Depois de atuações marcantes nas duas primeiras etapas do WCT 2013, com a décima terceira colocação em Snapper Rocks e um expressivo quinto lugar em Bells Beach, arrancando elogios dos principais especialistas do esporte, Filipe Toledo foi apontado pelos internautas da FLUIR como o provável melhor estreante desta temporada no Tour em enquete publicada no mês de março em nosso site.
Aproveitando o bom momento vivido pelo garoto de Ubatuba, que completa 18 anos de idade nesta terça-feira, 16 de abril, republicamos abaixo o perfil do surfista publicado na edição de novembro passado da revista FLUIR. Na ocasião, fomos até a casa da família Toledo, no litoral norte de São Paulo, para saber um pouco mais sobre os ingredientes que moldaram mais um jovem talento do surf brasileiro. Após uma temporada avassaladora no circuito de acesso do ano passado, o ubatubense Filipe Toledo colocou seu nome entre os grandes na elite do surf mundial.
Por Lucas Conejero
São 5 horas de uma tarde de setembro quente e úmida em Ubatuba. A chuva do início das monções, tradicional no litoral norte de São Paulo, cai implacável no para-brisa do “golzinho bola” do fotógrafo local Renato Boulos enquanto ele reclama da baixa velocidade imposta pelos novos radares instalados no trecho da rodovia Rio-Santos, que corta a região central do município. Nosso destino é a casa de Ricardo Toledo, “seu cumpadre”, como faz questão de destacar.
Professor de Educação Física e lenda viva do surf nacional, o bicampeão brasileiro (1991 e 1995) de 44 anos é o patriarca de uma família de três jovens surfistas profissionais: Matheus, 21, Filipe, 17, e David, 13. O objetivo da visita é bater um papo com a família, sobretudo com Filipe, o filho do meio. Principal expoente do clã e integrante do seleto grupo de surfistas batizado pela mídia estrangeira de “Brazilian Storm”, o garoto está classificado para a elite do World Tour de 2013.
Durante as cerca de três horas de conversa, quase todos os integrantes da família sentaram-se à grande mesa de madeira da varanda, onde a Mari, simpática anfitriã e esposa de Ricardo, nos serviu um farto café da tarde. Até mesmo a pequena Sofia (caçula do casal), 12 anos, parou para um lanche leve antes da sua aula de ginástica. Matheus, em Florianópolis, foi a exceção. Para compensar, Tchuca e Cleiton Nunes – dois excelentes atletas ubatubenses de gerações distintas – por sorte estavam na área para um treino funcional em grupo e participaram do encontro como coadjuvantes.
O bom humor se fez presente o tempo todo e falou-se muito, de muita coisa diferente: o surf em Ubatuba, a história da família, as lembranças e trips dos tempos idos, as performances arrasadoras de Filipinho, sua classificação para o WCT, ASP, formato do circuito, futebol e até mesmo de política. Candidato a vereador na cidade, Ricardinho não obteve a quantidade necessária de votos no pleito do último mês de outubro para garantir uma das dez cadeiras da Câmara Municipal.
Localizada em um condomínio de ruas bucólicas dentro do Parque Estadual da Serra do Mar, a casa dos Toledo e a própria família respiram surf há décadas. Ricardo se encaixa na genial definição do articulista da FLUIR Lewis Samuels sobre a geração que via o surf como um ato de bravura, não um projeto de arte. O bicampeão brasileiro gosta dessas memórias: “Sou da época em que se usava 7’4” rabeta stinger swallow, monoquilha, com o buraco para prender a cordinha feito com furadeira”. Barcas em família e campeonatos de surf existem na vida deles desde sempre – e pelo jeito vão existir para sempre. “Alguns meses atrás, passamos três semanas acampados em um pico secreto próximo daqui. A família inteira foi na trip. É uma tradição. Pegamos boas ondas e curtimos momentos incríveis”, relata Ricardinho, fazendo questão de mostrar que mantém viva a essência do esporte e que tem o privilégio de compartilhá-la com a família.
“Quando eles eram bem pequenos e o Ricardinho ainda competia, levávamos os meninos para os campeonatos. O carrinho de bebê ia no teto do carro junto com as pranchas. Por sinal, o Ricardo era atleta na mesma época em que o Wagner Pupo e muitas vezes encontramos os Pupo na mesma situação. Legal é que veremos dois dos nossos filhos nas baterias do WCT no ano que vem”, comenta Mari.
Em 1991, ano do primeiro título brasileiro de Ricardo, Wagner era um dos Top 30 do Circuito Nacional. Em 1995, quando Ricardinho faturou o bicampeonato e já era um atleta reconhecido, Pupo finalizou o ranking como Top 5 da Abrasp. Entre uma brincadeira e outra, com seu jeito de falar e irreverência marcantes, Toledo conta que descobriu a paixão pelo mar e aprendeu a segurar o fôlego enquanto submergia abraçado no pescoço do pai, um mergulhador veterano da região e precursor das academias em Ubatuba. Com o orgulho compartilhado pelos filhos, afirma que colocou todos em cima da prancha antes do primeiro ano de vida, inclusive a caçula, Sofia. Mas faltou um pouco de orgulho quando confessou que não nasceu em Ubatuba. Ricardo nasceu em Taubaté, cidade do interior paulista distante 90 quilômetros acima da Serra do Mar. Mas ele faz questão de explicar, em meio a risadas e à zoação da própria família: “Se hoje ainda é ruim, imagina como era o hospital daqui naquela época? Minha mãe preferiu subir a serra para fazer o parto. Cheguei na cidade com poucas semanas de vida”, pondera o legend.
“A gente nasceu, cresceu e aprendeu a surfar no Baguari (canto esquerdo da praia Grande de Ubatuba). Aquela direitinha que vai em direção ao canal, sabe?”, explica David, que dá os primeiros passos na carreira nas baterias do Circuito Paulista Amador, celeiro de atletas como Adriano de Souza, Gabriel Medina, Miguel Pupo e, claro, do próprio Filipe.
Formado em Educação Física pelas Faculdades Integradas Módulo e adepto da implantação da pedagogia no esporte, Ricardo treina os filhos desde pequenos e quase sempre está presente na areia enquanto os garotos disputam as baterias. “Fiz a mesma coisa com todos eles e sei que os três têm condições de competir. Mas, no Filipe, desde as primeiras vezes que o vi surfar, percebi uma capacidade de leitura de onda muito superior. E não só em relação ao Matheus e ao David, como também em relação a todos os outros atletas na água”, confessa o pai e técnico.
“Como surfista e competidor, ele é e sempre será minha principal referência. Portanto, a presença do meu pai nos eventos não me incomoda, pelo contrário, ajuda bastante. Ao mesmo tempo, passa muita confiança saber que está na areia e procuro prestar atenção para seguir as instruções”, manda Filipinho depois de questionado sobre ter o pai como técnico. “Mas eu não peso, não. Principalmente antes das baterias. Falo pouco. Faço questão de deixar ele à vontade”, emenda o pai.
Sempre atento aos detalhes, Ricardo aproveita a ocasião para fazer uma análise referente à subjetividade no julgamento de esportes como o surf e afirma que atualmente o critério varia muito de campeonato para campeonato. “O surf evoluiu bastante desde os meus tempos de competidor e o critério de julgamento atual é extremamente dinâmico. Às vezes, muda durante uma bateria. Tem que ficar atento com isso hoje em dia”, avalia o experiente ex-competidor.
Em certo momento a conversa chega no ranking unificado da ASP e a mesa é unânime em exaltar ainda mais a entrada de Filipe na elite. Até mesmo Tchuca e Cleiton deixam de saborear seus respectivos “sanduíches de geleia com queijo” e se manifestam, mesmo que de forma discreta.
Ricardinho então toma a palavra, critica com argumentos contundentes o novo modelo e discorre uma longa análise sobre as dificuldades encontradas por um atleta em começo de carreira, ranqueado no “rodapé da lista” da ASP. Para ele, é claro que só mesmo uma temporada ímpar colocaria Filipinho – ou qualquer outro atleta em sua posição – entre os Tops. Não seria fácil, mas era possível. Com amplo suporte da família, um excelente patrocinador e talento de sobra, o “fora de série” Filipinho não hesitou, foi à luta e conquistou seu espaço do jeito mais difícil.
Fenômeno precoce
Filipinho começou a chamar a atenção do mundo depois de faturar, em maio de 2011, a categoria Sub-16 do ISA World Junior no Peru. Mas, desde a vitória incontestável na categoria Pro Junior do US Open, em agosto do mesmo ano, o jovem paulista arranca elogios e coleciona admiradores pelos países que passa. Na ocasião, ele derrotou na final ninguém menos que o havaiano John John Florence, atual Top 5 do ranking do WCT, e os badalados norte-americanos Kolohe Andino e Conner Coffin.
No fim do evento, havia uma legião de gringos boquiabertos com suas performances impecáveis, repletas de aéreos insanos e manobras de linha muito bem executadas. “Via o John John, o Coffin etc. nos vídeos. Admirava o surf dos caras e ganhei deles na final em Huntington. Fiquei meio abismado, e muito feliz”, recorda com um tremendo sorriso no rosto.
Quem costuma acompanhar as mídias estrangeiras de surf viu que, à época, o conceituado site Surfline narrou o fato – mais ou menos – da seguinte forma: “A final da categoria Junior foi animal. Kolohe Andino, John John Florence, Conner Coffin e o desconhecido Filipe Toledo, de apenas 16 anos, duelaram pelo caneco. Como campeonato de surf não é concurso de popularidade, ser conhecido não fez diferença e ganhou aquele que surfou melhor”. A verdade era essa mesmo. Filipinho quebrou no lendário beach break norte-americano em todas as baterias que disputou e escovou alguns dos principais nomes da nova geração do surf mundial, que provavelmente nem sonhavam quem ele era. Os relatos são de atletas e juízes incrédulos durante e depois das baterias.
Quando a sirene da final tocou, o ubatubense foi carregado até o palanque nos ombros dos conterrâneos presentes. Com a bandeira do Brasil nas mãos, recebeu os aplausos de milhares de pessoas. Além de um recente patrocínio forte no bico da prancha, de um cheque gordo e de reconhecimento mundial, Filipe ganhou moral, muita moral.
Temporada 2012
Este ano Filipinho deixou de lado os eventos de âmbito nacional e resolveu ir buscar na unha uma vaga no WCT. Bastava tê-lo visto surfar em um dos inúmeros campeonatos conquistados nos últimos anos – amadores e profissionais – para imaginar que o resultado não seria diferente. Até quando não ia bem (o que raramente acontecia), ele chamava a atenção.
Sua carreira teve uma ascensão meteórica até entrar na briga por um espaço na elite do surf mundial. O garoto começou a competir ainda criança, e foi campeão paulista amador em todas as categorias do circuito (Petit, Estreante, Mirim e Júnior). Entre os muitos troféus na estante do quarto, destaque para o do circuito Rip Curl Grom Search, o do campeonato brasileiro da categoria Junior e o da categoria Sub-16 do ISA World Junior – sem falar no já citado título Pro Junior do US Open.
Um bom exemplo de desempenho memorável neste ano foi no primeiro evento da perna europeia do ASP World Star, no começo do mês de agosto na Inglaterra. Na friaca de Fistral Beach, Newquay, o mais expressivo “trickster” do Baguari sobrevoou o point e, apesar de não faturar o caneco da etapa, impressionou novamente os juízes e a crítica especializada ao acertar várias decolagens durante as baterias, muitas com rotações completas e irretocáveis. Detentor de todos os recordes e da única nota 10 da etapa, o moleque somou incríveis 19,57 pontos na quinta fase do evento.
Com estilo de surf moderno, além de um amplo repertório de aéreos, o ubatubense manteve a regularidade durante a temporada e, segundo a ASP, atingiu o número de pontos necessário para correr o “circuito dos sonhos” antes de completar a maioridade ao sagrar-se campeão do Sooruz Lacanau Pro, evento de nível 5 estrelas da divisão de acesso que rolou na França, também no último mês de agosto.
Para Ricardinho, o sangue de competidor do filho sempre falou alto e o garoto admite a paixão pelos campeonatos.“O Matheus, apesar de excelente competidor, não gosta tanto de campeonatos. Já eu sou fissurado desde pequeno. Fui vice-campeão paulista amador da categoria Petit aos 6 anos de idade”, diz Filipe com a simplicidade comum dos ídolos que ainda não sabem que são ídolos.
Ainda de acordo com Ricardo, Filipe conta com uma incrível capacidade de arriscar com segurança e usar a estratégia certa em momentos decisivos das baterias. “A maior virtude dele este ano foi não se sentir intimidado diante de adversários renomados. Comecei a acreditar mesmo quando ele entrou à vontade para disputar baterias contra caras muito mais experientes do que ele, surfou bem e venceu”, comenta o pai.
Quando questionado como seria correr uma bateria contra seus ídolos em Teahupoo ou Pipeline, Filipe recorre ao lugar-comum, embora seja incomum ver um moleque de 17 anos responder com extrema simplicidade: “Brother, fico imaginando como deve ser dividir o line-up de Pipeline só com mais um cara. Isso durante um Pipe Masters. É nisso que eu penso hoje em dia”.
Em 2013 o Brasil terá mais um candidato ao primeiro título mundial de surf de sua história. Competidor nato, o garoto tem atitude, humildade e surf de sobra. Assim como o pai, quebra na vala e bota pra baixo – sem medo – quando o mar sobe. Diferente do pai, conta com um patrocínio sólido e uma superestrutura de preparação física e psicológica. Do mar vem a sua cultura e o sustento da sua família. Ele tem um nome a zelar, a bandeira da sua cidade para defender e parece saber disso. Mas surfa com naturalidade, sem pressão. É bom os Tops ficarem espertos, o moleque não está no Circuito a passeio.







