Do Ceará para o Guarujá

Muitas pessoas sabem que os Estados do Rio de Janeiro e São Paulo estão repletos de surfistas nordestinos que migram para o Sudeste em busca de um lugar ao sol no concorrido mundo do surf.

 

Porém, nem todos estão por dentro das diversas roubadas que esses atletas encaram a cada dia longe de suas famílias.

 

O cearense Felipe Martins, 19 anos, também conhecido como “North Shore”, 

é um destes nordestinos que batalham arduamente para atingir a glória e o sucesso na difícil carreira de surfista profissional. 

 

 

Felipe obteve diversos resultados expressivos no Nordeste quando era amador, como os títulos nordestinos nas categorias Grommets e Iniciantes, além de ser várias vezes vice-campeão cearense nas categorias Grommets e Mirim.

 

Saiu de Fortaleza aos 15 anos para tentar a sorte no Guarujá. “As condições são muito precárias no Ceará, tanto para conseguir um patrocínio, como para disputar grandes campeonatos”, alega Felipe.

 

Em 2003, o atleta disputou o Circuito Brasileiro Amador pela equipe de São Paulo e fez uma belíssima campanha, terminando em quarto lugar no ranking da categoria Open.

 

Na última etapa, realizada em Olivença, Ilhéus (BA), “North Shore” quebrou tudo e conquistou o título Open com direito até a uma nota 10 unânime, fruto de uma direita dilacerada com fortes pauladas de backside.

 

Ainda como amador, o atleta obteve o vice-campeonato guarujaense na categoria Mirim e ficou em quarto lugar no Circuito Hang Loose Paulista Mirim e Júnior.

A seqüência de bons resultados rendeu duas viagens internacionais ao cearense. No início de 2003, curtiu sua primeira temporada havaiana, e no final do ano passou o ano novo no Peru, onde participou de uma matéria para a revista Venice.

 

Com o objetivo de entrar no SuperSurf, “North Shore” tornou-se profissional em 2004 para participar das etapas do Brasil Tour e da Seletiva Petrobras.  

 

Para bancar as inúmeras despesas com as viagens, o cearense contava com o co-patrocínio da Reef e a ajuda dos amigos. As pranchas do atleta são feitas por Joca Secco.

 

No primeiro ano como profissional, Felipe não conseguiu entrar no SuperSurf, finalizando a temporada em 66o lugar na divisão de acesso do circuito brasileiro.

 

Porém, o atleta deu importantes passos rumo à elite nacional. Em vez de estrear logo nas duas primeiras rodadas, como aconteceu em 2004, Felipe terá o privilégio de entrar em ação mais à frente no circuito deste ano.

 

 

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Não bastassem as inúmeras dificuldades que enfrentava para descolar grana e disputar as competições, Felipe recebeu mais uma triste notícia ao final do ano. 

 

A Reef não manifestou interesse em renovar seu contrato, o que deixou o atleta numa situação ainda mais delicada.

 

Amizades – A ajuda dos amigos sempre foi uma fonte de motivação na carreira de Felipe Martins. “Eles que não me deixaram desistir do surf”, revela o atleta.

 

Logo no começo de 2004, Felipe estava sem grana para ir aos campeonatos.

 

 

Para disputar o Hang Loose Pro Contest, etapa do WQS realizada em Fernando de Noronha, o atleta contou com a força dos amigos Dennis Tihara e Adilton Mariano, que participaram de uma trip com ele ao Peru, e do cearense Júnior, que sempre lhe deu muita força.

 

Em seguida, Felipe recebeu uma grana emprestada de Adilton Mariano para viajar a Torres, onde rolou o Reef Brazil Classic, outra etapa do WQS.

 

“Fui meio desanimado, pois havia quebrado todas as minhas pranchas em Noronha. Peguei uma emprestada do Dennis Tihara e outra do Adilton, para ver com qual eu me adaptava melhor. Porém, acabei me dando melhor com uma do Heitor Alves e corri o campeonato com ela”, conta Felipe.

 

“Consegui passar várias baterias com essa prancha shapeada pelo Simon, e graças a Deus cheguei até a fase do dinheiro. Pude pagar tudo o que devia ao Adilton e ao Dennis, que vinham me bancando”, lembra o atleta.

 

Foi assim até o resto do ano, sempre contando com a ajuda dos parceiros. Em Florianópolis, Felipe conheceu alguns evangélicos e recebeu uma “guarita” para ficar hospedado durante as competições que disputou na capital catarinense. 

 

“Eles foram fantásticos. Não posso deixar de citar o Paulinho, da igreja, que foi um irmão de verdade e deu o maior apoio lá em Floripa”, comenta.

 

Outra pessoa que sempre dá uma força ao cearense é o atleta Heitor Pereira, que pagou US$ 180 pela inscrição de Felipe no Onbongo Pro Surfing, etapa de nível 6 estrelas do WQS realizada em Floripa.

 

“Estava sem dinheiro e falei que não correria a etapa. Ele estava nas Ilhas Canárias e disse que era pra eu ir e que ele pagava a minha inscrição”, conta. “O incentivo dos amigos me dá um levante e faz com que eu queira me esforçar cada vez mais”, fala Felipe.

 

 

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Na segunda e última etapa do Billabong Pro Junior, seletiva sul-americana do mundial Pro Junior, Felipe Martins foi ajudado por Dennis Tihara para participar do evento na praia de Camburi, em São Sebastião.

 

“Meus parceiros me dão muita força e nunca me deixaram na mão quando precisei. Um dia, com fé em Deus, poderei retribuir tudo em dobro”, diz o atleta. 

 

Preconceito – Apesar de estar há três anos no Guarujá e de já ter representado a equipe paulista no circuito brasileiro amador, Felipe Martins ainda encontra algumas barreiras pela frente.

“Algumas pessoas dizem que por eu não ser paulista não tenho direito de ser top no circuito profissional. Porém, esquecem que estou filiado à Federação Paulista e inclusive já defendi a bandeira de São Paulo no brasileiro amador”, conta o atleta.

 

O atleta conseguiu, pelo segundo ano consecutivo, terminar o circuito paulista profissional entre os 16 melhores do ranking.

 

Na segunda etapa do paulista 2004, Felipe tinha direito de correr entre os principais cabeças-de-chave, mas não deixaram. O problema só foi resolvido na competição seguinte.

 

Roubadas – O cearense divide uma casa no Guarujá com mais dois amigos – o também surfista profissional Ernesto Nunes e o missionário Cisso. O “arrego” foi dado por uma igreja uma igreja de São Paulo, que alugou a casa para promover reuniões dos Surfistas de Cristo.

 

“Morar longe de casa é sempre uma imensa dificuldade, porque você tem que se
virar. E sem patrocinio é ainda pior. Mas, fazer o quê se eu escolhi essa
profissão e nasci em um Estado que não me proporcionou os itens adequados que um surfista precisa?”, reflete Felipe. 

 

“Vim para São Paulo, que é o centro, mas venho passando roubadas atrás de roubadas. Tenho que batalhar o alimento de todos os dias. Tem dias que é meio punk pra fazer o racha do almoço, mas a gente vai levando com o fornecer de Deus”, revela. 

 

A cada dia o atleta enfrenta algumas roubadas em relação à alimentação e falta de dinheiro para bancar as despesas em casa e nos campeonatos. “Com a falta de patrô, vira aquela correria arranjar dinheiro aqui e ali”, diz o atleta.

“Uma das piores roubadas que eu venho passando no momento é a de não ter ido viajar e nem mesmo ter ido pra minha casa no Ceará rever minha familia. Agora em janeiro já faz um ano que eu não vou em casa e isso pra mim é uma dificuldade. Mas, beleza, a gente vai levando”, conta Felipe. 

 

Confira galeria de fotos de Felipe Martins

 

 

 

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