Um desafio maior.
Faltavam três dias para o natal de 1943 quando os amigos Woody Brown e Dickie Cross decidiram cruzar a ilha de Oahu em busca de alguma diversão. Waikiki, em Honolulu, estava sem ondas havia muito tempo e a dupla, entediada pela espera, resolveu conferir o que estava acontecendo do outro lado de Oahu, onde a costa recebia com força total as enormes ondulações de inverno que atingiam o arquipélago havaiano.
A estrada estreita cortava as fazendas, com o verde de suas extensas plantações e pastagens estendendo-se de cada lado, até reencontrar o azul profundo do Pacífico, nas proximidades de Haleiwa. Naquela época o epicentro do surf havaiano ainda era o South Shore e pouquíssimos surfistas, uns seis no máximo, por duas ou três vezes, haviam se aventurado na ondas do North Shore. Woody, ao 31 anos de idade, era um deles, enquanto o loirinho Dickie, com apenas 17 anos, iria surfar lá pela primeira vez. Considerado um dos mais promissores jovens surfistas de Waikiki, o adolescente também se destacava nas corridas de remada e se julgava pronto para encarar novos desafios.
Os dois chegaram a Sunset no final de tarde e entraram na água para surfar ondas que aparentavam ter 10 pés. Remando com seus pesados pranchões de madeira sem cordinha – que assim como a espuma de poliuretano, ainda não havia sido inventada – pelo canal em direção ao outside, logo perceberam que as ondas na realidade estavam bem maiores do que imaginavam, algumas passando dos 20 pés. As séries não paravam de entrar e eles de remar sobre elas em direção ao mar aberto. Quando se deram conta de que seria impossível dropar aquelas ondas gigantescas e que o swell – depois avaliado como um dos maiores em muitos anos – não parava de crescer numa velocidade assustadora, eles decidiram retornar à segurança da praia remando de volta pelo canal. Mas não demorou muito para que se tocassem que seria impossível vencer a enorme força da corrente. Uma vez mais remando em direção ao horizonte, tomaram o rumo de Waimea, 5 quilômetros a oeste de Sunset – por onde haviam dirigido poucas horas antes e visto ondas de “apenas” 20 pés – com a intenção de chegar à terra firme utilizando o canal ainda aberto da baía.
Durante o longo trajeto, passando por picos como Pipeline e Log Cabins, que possuem bancadas de outside onde morras enormes estavam quebrando, Woody, com maior experiência e mantendo a calma, manteve-se mais para fora enquanto Dickie veio se arriscando mais no inside, escapando por pouco de uma onda que eles concordaram que devia ter mais de 60 pés. Depois de 45 minutos remando, chegando a Waimea, o novato, talvez devido ao pânico, cometeu o mesmo erro anterior ao se aproximar demais da costa novamente. Com ondas de 20 pés quebrando sem parar e séries monstruosas entrando a cada 10 minutos, Dickie estava no pior lugar possível. Segundo Woody, “parecia que ele estava tentando pegar uma onda, pois eu o via aparecer e desaparecer no topo delas, até que finalmente ele perdeu a prancha”. Mesmo sabendo que dois caras numa prancha só não teriam chance naquela situação, ele gritou chamando seu parceiro em apuros para o outside, recebendo uma resposta quase inaudível: “Não posso, Woody, estou muito cansado”. Assim mesmo, Dickie começou a nadar na direção de Woody, que remava ao seu encontro. Mas justo neste momento entrou uma série gigantesca, fazendo com que Woody desistisse de resgatar Dickie, virasse o bico da sua prancha em direção ao horizonte e remasse por sua vida.
De cara, tentando varar a primeira onda, ele também perdeu a prancha, para na seqüência tomar na cabeça mais cinco ondas, às quais eles só sobreviveu mergulhando a profundidades superiores a 30 pés. Com o sol se pondo, Woody nadou em círculos chamando por Dickie sem sucesso. Achando que iria morrer, Brown se despiu de seu calção para diminuir o arrasto e resolveu deixar se levar pelas ondas em direção à praia, mergulhando cada vez menos fundo a cada impacto da espuma. Finalmente, nu e apenas semi-consciente, jogado na areia pela força do mar, ele teve a sorte de ser arrastado pra cima da praia por um grupo de soldados que testemunhara tudo. A primeira coisa que perguntaram a Woody foi, “onde está o outro cara?”. Dickie havia desaparecido para nunca mais ser visto. Depois deste dia, Woody não voltou jamais a surfar Waimea, que ficou conhecida como uma praia maldita, até o tabu ser quebrado quase 15 anos mais tarde, em 1957, por Greg Noll, Pat Curren e mais um grupo de amigos. Para Woody, interpretando a descrição do que os soldados disseram ter visto na última vez em que Dickie foi avistado, “ele estava tentando pegar uma onda em Waimea no peito”.