Jairo Lumertz

De volta para casa

Jairo Lumertz desce a ladeira em Waimea. Foto: Arquivo Pessoal.

Big rider possui um mini-museu de pranchas na sua casa em Porto Alegre. Foto: Arquivo Pessoal.

Jairo Lumertz dropa com a prancha produzida com garrafas Pet que fez sucesso no Hawaii. Foto: Arquivo Pessoal.

No North Shore, ele trabalhou em uma fazenda e morou por alguns meses sem energia elétrica. Foto: Arquivo Pessoal.

Depois de sete anos no Hawaii, o big rider gaúcho Jairo Lumertz está de volta ao Brasil com boas histórias do arquipélago.

Jairo surfou muito, morou em uma fazenda próxima a Waimea sem energia elétrica. Aprendeu jiu-jitsu e criou até com uma prancha de garrafa Pet.

O big rider também ganhou o respeito dos locais com sua atitude e postura no North Shore de Oahu.

Versátil, Jairo possui a marca de prancha Cuscabarone e manda bem de pranchinha, SUP, longboard e no skate.

Na entrevista abaixo, ele fala de todos estes assuntos e de sua volta ao estado do Rio Grande do Sul.

Não sei se você se lembra. Há uns dez anos, eu tinha uma monoquilha da marca Lightning Bolt com shape da K&K. Como colecionador e apaixonado por pranchas, você me ofereceu uma nova por ela e eu aceitei na hora. Não quer destrocar (risos)? Conte um pouco sobre este museu de pranchas lendárias que você possui.

Lembro sim, uma prancha K&K monoquilha com um raio no meio. A verdade é que a tua prancha agora faz parte de um mini-museu de pranchas antigas, em minha casa em Porto Alegre (RS). Tenho em média 60 pranchas. Até hoje eu continuo trocando pranchas novas por relíquias quando vejo alguma. Tenho algumas raridades que trouxe do Hawaii que deram um “up” no visual do museu. Em relação a sua prancha, não se preocupe, está bem guardada (risos).

Há alguns anos você foi destaque na Fluir, na seção “Sem limites”, surfando com uma prancha de garrafa Pet, produzida por você quando ainda morava no Hawaii. Repercutiu bem demais este seu pioneirismo. Como foi isso e de onde surgiu essa ideia?

A prancha de garrafas fez muito sucesso onde passava no Hawaii e quando saiu na Fluir meus amigos e família riram bastante e se divertiram. Participei da corrida de remada com ela e a galera foi à loucura. Eu sempre sonhava em fazer esta prancha de lixo. No Hawaii tive tempo para me envolver no projeto e fiquei muito feliz de achar uma cola que uniu os plásticos. O lixo é um dos nossos piores problemas e meu pensamento é consumir lixo, não produzir.

E a Cuscabarone, sua marca de pranchas, como vai? Soube que fez muitas “gunzeiras” para os havaianos.

A marca Cuscabarone está crescendo e aposto que vai bombar. Porque tudo volta para o surf e é feito pelo surf. Fiz algumas pranchas no Hawaii e as mais iradas foram os modelos “Waimea Gun”. São blocos enormes  de até 11 pés e com muita flutuação. Verdadeiras obras de arte.

Como começou a Cuscabarone? Conte um pouco desta história.

A marca surgiu em uma época em que o surf prosperava no estado, tinha um alto percentual de pessoas apostando no esporte e a maioria dos atletas tinha patrocínio, assim desfilavam com seus adesivos e roupas coloridas. No microfone o surfista era anunciado e também seu respectivo patrocinador. Mas nossa galera não tinha patrocínio, só apoio da família, daí inventamos um nome bem diferente para termos nosso patrocínio, usando adesivos, camisas e claro, as pranchas.

Assim todos nós tínhamos o patrocínio da Cuscabarone e sandálias da Nega Vilma (risos). O que mais divertia a galera na praia era quando o locutor anunciava  a marca no microfone, todos ficavam alegres e desde então a “Cusca” vem  crescendo devagar. Tem saído altas pranchas e agora estou investindo na surfwear. Estamos todos juntos, família, amigos e quem quiser entrar no time seja bem-vindo. A Cuscabarone é da galera que vive e faz o surf,  tem disciplina, se diverte, protege e ama o mar.

Como a prancha feita de garrafa Pet já nos mostrou, você tem talento para invenções. Ouvi falar de
uma invenção sua que copia outlines de pranchas com auxílio de um skate. O que mais vem por ai?

A mente está sempre inventando coisas, no meu caso, que só penso em surf, tudo que eu vejo se transforma em pranchas ou ondas. Mas o que fiz foi copiar a curva de fundo com uma plaina elétrica e um suporte conectado em truks de skate, assim o skate rola sobre o fundo da prancha desejada e marca com a plaina o bloco a ser desbastado. Precisa alguns ajustes, mas funciona muito bem, é fácil e barato. Tem  mais invenção saindo, aguardem.
 
Você morou por sete anos no Hawaii, fez uma vida e uma história fantástica lá. Conquistou com muita atitude e humildade a turma mais sinistra do surf mundial. Como foi isso?

Foi uma grande experiência e fiz grandes amigos por lá. O Hawaii é um verdadeiro paraíso para os surfistas. Conseguir espaço no line-up leva tempo e dedicação, mas a adaptação foi natural.

Sabemos que passou poucas e boas no Hawaii, como morar isolado e sem energia elétrica em uma em uma fazenda perto de Waimea. O que este período acrescentou na sua vida?

Foi uma aventura e tanto morar na fazendinha onde eu trabalhava. Tinha os perrengues, tomava banho frio, cozinhava em um fogareiro, ainda tinha os dias de vento forte, quando as rajadas pareciam que iam derrubar meu barraco. Mas só foi por alguns meses, como gosto muito da natureza, ficar jogado no mato e ter ondas, não tem problema para mim. Esses meses me acrescentaram muito espiritualmente, por que não tendo televisão ou internet, conseguia me dedicar à leitura de bons livros e a pensar mais na vida.

Você arrepia de pranchinha, prancha, pranchão e skate. Fora isso é um talentoso lutador de jiu-jitsu e kempo havaiano, não?

Sempre gostei de artes marciais e logo que cheguei me inscrevi na academia de jiu-jitsu do North Shore. Lá aprendi muito e conheci pessoas do mundo inteiro, o professor era o Kai Garcia, considerado o xerife do North Shore. Marcelo Dentinho também dava aula e era quem passava as técnicas. Tive oportunidade de lutar com Joel Tudor, Kiron Gracie, Zé Mario, e uma leva de lutadores que sempre visitam o Hawaii.
 
E como é voltar ao Brasil depois de sete anos longe da família?

É bom demais estar próximo daqueles que são nossos amigos. Quando cheguei foi um grande alívio no coração rever os amigos, família, surfar em Mariluz, ver a natureza e outras coisas mais. Morar em Porto alegre não é muito o que eu gosto. Mas penso que temos que trabalhar duro para podermos surfar e assim também posso ficar mais tempo curtindo minha família.

Sua família é cheia de bons surfistas, seu irmão, Igor, é um dos destaques do big surf. Da onde vem este espírito tão marcante da família Lumertz?

Somos quatro irmãos surfistas e a paixão pelo esporte veio desde criança, quando usavamos “planondas” para pegar jacaré na beirinha. O Flávio sempre que vai para praia surfa bem, o Igor foi criado na base do surf e sempre gostou de ondas grandes, o André é o mais novo e está em ótima fase como free surfer. Sempre fomos fissurados por surf.

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Seu irmão Igor é um dos grandes nomes do big surf mundial. Foto: Arquivo Pessoal.

Jairo prova que tem o DNA das ondas grandes. Foto: Mariana Piccolli.

Versátil, também quebra na pranchinha. Foto: Arquivo Pessoal.

Jairo organiza aula gratuita de jiu-jitsu em Porto Alegre. Foto: Arquivo Pessoal.

Fale um pouco sobre a onda de Waimea.

Waimea é muito generosa, uma baía que quando o North Shore está fora de controle permite cair no canal e surfar ondas com um bom tamanho sem arriscar a vida. É um templo do surf, tem uma boa energia e as pessoas de lá são mais amigáveis do que nos outros picos. Como o Igor já dominava a onda e me mostrou o caminho certo, ficou fácil dropar algumas morras. Como sempre surfávamos os dias grandes, fomos aos poucos nos tornando parte da paisagem do local. Assim conquistamos nossos lugares reservados no outside.

Falando no Igor, fale um pouco dele e da alegria de uma família e um irmão ver o outro nesse patamar do big surf mundial.

Eu já vi coisas de levantar os cabelos. O Igor já fez cada coisa em Waimea que me deixa de boca aberta até hoje. Se fosse escrever daria uma outra entrevista só sobre o assunto. Ele conquistou para muitos o auge do surf em Waimea, foi até o limite, desceu ondas gigantescas, tomou vacas e perdeu a prancha algumas vezes. Além disso, salvou vidas e foi reconhecido por todos. Eu só tenho que me orgulhar do irmão que tenho, que além de muito bom surfista é uma ótima pessoa em terra.

Não é de hoje que vocês gostam de ondas grandes. Qual foi a importância das experiências vividas no Rio Grande do Sul na evolução em ondas havaianas? 

O Rio Grande do Sul é um grande treino para ondas grandes e com certeza nos facilitou na hora do big surf. As remadas até o outside e as vacas nos dias de ressaca foram e são bem-vindas no nosso treinamento.

Como é seu laço com a praia de Mariluz, no litoral Norte do estado?

Mariluz foi onde tudo começou, sou muito apegado à praia e mesmo quando estava morando no Hawaii sempre acompanhava o que rolava por ali. Teve algumas vezes que a galera da praia me mandava vídeos, em uma dessas eu não segurei a saudade e vim embora depois de sete anos.

Você tem uma carreira longa e de muitas conquistas como surfista. Atacando de pranchinha e longboard. Conte um pouco da sua vida como atleta?

Tenho alguns anos de campeonatos aqui pelo Sul e sempre gostei de competição, pois nos força a dar o nosso melhor. Corro campeonatos desde os 12 anos e no primeiro não passei nenhuma bateria. Saí do mar, tirei a camisa e fui treinar até ficar bom.  Tenho alguns títulos de campeonatos estaduais e um título de campeão brasileiro em 2003, na categoria longboard. Sempre tive o sonho de ser surfista profissional com carteira assinada, quem sabe um dia.

Antes de você ir morar no Hawaii, o surf aqui no Rio Grande do Sul tinha uma força absurda com equipes fortes nos brasileiros amadores, campeonatos, e atletas da nova geração. Na sua volta, depois de quase de uma década, qual é sua visão?

O surf no estado teve várias fases e sei que agora não é o melhor momento. Mas temos que ver onde está o furo e por que as pessoas não estão apoiando ou praticando o esporte. O surf tem vida própria, mas quando se trata de competição e incentivo ao esporte, todos tem que unir as forcas e trazer o seu resultado de volta para o surf. Você não deve dar dinheiro para uma marca de surfwear que não apoia o surf. Tem também o fator perigo, com as redes que vem deixando o esporte quase que extinto em alguns lugares do estado. Temos que nos mexer para que o surf continue a crescer.

Pois é, as redes ilegais de pesca já mataram e ainda matam surfistas por todo estado. Você já teve alguma experiência destas? Qual é a sua opinião em relação a este problema?

Este sim é o nosso principal problema aqui no estado. Sou contra esse tipo de pesca e acho que nem na idade da pedra se pescava de um jeito tão primitivo e desumano como a pesca com calão. Já perdi alguns amigos que partiram mais cedo e deixaram suas famílias e amigos em desespero. Não é justo deixar armadilhas no mar, enquanto afogam tartarugas, botos e pessoas. Espero que todos respeitem as áreas de surf e que mortes não aconteçam mais. Perdemos muito com esse tipo de pesca.

Quais são seus patrocinadores hoje?

Eu decidi que agora só vou ajudar quem realmente ajuda e ama o surf, chega de botar marca no bico e nem saber para onde vão os lucros. Eu uso a minha marca Cuscabarone, que além de pranchas, camisas de lycra, stand up,  agora também estamos lançando a surfwear, totalmente do surf e voltada para o surf.

Para finalizar, deixe uma mensagem para seus fãs e todos os amantes do surf.

Queria dizer para a galera que antes de olhar para os luxos que nós criamos, olhar primeiro para a natureza e ver os danos que estamos causando. O lixo é um problema sério, pense na sua terra, sua água e seu ar. Proteja e ame o que é seu, a natureza.

 

 

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