crítico uma onda de 20 pés, com Kelly e Ross no rabo da mesma, sua prancha descolou da parede, ficou no ar por algumas frações de segundo antes de reconectar com a água para que, na seqüência, ele a dirigisse para uma cavada perfeita e uma trajetória segura quase até a areia.
Regressando ao outside, Donnie se dá conta que o mar está subindo e confidencia a seus amigos que não está se sentindo muito confortável e que talvez seja hora de sair. Mas não tem tempo para isso. Uma série de 25 pés aponta no horizonte e ele dá uma vacilada. Tenta ir na primeira, não consegue e, quando se vira para o outside novamente, se depara com mais três ondas e suas enormes massas d’água se projetando em direção ao céu à medida que encaixam na profunda bancada. Desesperado, rema com tudo em direção à primeira delas, tentando chegar ao lip antes que este se lance em direção à praia. Tarde demais, a única opção que lhe resta agora é furar a onda, tarefa praticamente impossível naquelas condições. Donnie e sua prancha voltam com a onda e são sugados em direção ao fundo do mar, sem ter como encher os pulmões de ar antes do caldo.
Preso debaixo d’água bem na zona de impacto, outras duas ondas quebram sobre ele e a última fecha a baía, virando o jet-ski do salva-vidas Terry Ahue, que patrulhava o line up e também foi pego de surpresa. Com todo mundo dentro e fora d’água prestando atenção no resgate do jet por um maluco que pula das pedras e o devolve a seu condutor, assim como no caso de Mark Foo um ano antes, ninguém se lembrou de procurar por Donnie. De novo no comando do jet-ski, Terry Ahue acelera para fazer o resgate do experiente ex-surfista profissional e jornalista especializado brasileiro Rosaldo Cavalcanti, que havia sido atingido pela mesma onda que engulira Donnie e perdido sua prancha. Como Rosaldo contaria depois em matéria publicada na FLUIR, por muito pouco ele não morreu também, sofrendo “o pior caldo da minha vida”.
Com Rosaldo e sua prancha devolvidos ao outside, é que finalmente Terry avista a prancha de Donnie boiando no lado esquerdo da baía. Ao se aproximar, ele percebe o corpo submerso. Nesse momento, o fotógrafo Hank, em outro jet-ski, também chega à cena e se atira na água para trazê-lo de volta à superfície. Reconduzido à praia, mas já com o ouvido e nariz sangrando, Donnie não reage aos esforços dos salva-vidas para ressuscitá-lo. Dias depois, ali mesmo em Waimea, seus amigos o homenageiam numa tocante cerimônia. George Stokes, presidente da ASP na época comenta em seu discurso as coincidências que ligam as mortes de Donnie Solomon e Mark Foo, e conclui emocionado: “Há uma mensagem especial nas duas tragédias. No nosso luto existe um sentimento de união e amor dos surfistas espalhados pelo planeta”.
