Decolagem bem sucedida

Até pouco tempo atrás, o apelido “Mineirinho” simbolizava uma pessoa quieta, que chega sem alarde e vai conquistando seu espaço. Atualmente, no meio esportivo, é sinônimo de radicalidade no Brasil e no mundo, seja no skate ou no surf. O Mineirinho do skate, Sandro Dias, atual nº 1 do planeta, completou a manobra mais espetacular da modalidade, o 900 graus.

 

Já nas ondas, Adriano de Souza, o Mineirinho do surfe, considerado um fenômeno da modalidade, vem tentando o “Superman”, manobra com grau de dificuldade comparável à feita pelo skatista – consiste em dar um aéreo e, em pleno ar, esticar os braços e pernas, segurando a prancha pelas bordas, e retornar à base da onda em cima da prancha novamente.
   

Se no skate o nome de Sandro Dias está mais do que consolidado internacionalmente, no surf, Adriano de Souza vem mostrando que tem tudo para ser uma estrela mundial. Com apenas 17 anos, o talento do Guarujá (SP) coleciona conquistas que não deixam dúvidas sobre o seu potencial.
   
Só no primeiro semestre deste ano ele faturou o título mundial Pro Junior ao vencer o Billabong World Champs, na Austrália, campeonato oficial da ASP para surfistas com até 20 anos, venceu o Oakley Junior Challenge, no Rio de Janeiro, também destinado à nova geração, chegou à semifinal do WQS 6 estrelas nas Ilhas Maldivas e acaba de vencer a Seletiva Petrobras de Surfe Masculino, em Ubatuba.
   

Na final, superou o ídolo Fábio Gouveia, um dos maiores surfistas brasileiros de todos os tempos, e Odirlei Coutinho, líder do SuperSurf. Seu talento é reconhecido por todos. Fabinho é um dos que o elogiam muito: “O Mineirinho é um cara que está despontando, mexendo com o surf do Brasil. Tem o surf no pé, é rápido, tem fluidez e surfa com pressão, mesmo sendo leve”.
   
Apesar do sucesso e da fama precoce, Adriano de Souza é bem maduro para a sua idade e sabe administrar a situação, com ações coerentes e planejadas. Determinado, responsável em relação aos treinos, competições e estudos e, acima de tudo, com talento nato, o Mineirinho do surf sabe muito bem o que quer de seu futuro e argumenta com propriedade.

 

“Esse ano vou correr todas as etapas do WQS e o Brasil Tour para me manter no SuperSurf. Mas também quero terminar os meus estudos antes de estar no WCT”, destaca o surfista, que está cursando o primeiro ano do ensino médio.

 

Agora, a meta é ganhar experiência nas disputas e em todos os tipos de ondas, sobretudo as fortes. “Quero chegar pronto para vencer. Não quero ser mais um”, afirma o surfista, que no próximo ano vai passar, no mínimo, dois meses estagiando nas poderosas ondas tubulares de Teahupoo, no Tahiti. “Nunca surfei lá e acho que tenho de estar bem preparado. Quero ganhar uma bagagem boa, amadurecer em todos os tipos de onda e essa é a principal”, revela.
   
“Penso em estar no WCT daqui uns dois anos. Não tenho pressa”, reforça o talento da nova geração. Mas e se a vaga para o WCT vier antes? “Daí, só Deus sabe! O circuito é muito difícil”, diz o atleta, sabendo que não terá moleza no início. Por ser um novato, enfrentará os tops do circuito. “Vai ser mais legal ainda”, diz, mostrando coragem. “Quando você vence, supera as estrelas, todo mundo começa a olhar de outro jeito”, explica. 

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Na Seletiva Petrobras, ele superou seu maior ídolo, o paraibano Fábio Gouveia, que só de circuito mundial tem quase a idade de Adriano. “Foi normal. Não temo ninguém. Acho que quem espera vencer, ser campeão, tem de passar por todos, principalmente os melhores”, frisa o atleta, que tem como a bateria de seus sonhos enfrentar o hexacampeão mundial Kelly Slater.
   
“Quero enfrentar o homem e vencer. Tem também o Andy Irons. Eles são os melhores”, diz Adriano, referindo-se ainda ao atual bicampeão do WCT, que coincidentemente iniciou a sua trajetória de sucesso garantindo o título mundial Pro Junior da primeira edição do evento, em 1998. “Até hoje, a bateria mais sensacional que tive foi contra o Rob Machado, na Califórnia, ano passado. Pena que não venci”, lembra.
   

Entre suas prioridades, além de terminar os estudos e surfar nos principais picos do planeta, está o bicampeonato mundial Pro Junior, igualando-se ao australiano Joel Parkinson, outro destaque do WCT. Ele sabe que o título conquistado no início da temporada lhe deu status na carreira. “Foi muito importante mesmo. A repercussão está show. Sou reconhecido lá fora por todos e os juizes me avaliam com outros olhos, valorizam mais”, argumenta o atleta, que tem o patrocínio exclusivo da Oakley e co-patrocínio da rede de surf shops Central Surf.
   
Com o apelido herdado do irmão mais velho, Ângelo, ele justifica bem o codinome. Com fala calma, quieto, é muito concentrado durante os campeonatos, estudando, sobretudo, as ondas, sua variações, onde e como pode ter melhor desempenho. É assim desde pequeno, quando começou no circuito paulista da nova geração, patrocinado pela Hang Loose, primeira empresa que acreditou em seu potencial.
   

Mas dentro d’água a situação é outra. Consegue aliar o surf clássico com o moderno e sempre está tentando arriscar, voar, inspirado no skate, esporte que fez famoso o outro Mineirinho. Foi assim quando venceu a etapa final do Billabong Pro Junior, ano passado, garantindo a sua vaga para o mundial, e agora na Seletiva Petrobras de Surfe Masculino. “A inspiração vem muito do skate. Tento trazer para o surf as manobras inovadoras. Só faço o que gosto”, comenta.
   
“O negócio é tentar arriscar o máximo possível. É o que os juizes querem, gostam e o que vale nota. E o público também espera e vibra com isso”, diz o fenômeno do surf, seguindo o mesmo caminho do Mineirinho do Skate, que persistiu muito até conseguiu completar o 900 graus num evento oficial. No seu caso, a manobra é o “Superman”, criada pelo australiano Troy Brooks. Ele vem treinando incansavelmente, sobretudo nas ondas da praia do Tombo. “Já consegui nos treinos, mas quero completar no campeonato. Na Seletiva Petrobras eu tentei, mas não deu”, ressalta. 
   

Na vida competitiva, o foco esse ano é o WQS. Ele aproveita o benefício conquistado com o título do Billabong World Junior Champs de ser top e entrar no round dos 96 nas etapas 5 e 6 estrelas, para garantir a vantagem em 2005. “Vou a todas as etapas fortes. Estou indo agora para Jeffreys Bay (África do Sul), depois vou surfar em G-Land (Indonésia), sigo para a etapa de Huntington Beach (Estados Unidos), Japão e Europa (três etapas na França). Só volto ao Brasil no final de agosto”, afirma.
   
Apesar de ser muito novo, ele encara bem o sucesso conquistado e procura ser um exemplo para atletas de sua própria geração, que ainda não despontaram. Na sua idade, a grande maioria ainda disputa campeonatos amadores e sonha em chegar a ser profissional um dia. “Eu acho muito legal mostrar o que eu consegui. Eu sou uma ponte entre essa molecada nova e seus sonhos. Sou um exemplo de que todos podem conseguir. Eu morava na periferia. Hoje, tenho uma casa perto da praia, pude ajudar minha família e sei que posso conquistar muita coisa. Saí da periferia, o que já é um sonho para muitos”, completa. 

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Mineirinho começou a surfar aos 8 anos de idade e a competir em 98. Seu primeiro título foi conquistado um ano depois, no circuito A Tribuna de Surf Colegial, campeonato criado para incentivar os estudos entre a nova geração, em Santos. Depois, não parou mais de se sobressair. Na coleção de conquistas estão os títulos paulistas Grommets, Iniciantes, Mirim e Junior, bem como o bicampeonato brasileiro Iniciante e mais um no Colegial.
       
Representou o Brasil no ISA World Surfing Games, na África do Sul, ficando em terceiro lugar na Junior, depois de liderar toda a bateria final. Só não levou o caneco por cometer interferência e perder uma de suas notas. Outro grande desempenho foi no East Coast Surfing Championship, no Estado de Virgínia, Estados Unidos, considerado o maior evento da modalidade no Oceano Atlântico.

 

Fez tanto sucesso com o seu surf agressivo que ganhou o apelido de “The Brazilian Rocket”, o foguete brasileiro, e foi declarado pelos jornais locais como a melhor coisa no surfe depois de ninguém menos que Kelly Slater. Disputou três categorias e chegou em todas as finais. Ganhou a Junior, foi terceiro colocado na Pro Junior e vice na Profissional, sendo derrotado apenas pelo experiente Dino Andino.
   
Com apenas 15 anos, começou a atuar entre os profissionais e mandou logo o recado sendo o surfista mais jovem da história a vencer um campeonato na categoria, no Rio de Janeiro. No mesmo ano, garantiu vaga para o SuperSurf sendo o mais novo da elite nacional. No ano passado, teve outros dois grandes momentos.

 

Venceu uma etapa do Trials no Rio Grande do Sul, que lhe garantiu o vice-campeonato do circuito, e deu um verdadeiro show de radicalidade na segunda e decisiva etapa do Billabong Pro Junior, na praia de Maresias, em São Sebastião, justamente a competição que definiu o time sul-americano para o mundial na Austrália. Na disputa, ele voou alto, arriscou várias manobras novas, semelhantes às feitas por skatistas, tanto de street quanto de vertical.    
   
Ainda fechou a temporada com o terceiro lugar na Sorriso Surf Cup. Esse ano, além do WQS e Brasil Tour, deve marcar presença no Billabong Pro Junior, que terá etapa inicial dias 1º, 2 e 3 de outubro, na praia Mole, em Florianópolis (SC). “Já estou classificado para o próximo mundial, por ser o campeão, mas quero competir sim. É uma competição muito boa. Os brasileiros são muito radicais e estarei enfrentando os atletas da minha geração”, completa.
 

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Sucesso é resultado de trabalho planejado


 
Além do talento nato e dedicação, Adriano de Souza conta com planejamento e estrutura para chegar ao topo. O responsável pelo trabalho de bastidores é o empresário e técnico Luiz Henrique Sabóia Campos, conhecido no meio como “Pinga”.

 

Também atuando como gerente de marketing da Oakley, patrocinador exclusivo do surfista, ele mesmo revela que os resultados estão chegando antes do esperado. “Nosso projeto tinha como meta para ataque 2005 e 2006. Mas o que está acontecendo é fruto de um trabalho planejado e em cima de metas e objetivos. Ele conta com um ótimo suporte em todos os aspectos”, afirma Luiz Henrique.
   

Ele explica que o surfista faz parte do Projeto Marazul, uma clínica de medicina esportiva. “Eles oferecem ao Adriano tudo o que ele precisa para estar bem física e psicologicamente, com a saúde perfeita. Tem médico, nutricionista, preparador físico e psicólogo a disposição. Sem falar que o Adriano tem um ótimo suporte e infra-estrutura do patrocinador. Acredito que os resultados estão surgindo por uma soma de fatores e muito trabalho, dedicação e planejamento”, explica.
   
“Eu acredito muito nele, por vários fatores, não só pelo talento. Mas principalmente por sua personalidade e caráter. É um cara que apesar de eu frisar sempre que o surf está acima de tudo, quer ser divertir, estar alegre quando está no mar, tanto para treinar quanto competir. Encara tudo isto com muita responsabilidade. É muito difícil faltar a treinos, yoga, acupuntura e às aulas quando está em casa. É dedicado, trabalhador e que sabe muito bem o que quere e como chegar lá. Eu acredito nele em todos os aspectos. Por isso vai chegar longe”, elogia Luiz Henrique.
   

Assim como Mineirinho frisa, o técnico e empresário reforça que a prioridade agora é estudar. “Minha preocupação sempre foi em formar o homem, o ser humano, pois acredito que a base tem de ser sólida e para um atleta se dar bem no circuito mundial deve ter muita base”, ressalta. “Os estudos, além de importantes para ele como atleta, serão fundamentais na preparação de sua vida como um todo, inclusive quando decidir parar de competir”, acrescenta.
   
Quanto ao circuito mundial, Luiz Henrique explica que o plano para este ano é aproveitar o seeding que o título mundial Pro Junior lhe rendeu (o campeão entra como top nas etapas 5 e 6 estrelas) para mantê-lo na mesma fase em 2005. “Mas vamos aos eventos com a finalidade de se dar bem, alcançar o melhor resultado possível. E isto é a vitória ou perto dela. Ele está indo sem pressão, mantendo o que sempre fizemos nos eventos”, diz. 
   

“E, principalmente, degrau a degrau. Sabemos que o caminho é longo, difícil. Por isto temos de estar bem atentos. Mas temos de ter em mente que pode acontecer antes e temos de adequar os planos, caso o caminho venha a ser encurtado”, explica o técnico e empresário, lembrando que além dos estudos, a prioridade é surfar em ondas de boa qualidade. “Desde o ano passado, ele vem fazendo diversas viagens para ondas perfeitas. Para 2005 temos planos para ondas pesadas. Estamos em fase de preparação”, comenta.
   
Com uma vasta experiência no segmento, Luiz Henrique Sabóia Campos tem 39 anos e já atuou em várias marcas, como Lightining Bolt, Quiksilver, MCD, Reef e hoje é o gerente de marketing da Oakley, patrocinadora de Adriano. Trabalha também como outros destaques como Danilo Costa, Gilmar Silva, Cláudia Gonçalves e Renato Wanderley.

 

“Sempre procuro iniciar os meus trabalhos com atletas quando eles ainda são bem jovens”, ressalta. “Tive a oportunidade de trabalhar como team manager de surfistas como Pedro Muller, Picuruta Salazar, Wagner Pupo, Fábio Gouveia, Teco e Neco Padaratz. Competidores que me passaram muitas coisas”, ressalta. Com o Mineirinho não será diferente. A decolagem para um futuro de vitórias foi um sucesso.
 
Raio-x de Adriano de Souza, o Mineirinho

 

Nome: Adriano Elias de Souza
Apelido: Mineirinho
Cidade: Guarujá
Local de treino: de Pitangueiras e do Tombo
Posicionamento: Regular
Patrocínio: Oakley e co-patrocínio da Central Surf e Ricardo Martins (pranchas)
Altura: 1,58 metros
Peso: 54 quilos
Nascimento: 13/02/1987
Escolaridade: cursando o 1º ano do Ensino Médio
Tempo de surfe: 8 anos
Começou a competir em: 1998
Primeiro título: 1999, no Circuito A Tribuna de Surf Colegial, categoria Iniciantes
Principais conquistas: bicampeão colegial iniciantes; campeão paulista grommets, iniciantes (no mesmo ano), mirim e júnior; bicampeão brasileiro iniciantes; 3º colocado na categoria júnior no ISA World Surfing Games, na África do Sul; destaque no East Coast Surfing Championship, nos Estados Unidos, sendo vencedor da júnior, 3º colocado na pro júnior e vice na profissional; vencedor mais jovem de uma etapa do Circuito Brasileiro Profissional, aos 15 anos; atual vice-campeão do Abrasp Super Trials; vice-campeão do Billabong Pro Júnior, seletiva sul-americana para o Mundial em 2004; 3º lugar na Sorriso Surf Cup, campeonato profissional só para convidados; campeão mundial pro júnior no início deste ano; vencedor do Oakley Challenge Júnior; 7º colocado no WQS 6 estrelas nas Ilhas Maldivas; vencedor da Seletiva Petrobras de Surfe Masculino.
Hobbie: ouvir música e andar de bicicleta
Estilo de música: Rock popular e reggae
Cantor/banda: Tony Garrido, Charlie Brown Jr. e Eminem
Comida: arroz, feijão e bife
Bebida: suco de laranja
Esporte além do surfe: skate e futebol
Ídolo: Kelly Slater

 

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.