O sol começava a surgir colorindo o horizonte derramando lágrimas alaranjadas nas calmas águas do oceano.
Enquanto admirava esse belo cenário, ouvindo Knocking on Heaven´s Door na voz de Axel Roses, visualizei o transatlântico que imponente flutuava sobre as águas salgadas.
Águas estas que dão sentido a tantas vidas. Vidas como a minha e a do guerreiro Carl…
Há apenas dois dias o meu amigo havia partido, e as lágrimas que rolavam sobre a minha face eram apenas a parte externa de uma estranha melancolia.
Carl Scherer, Kiko, ?Kaus Muller?; tão cheio de nomes, mas um único indivíduo querido por todos em função das suas virtudes.
Carl sempre foi um guerreiro. Depois que descobriu o seu câncer (leucemia), lutou bravamente contra a doença, sempre com seu jeito moleque, descolado e alegre.
Nunca, mesmo nos dias mais difíceis, cheguei a vê-lo sem um sorriso esboçado no rosto.
Sempre que chegava ao mar agradecia a Deus por cada onda, por cada minuto; por fazer parte daquele ecossistema fantástico.
A sua interação como o mar, a sua paixão pelo oceano era contagiante! Mergulhador ? surfista, seguia a risca a ?Letra A? do mágico Nando Reis: – A gente que enfrenta o mal, quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor!
Kiko surfava no limite e mesmo com a doença havia chegado no ano passado em 14º na categoria Master.
E este ano lutava para ficar entre os dez primeiros. Já estava em 12º! Quem o conhecia sabe que ele chegaria lá!
Carl era pura raça, com tanta força de vontade e otimismo que programava as suas quimioterapias entre uma competição e outra.
Cheguei a vê-lo voltar de ônibus depois de uma sessão. E ainda estava sorrindo!
Nos seus últimos dias tive a sorte de conviver intensamente com ele e extrair um pouco mais do seu maravilhoso exemplo de luta pela vida.
Muitos momentos me marcaram, e nesta hora de saudades, e não de tristeza, eles passam como um flash…
A sua garra nas duras batalhas da vida, seu jeito brincalhão enquanto surfava, querendo colocar todo mundo ?no bolso?, sua carreira de modelo (Fiorucci, Phillip Martin), as estórias de pescador; de como o yôga havia mudado sua vida, seus conceitos e tantas outras…
Kiko vendeu minha primeira prancha importada (uma Gary Linden), minha primeira camisa de lycra… boas lembranças… Mas acho que de todas as lições que ele deixou, três me marcaram.
Primeiro, quando dentro d´água, sorrindo, me contava da alegria do nascimento do seu filho Rafael. De como ele e a também guerreira Andréa (sua esposa e grande amiga) estavam radiantes!
A segunda e a terceira talvez tenham sido as mais marcantes… Quando, na chuva, há uns dois meses, eu corria preocupado com o destino da minha carreira profissional e ele passou de carro com Andréa após uma sessão de Quimioterapia, quando os cabelos começaram a cair e ele resolveu raspar dizendo que estava igual ao Kelly Slater. A chuva teve um novo sabor naquele momento… Que lição!
E, finalmente, o momento mágico. Fim de tarde na escada quebrada, altas ondas, o mar só nosso.
Estranhamente comentei com a minha namorada que não surfei, apenas fiquei sentado admirando aquele ser humano fantástico que com 39 anos surfava como um garoto e fazia desse esporte, dos amigos e da família, as razões de viver.
Dropei apenas duas ondas, enquanto ele, com mais de vinte, me colocava no “bolso”.
Sai feliz e melancólico…
Menos de duas semanas depois Kiko faleceu. Mas, como sempre, sem reclamar, e o mais importante, viveu feliz até o seu último minuto.
Acho que por isso ele foi tão rápido. Deus jamais permitiria que um espírito que soube tão bravamente driblar as provas da vida, e que era tão apaixonado pela natureza, definhasse em uma cama.
Carl partiu sem dor, sem sofrimento e hoje surfa no Éden!
Cada mar, cada onda que surfo é uma reverência a esse grande homem com quem muito aprendi e que muitas lições deixou para todos que com ele conviveram.
*Carl, você pediu para que eu escrevesse o texto de sua vida e que fosse sem drama, para as pessoas darem risada. Não sei se consegui. Mesmo porque, ainda é muito cedo devido à dor da distância. Mas a sua luta, sua vontade de viver, otimismo e esperança vão estar para sempre na memória de todos.
Agora, me dê licença, porque tenho que treinar para quando chegar aí você não me colocar no “bolso”.
Aloha, Klaus Muller. Fique com Deus, fique em paz, até breve e uma salva de palmas para você!!!
Nota da Redação Leia na página seguinte um artigo escrito por Klaus Muller, Amigos do Mar
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Amigos do Mar
Resolvi escrever não como forma de desabafo ou para que tenham piedade de mim, mas como forma de dar uma força ou luz às pessoas que se encontram em momentos difíceis na vida.
Sou surfista há 23 anos e mergulhador há mais tempo ainda. O mar para mim é a minha fonte de vida, apoiado pelo criador e assessorado pela natureza.
Em 2001, consegui realizar o meu projeto de vida. Construí minha casa perto do mar (uma batalha para o meu orçamento) e casei com a mulher que amo.
Infelizmente não deu para curtir muito, pois me casei em maio de 2001 e em dezembro do mesmo ano descobri que sou portador de um tipo de leucemia, a LLC (Leucemia Linfocítica Crônica), recebendo este presente de Natal e Reveillon.
No começo de 2002, fiz uma cirurgia para implantar um cateter no peito e comecei o tratamento com quimioterapia, que durou 11 meses, me impossibilitando até de tomar um banho de mar logo no início do tratamento.
Para um amante do mar foi muito difícil, apesar de tudo ter sido encarado da melhor maneira possível.
Depois do quarto ciclo de quimioterapia, minha médica me liberou para tomar o maravilhoso banho de mar e andar de bicicleta, devido ao meu alto astral e condições físicas favoráveis.
Mas, logo pensei qual a atividade mais perigosa ? bicicleta ou surf? Imediatamente retornei ao consultório, pedindo para surfar em vez de andar de bicicleta.
Fui liberado para surfar com algumas recomendações: evitar água poluída, ondas grandes e água fria.
Com muita cautela, retornei ao meu verdadeiro lugar e nunca esqueci aquele momento. Naquele dia o mar estava pequeno, mas a água estava cristal e foi alucinante encontrar os meus amigos no mar.
Assim, continuei minha luta com mais ciclos de quimioterapia, recebendo medicação por três dias consecutivos/mês e combatendo os efeitos colaterais com o surf, aliás, uma receita abençoada.
Na verdade, a médica não acreditava como o mar e o surf ajudaram na minha recuperação, chegando a dizer que a partir daquele momento, recomendaria o surf para os pacientes.
Graças a Deus, fiquei um ano e oito meses sem tomar nenhum tipo de medicação, surfando, mergulhando, praticando yôga e levando a vida da melhor forma possível, inclusive conseguindo realizar mais um sonho: comprar um barco.
Recebi, então, mais uma benção de Deus: a gravidez de minha esposa, sem precisar da prevista inseminação artificial, o meu tão sonhado filho está a caminho.
Este ano aqui em Salvador, criaram o Circuito Baiano de Surf Master, uma brilhante idéia, capaz de resgatar a vontade de competir de muitos surfistas, até então esquecida.
Entretanto, consegui realizar mais um sonho da minha vida, participar de um campeonato com tantos ídolos de minha geração.
Para completar tamanha felicidade, obtive uma boa colocação na primeira etapa, ficando amarradão durante a preparação para a segunda etapa, com boa alimentação e bastante natação.
Quando a segunda etapa estava se aproximando, fui ao consultório médico realizar exames de rotina e novamente fui surpreendido com a Leucemia.
Ela voltava a crescer e eu teria que encarar novamente o tratamento quimioterápico, o que iria me afastar do mar, lugar a que pertenço, por mais nove meses.
Enfim, contei a minha história para todos não para terem sentimento de pena ou tristeza, mas para mostrar como a vida é maravilhosa e como nós não nos damos conta disso, criando até localismo em praias onde não tivemos nenhuma participação na sua criação, apenas recebendo e usufruindo desta maravilha que Deus criou para todos nós.
Não damos a atenção devida à alvorada nem ao crepúsculo, reclamando muitas vezes de tudo e de todos, achando que temos todo o tempo do mundo e não valorizamos o tempo presente, pensando que o futuro nos pertence.
Amigos do mar, aproveitem a vida da melhor maneira possível, pois ela é muito curta, passem a dar mais valor a coisa mais importante que temos: a saúde.
Boas ondas a todos, com muita paz e saúde. Do amigo do mar, Carl Christian Scherer (Kiko)


