DNA de campeão

DNA de campeão

Depois de atuações marcantes nas duas primeiras etapas do WCT 2013, com a décima terceira colocação em Snapper Rocks e um expressivo quinto lugar em Bells Beach, arrancando elogios dos principais especialistas do esporte, Filipe Toledo foi apontado pelos internautas da FLUIR como o provável melhor estreante desta temporada no Tour em enquete publicada no mês de março em nosso site.
Aproveitando o bom momento vivido pelo garoto de Ubatuba, que completa 18 anos de idade nesta terça-feira, 16 de abril, republicamos abaixo o perfil do surfista publicado na edição de novembro passado da revista FLUIR. Na ocasião, fomos até a casa da família Toledo, no litoral norte de São Paulo, para saber um pouco mais sobre os ingredientes que moldaram mais um jovem talento do surf brasileiro. Após uma temporada avassaladora no circuito de acesso do ano passado, o ubatubense Filipe Toledo colocou seu nome entre os grandes na elite do surf mundial. 

Por Lucas Conejero 

São 5 horas de uma tarde de setembro quente e úmida em Ubatuba. A chuva do início das monções, tradicional no litoral norte de São Paulo, cai implacável no para-brisa do “golzinho bola” do fotógrafo local Renato Boulos enquanto ele reclama da baixa velocidade imposta pelos novos radares instalados no trecho da rodovia Rio-Santos, que corta a região central do município. Nosso destino é a casa de Ricardo Toledo, “seu cumpadre”, como faz questão de destacar.

Professor de Educação Física e lenda viva do surf nacional, o bicampeão brasileiro (1991 e 1995) de 44 anos é o patriarca de uma família de três jovens surfistas profissionais: Matheus, 21, Filipe, 17, e David, 13. O objetivo da visita é bater um papo com a família, sobretudo com Filipe, o filho do meio. Principal expoente do clã e integrante do seleto grupo de surfistas batizado pela mídia estrangeira de “Brazilian Storm”, o garoto está classificado para a elite do World Tour de 2013.

Durante as cerca de três horas de conversa, quase todos os integrantes da família sentaram-se à grande mesa de madeira da varanda, onde a Mari, simpática anfitriã e esposa de Ricardo, nos serviu um farto café da tarde. Até mesmo a pequena Sofia (caçula do casal), 12 anos, parou para um lanche leve antes da sua aula de ginástica. Matheus, em Florianópolis, foi a exceção. Para compensar, Tchuca e Cleiton Nunes – dois excelentes atletas ubatubenses de gerações distintas – por sorte estavam na área para um treino funcional em grupo e participaram do encontro como coadjuvantes.

O bom humor se fez presente o tempo todo e falou-se muito, de muita coisa diferente: o surf em Ubatuba, a história da família, as lembranças e trips dos tempos idos, as performances arrasadoras de Filipinho, sua classificação para o WCT, ASP, formato do circuito, futebol e até mesmo de política. Candidato a vereador na cidade, Ricardinho não obteve a quantidade necessária de votos no pleito do último mês de outubro para garantir uma das dez cadeiras da Câmara Municipal.

Localizada em um condomínio de ruas bucólicas dentro do Parque Estadual da Serra do Mar, a casa dos Toledo e a própria família respiram surf há décadas. Ricardo se encaixa na genial definição do articulista da FLUIR Lewis Samuels sobre a geração que via o surf como um ato de bravura, não um projeto de arte. O bicampeão brasileiro gosta dessas memórias: “Sou da época em que se usava 7’4” rabeta stinger swallow, monoquilha, com o buraco para prender a cordinha feito com furadeira”. Barcas em família e campeonatos de surf existem na vida deles desde sempre – e pelo jeito vão existir para sempre. “Alguns meses atrás, passamos três semanas acampados em um pico secreto próximo daqui. A família inteira foi na trip. É uma tradição. Pegamos boas ondas e curtimos momentos incríveis”, relata Ricardinho, fazendo questão de mostrar que mantém viva a essência do esporte e que tem o privilégio de compartilhá-la com a família.

“Quando eles eram bem pequenos e o Ricardinho ainda competia, levávamos os meninos para os campeonatos. O carrinho de bebê ia no teto do carro junto com as pranchas. Por sinal, o Ricardo era atleta na mesma época em que o Wagner Pupo e muitas vezes encontramos os Pupo na mesma situação. Legal é que veremos dois dos nossos filhos nas baterias do WCT no ano que vem”, comenta Mari.

Em 1991, ano do primeiro título brasileiro de Ricardo, Wagner era um dos Top 30 do Circuito Nacional. Em 1995, quando Ricardinho faturou o bicampeonato e já era um atleta reconhecido, Pupo finalizou o ranking como Top 5 da Abrasp. Entre uma brincadeira e outra, com seu jeito de falar e irreverência marcantes, Toledo conta que descobriu a paixão pelo mar e aprendeu a segurar o fôlego enquanto submergia abraçado no pescoço do pai, um mergulhador veterano da região e precursor das academias em Ubatuba. Com o orgulho compartilhado pelos filhos, afirma que colocou todos em cima da prancha antes do primeiro ano de vida, inclusive a caçula, Sofia. Mas faltou um pouco de orgulho quando confessou que não nasceu em Ubatuba. Ricardo nasceu em Taubaté, cidade do interior paulista distante 90 quilômetros acima da Serra do Mar. Mas ele faz questão de explicar, em meio a risadas e à zoação da própria família: “Se hoje ainda é ruim, imagina como era o hospital daqui naquela época? Minha mãe preferiu subir a serra para fazer o parto. Cheguei na cidade com poucas semanas de vida”, pondera o legend. 

“A gente nasceu, cresceu e aprendeu a surfar no Baguari (canto esquerdo da praia Grande de Ubatuba). Aquela direitinha que vai em direção ao canal, sabe?”, explica David, que dá os primeiros passos na carreira nas baterias do Circuito Paulista Amador, celeiro de atletas como Adriano de Souza, Gabriel Medina, Miguel Pupo e, claro, do próprio Filipe.

Formado em Educação Física pelas Faculdades Integradas Módulo e adepto da implantação da pedagogia no esporte, Ricardo treina os filhos desde pequenos e quase sempre está presente na areia enquanto os garotos disputam as baterias. “Fiz a mesma coisa com todos eles e sei que os três têm condições de competir. Mas, no Filipe, desde as primeiras vezes que o vi surfar, percebi uma capacidade de leitura de onda muito superior. E não só em relação ao Matheus e ao David, como também em relação a todos os outros atletas na água”, confessa o pai e técnico.

“Como surfista e competidor, ele é e sempre será minha principal referência. Portanto, a presença do meu pai nos eventos não me incomoda, pelo contrário, ajuda bastante. Ao mesmo tempo, passa muita confiança saber que está na areia e procuro prestar atenção para seguir as instruções”, manda Filipinho depois de questionado sobre ter o pai como técnico. “Mas eu não peso, não. Principalmente antes das baterias. Falo pouco. Faço questão de deixar ele à vontade”, emenda o pai.

Sempre atento aos detalhes, Ricardo aproveita a ocasião para fazer uma análise referente à subjetividade no julgamento de esportes como o surf e afirma que atualmente o critério varia muito de campeonato para campeonato. “O surf evoluiu bastante desde os meus tempos de competidor e o critério de julgamento atual é extremamente dinâmico. Às vezes, muda durante uma bateria. Tem que ficar atento com isso hoje em dia”, avalia o experiente ex-competidor.

Em certo momento a conversa chega no ranking unificado da ASP e a mesa é unânime em exaltar ainda mais a entrada de Filipe na elite. Até mesmo Tchuca e Cleiton deixam de saborear seus respectivos “sanduíches de geleia com queijo” e se manifestam, mesmo que de forma discreta.

Ricardinho então toma a palavra, critica com argumentos contundentes o novo modelo e discorre uma longa análise sobre as dificuldades encontradas por um atleta em começo de carreira, ranqueado no “rodapé da lista” da ASP. Para ele, é claro que só mesmo uma temporada ímpar colocaria Filipinho – ou qualquer outro atleta em sua posição – entre os Tops. Não seria fácil, mas era possível. Com amplo suporte da família, um excelente patrocinador e talento de sobra, o “fora de série” Filipinho não hesitou, foi à luta e conquistou seu espaço do jeito mais difícil. 

Fenômeno precoce 

Filipinho começou a chamar a atenção do mundo depois de faturar, em maio de 2011, a categoria Sub-16 do ISA World Junior no Peru. Mas, desde a vitória incontestável na categoria Pro Junior do US Open, em agosto do mesmo ano, o jovem paulista arranca elogios e coleciona admiradores pelos países que passa. Na ocasião, ele derrotou na final ninguém menos que o havaiano John John Florence, atual Top 5 do ranking do WCT, e os badalados norte-americanos Kolohe Andino e Conner Coffin.

No fim do evento, havia uma legião de gringos boquiabertos com suas performances impecáveis, repletas de aéreos insanos e manobras de linha muito bem executadas. “Via o John John, o Coffin etc. nos vídeos. Admirava o surf dos caras e ganhei deles na final em Huntington. Fiquei meio abismado, e muito feliz”, recorda com um tremendo sorriso no rosto.  

Quem costuma acompanhar as mídias estrangeiras de surf viu que, à época, o conceituado site Surfline narrou o fato – mais ou menos – da seguinte forma: “A final da categoria Junior foi animal. Kolohe Andino, John John Florence, Conner Coffin e o desconhecido Filipe Toledo, de apenas 16 anos, duelaram pelo caneco. Como campeonato de surf não é concurso de popularidade, ser conhecido não fez diferença e ganhou aquele que surfou melhor”. A verdade era essa mesmo. Filipinho quebrou no lendário beach break norte-americano em todas as baterias que disputou e escovou alguns dos principais nomes da nova geração do surf mundial, que provavelmente nem sonhavam quem ele era. Os relatos são de atletas e juízes incrédulos durante e depois das baterias.

Quando a sirene da final tocou, o ubatubense foi carregado até o palanque nos ombros dos conterrâneos presentes. Com a bandeira do Brasil nas mãos, recebeu os aplausos de milhares de pessoas. Além de um recente patrocínio forte no bico da prancha, de um cheque gordo e de reconhecimento mundial, Filipe ganhou moral, muita moral. 

Temporada 2012

Este ano Filipinho deixou de lado os eventos de âmbito nacional e resolveu ir buscar na unha uma vaga no WCT. Bastava tê-lo visto surfar em um dos inúmeros campeonatos conquistados nos últimos anos – amadores e profissionais – para imaginar que o resultado não seria diferente. Até quando não ia bem (o que raramente acontecia), ele chamava a atenção.

Sua carreira teve uma ascensão meteórica até entrar na briga por um espaço na elite do surf mundial. O garoto começou a competir ainda criança, e foi campeão paulista amador em todas as categorias do circuito (Petit, Estreante, Mirim e Júnior). Entre os muitos troféus na estante do quarto, destaque para o do circuito Rip Curl Grom Search, o do campeonato brasileiro da categoria Junior e o da categoria Sub-16 do ISA World Junior – sem falar no já citado título Pro Junior do US Open.

Um bom exemplo de desempenho memorável neste ano foi no primeiro evento da perna europeia do ASP World Star, no começo do mês de agosto na Inglaterra. Na friaca de Fistral Beach, Newquay, o mais expressivo “trickster” do Baguari sobrevoou o point e, apesar de não faturar o caneco da etapa, impressionou novamente os juízes e a crítica especializada ao acertar várias decolagens durante as baterias, muitas com rotações completas e irretocáveis. Detentor de todos os recordes e da única nota 10 da etapa, o moleque somou incríveis 19,57 pontos na quinta fase do evento.

Com estilo de surf moderno, além de um amplo repertório de aéreos, o ubatubense manteve a regularidade durante a temporada e, segundo a ASP, atingiu o número de pontos necessário para correr o “circuito dos sonhos” antes de completar a maioridade ao sagrar-se campeão do Sooruz Lacanau Pro, evento de nível 5 estrelas da divisão de acesso que rolou na França, também no último mês de agosto.

Para Ricardinho, o sangue de competidor do filho sempre falou alto e o garoto admite a paixão pelos campeonatos.“O Matheus, apesar de excelente competidor, não gosta tanto de campeonatos. Já eu sou fissurado desde pequeno. Fui vice-campeão paulista amador da categoria Petit aos 6 anos de idade”, diz Filipe com a simplicidade comum dos ídolos que ainda não sabem que são ídolos.

Ainda de acordo com Ricardo, Filipe conta com uma incrível capacidade de arriscar com segurança e usar a estratégia certa em momentos decisivos das baterias. “A maior virtude dele este ano foi não se sentir intimidado diante de adversários renomados. Comecei a acreditar mesmo quando ele entrou à vontade para disputar baterias contra caras muito mais experientes do que ele, surfou bem e venceu”, comenta o pai.

Quando questionado como seria correr uma bateria contra seus ídolos em Teahupoo ou Pipeline, Filipe recorre ao lugar-comum, embora seja incomum ver um moleque de 17 anos responder com extrema simplicidade: “Brother, fico imaginando como deve ser dividir o line-up de Pipeline só com mais um cara. Isso durante um Pipe Masters. É nisso que eu penso hoje em dia”.

Em 2013 o Brasil terá mais um candidato ao primeiro título mundial de surf de sua história. Competidor nato, o garoto tem atitude, humildade e surf de sobra. Assim como o pai, quebra na vala e bota pra baixo – sem medo – quando o mar sobe. Diferente do pai, conta com um patrocínio sólido e uma superestrutura de preparação física e psicológica. Do mar vem a sua cultura e o sustento da sua família. Ele tem um nome a zelar, a bandeira da sua cidade para defender e parece saber disso. Mas surfa com naturalidade, sem pressão. É bom os Tops ficarem espertos, o moleque não está no Circuito a passeio.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.