
Há alguns anos atrás, a prática do surfe era restrita a poucas pessoas se compararmos com a grande quantidade de surfistas que existem hoje dentro d’água.
Surfistas eram jovens e, diferentes da maioria, davam valor à liberdade e ao contato com a natureza.
Ser surfista e conseguir ser aceito nos meios formais da sociedade não era tarefa muito fácil, pois o preconceito era notório e os mesmos eram marginalizados – assim como os hippies e outras coletividades alternativas.
Assumir essa identidade, até mesmo para aqueles que não se enquadravam no estereótipo estabelecido pela sociedade, de pessoas irresponsáveis que não trabalhavam, que usavam drogas e que ficavam os dias inteiros na praia, era questão de puro idealismo.
Uma época remota, em que não se falava de profissionalismo, as competições engatinhavam e a indústria ligada ao surfe não rendia os milhões que vemos atualmente.
Com o passar dos anos, a indústria se desenvolveu, produzindo equipamentos e roupas cada dia mais especializados com novas tecnologias. Apareceram os grandes campeonatos, a mídia e a inevitável popularização.
O surfe saiu da condição de esporte marginalizado e mergulhou de cabeça no seleto grupo dos esportes que movimentam muito dinheiro. Acostumada com a cultura de valorizar a aparição em mídia de massa e organização dos grandes eventos, a sociedade se rendeu ao chamado “esporte dos reis”.
Os surfistas passaram de jovens caixeiros viajantes a profissionais, com salário para surfar o mundo e disputar competições nacionais e internacionais.
O surfe passou a ser também uma profissão.
Em tempos de utilização de grandes espetáculos esportivos como ferramentas de manobra social, o surfe transformou-se definitivamente num esporte institucionalizado, regido e comandado por federações e pela indústria, que passaram a dar às cartas, comercializando a imagem do estilo de vida do surfista e alimentando os sonhos e fantasias dos jovens po intermédio de campanhas publicitárias nas páginas das revistas especializadas.
Assim como no futebol, deixou-se de lado a filosofia e a paixão em função do dinheiro.
Aquela imagem do surfe praticado sem compromisso, sem a preocupação de retorno para patrocinadores, um surfe digamos, à moda antiga, foi dando lugar ao esporte profissionalizado. Mais uma vez o mundo das competições esportivas, do esporte rendimento engole o esporte lúdico, no caso, o freesurf.
Não que só existam aspectos negativos nessa nova fase, mas poderíamos crescer de forma mais ordenada, onde valores primordiais não fossem alterados em função do capital – como acontece com os outros esportes de forte mídia.
Pensando no lado positivo de todo esse crescimento econômico do surfe, é muito legal poder trabalhar para o esporte e ter retorno financeiro, sem isso os profissionais do mesmo não poderiam se dedicar integralmente, seria necessário uma outra atividade profissional para viver.

E onde entra o bodyboarding nesse contexto? Vocês devem estar perguntando. O fato é que somos um esporte bastante jovem, nascido como mais uma forma de praticar o surfe. É natural a grande influência que sofremos.
Herdamos do surfe muitas coisas, dentre elas, a forma de organização de competições, os valores necessários para o reconhecimento social e para a tão sonhada profissionalização.
Na verdade, o que difere esses esportes é o fato de que em um surfa-se de pé e em outro, deitado. Já dizia o dicionário Aurélio em suas páginas da língua portuguesa: Surfar é o ato de deslizar sobre as ondas… não importa como ou com o quê!
Analisando sob a ótica da instituição, somos diferentes, possuímos identidade, regras, e organização própria, porém o que movimenta ambos é a paixão pelas ondas e pela natureza, essa é nossa filosofia e nisso o bodyboarding e o surfe são exatamente iguais.
É muito comum vermos pessoas brigando por questões irrelevantes como as muitas discussões entre surfistas e bodyboarders pelo título de melhorzão. As ironias com os que optam por não surfar ondas grandes, a valorização do homem em função da sua imagem e representatividade no cenário esportivo.
Atitudes machistas e insensíveis que vão contra o real espírito do bodyboarding e do surfe. Muito distantes do sentimento daqueles resistentes que ainda vêem os mesmos como filosofia de vida, por muitos esquecida e que considero a maior riqueza que adquirimos através dessas práticas esportivas.
Na verdade, a filosofia de vida é a grande responsável por transformá-los numa grande atividade de lazer, de integração, agregação social e cultural.
Precisamos crescer e amadurecer nossos conceitos, não importa se surfista ou bodyboarder, estamos juntos envolvidos nesse sistema excludente que só reconhece os mais habilidosos e que não valoriza a prática esportiva como uma forma de expressão do corpo e da mente, como uma grande ferramenta de educação.
Não precisamos entrar nesse jogo de vaidades em excesso que a competição nos incita. Não vamos fazer da vontade ou da glória de ser campeão, a nossa maior motivação.
Nos dizem desde pequenos que a vida é uma grande competição e que só vencem os melhores. Pensamentos enraizados em nossa cultura que nos fazem muito mal, nos fazem perder o espírito de coletividade, de amizade, fraternidade e companheirismo.
Lutamos tanto pelo nosso sucesso que esquecemos do próximo e daquela frase que diz “que o sol nasce para todos…”.

É necessário uma maior preocupação com nossa linha de conduta, com o nosso desenvolvimento maturacional. Só assim podemos brigar pela conservação das raízes e dos bons valores, sendo que nesse aspecto, assim como em muitos outros, não há separação entre surfe e bodyboarding. É de todos essa responsabilidade, independentemente do cargo ou título que possui, dos atletas, árbitros, professores, federações etc.
Não de extinguir a competição, mas torná-la mais humana, acabando com as explorações e exclusões tão comuns e freqüentes na nossa sociedade.
Entender que o valor maior do esporte não está na competição, nem no espetáculo. O valor maior do esporte está nos sentimentos como os que nos fazem ser tão disciplinados a ponto de acordar às cinco da matina, sem levar em conta a idade, o condicionamento físico e a qualidade das manobras executadas.
De viajar milhares de quilômetros pela simples satisfação de percorrer paredes de ondas perfeitas, de apreciar a natureza e culturas que muitas vezes não são valorizadas pelo mundo, mas que para nós, surfistas e bodyboarders, têm muito valor.
Fiquem com esse ditado da sabedoria popular, do pó viemos, ao pó voltaremos, ou seja, do freesurf viemos, ao freesurf voltaremos.
Aloha!