Baía de Todos os Santos

Desafio em alto-mar

Este é um texto sobre desafios. O primeiro desafio é escrever sobre o que vi e senti ao acompanhar cinco atletas numa travessia de Stand Up Paddle e Paddle Board, do Porto da Barra até Madre de Deus.
    
A convite de meu amigo Pedro Pereira, embarquei com uma câmera não profissional (e sem estabilizador de imagem) na mão, em um pequeno barco a motor, pilotado por Pimentinha, para registrar a travessia de Bárbara Brazil (campeã brasileira categoria 12’6), Gustavo Costa (atual líder do ranking brasileiro Unlimited), Pedro Pereira, Genauto e Maurício Abubakir, atletas com idades variando entre 30 e 50 anos.
   
Não é a primeira vez que os acompanho. No campeonato que teve do Farol de Itapuã ao Farol da Barra, também embarquei num barco ainda mais rústico e menor, com o intuito de registrar a aventura, o que me rendeu gosto pela coisa e pelo mar, fato até então distante da minha realidade de garota paulistana, criada nas ondas de calor do asfalto quente de São Paulo.
    
O dia estava lindo e o vento esperado presente. Os atletas se encontraram no Porto e, depois de uma breve estratégia de rota, partiram com destino a Madre de Deus, um trajeto que tinham em mente em torno de 3 a 4 horas.
    
Do Porto da Barra, a ponta do Humaitá, todos deram um gás incrível, seguindo a costa e acompanhados da bela paisagem que é Salvador vista do mar.

Os rapazes do paddleboard optaram por seguir juntos e em determinado momento desapareceram das nossas vistas. A galera do stand up seguiu junta .

Este primeiro trajeto foi muito rápido e aparentemente fácil, uma vez que não era novidade para os atletas. O vento a favor fez com que as pranchas deslizassem rapidamente nas águas da Baía de Todos os Santos.
     
No Humaitá, todos se encontraram. Maurício Abubakir e Genauto já haviam chegado e aguardaram a galera do stand up (Babi, Pedro e Gustavo) chegar, aproveitando para um breve descanso.
     
Creio que levaram no máximo uma hora nesse trajeto, possivelmente até menos.
     
Depois da Ponta do Humaitá, as coisas mudaram um pouco. Os atletas começaram a se distanciar da costa e adentrar ao mar, aproveitando o vento totalmente a favor, o verdadeiro downwind.

Maurício e Genauto se distanciaram do grupo do stand up. Gustavo seguia na frente, em um ritmo bem acelerado, seguido de Babi, que, calma e segura, buscava a rota certa, uma vez que era portadora do GPS que guiava o grupo, e Pedro, que fez um pequeno desvio da rota, mas, com a ajuda do barco de apoio, logo alcançou o grupo.
      
Quando falei no início do texto sobre desafios, foi porque, para mim, estar naquele barco tão simples, acompanhada apenas do pescador / marinheiro, foi um grande desafio também.  

Quando pequena, recusava todos os convites da família para viajar num navio (com todas as condições de segurança). Tinha muito medo de estar no mar e esta foi a segunda vez que encaro o mar, sem qualquer recurso ou conforto, somente a confiança na experiência do pescador que me levava.
      
Estar na água acompanhando os atletas me fez superar qualquer medo ou insegurança, ao observar a garra e disposição de cada um, me sinto mais viva também.
       
O tempo começou a ficar um pouco instável, chovendo um pouco e ventando também, o que aumentou o grau de dificuldade do trajeto e a força das ondas. Notei que os atletas do Stand Up foram se distanciando cada vez mais, e os atletas do Paddle board seguiam  juntos, como lobos marinhos bem distantes da costa.
       
O interessante para mim, era que apesar de não saberem  exatamente a rota (assim como o pescador do barco), Maurício e Genauto seguiam no caminho certo até o momento em que o pescador quis ajudá-los e sem querer desviou-os da rota, fazendo com que eles perdessem tempo e tivessem que se esforçar muito mais para voltarem a rota certa, nesse momento eu já havia perdido os outros atletas de vista.
      
Quando eu avistava alguém, ficava impressionada com a coragem de cada um de estar ali. Não era uma competição, não havia uma disputa material, o que une esses atletas é a amizade e a vontade em comum do auto desafio, de se superarem, pelo enorme prazer que sentem de estar na água, livres.
     
Para mim, somente em estado de meditação tal desafio é possível, totalmente presentes no agora, senhores de suas próprias mentes e corpos, eles vencem os limites do corpo e com muita coragem e fôlego, seguem rumo ao destino final do trajeto.
      
A essa altura, as baterias das câmeras no barco já haviam acabado e infelizmente não pude registrar o restante do percurso.
      
A condição do tempo estava inconstante e o mar já estava mais bruto, creio que da metade do trajeto em diante, os atletas precisaram se esforçar mais. Já estavam bem distantes da costa e remando sem parar por pelo menos duas horas.
      
Os vi surfarem nas ondas de uma forma que até então eu não conhecia.
      
Com uma média de quatro horas de percurso, os atletas chegaram a Madre de Deus, com um mar muito agitado e a maré subindo rapidamente.
       
Satisfação estampada no rosto de cada um, nível de cansaço regular e ânimo para tomar uma gelada e comer um feijão pra repor as energias.
       
Para mim, mais um dia de aventura e emoção e feliz por saber que no meio desses verdadeiros monstros do mar, uma mulher (Babi) representa a classe feminina com muita coragem, quebrando o velho paradigma dos limites quando se trata de gênero.
       
Parabéns para essa galera guerreira e que venha a próxima aventura.


Foto de capa Ader Oliveira

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