No último Carnaval, as bombas de Nazaré colocaram diversos big riders mundiais para “pular”.
A previsão de um swell dos bons para a Praia do Norte fez com que muitos surfistas deixassem a folia de lado e seguissem rumo a Portugal. Um deles era o paulista Rodrigo Koxa, que já protagonizou bons e maus momentos no pico.
Voltando às ações depois de um período de recuperação, Koxa enviou um relato e fotos dos momentos que vivenciou em Nazaré.
“Esses últimos dois anos foram de turbulentas emoções na minha vida, e digo, com certeza, que foi o período mais conturbado que vivi como surfista profissional de ondas grandes. Realmente quase pirei quando tomei uma série inteira na cabeça e fiquei a alguns metros de ser jogado contra as pedras do desfiladeiro de Nazaré, isso durante o épico swell de 2014.
Poucos sabem, mas tive pesadelos por três meses. Depois daquele dia, acordava suado e assustado, me sentindo nitidamente desconectado, com minha autoconfiança abalada e com medo. Quando contava para meus amigos o que aconteceu, meu corpo tremia. Passei a pedir ajuda para minha mulher e minha mãe, que são psicólogas. Eu sabia que não estava bem e que precisava de um suporte emocional, caso minha vontade fosse voltar a surfar ondas gigantes.
Naquele momento eu não sabia mais se queria voltar a surfar ondas grandes, então, resolvi dar tempo ao tempo, pois precisava reorganizar meus pensamentos. Minha única certeza era de que a paixão ainda estava lá, e foi por conta dela que tracei um caminho para tentar recuperar a minha essência. O primeiro caminho que percorri foi, depois de um ano inteiro, voltar para Nazaré com meu parceiro Vitor Faria para a temporada 2015. Lá, permanecemos por dois meses surfando diversos dias grandes no intuito de treinar e ir me fortalecendo mentalmente. No entanto, naquela temporada as ondas não estavam gigantescas, e apesar disso, me senti aflito nos dias maiores, com uma espécie de fobia pelo resgate do meu parceiro e querendo subir o mais rápido possível no jet ski, depois de cada onda surfada. Sim, eu estava surfando, mas morrendo de medo de tomar as ondas na cabeça novamente.
Em nossa última semana em Portugal, um swell grande, não gigantesco, com ondas ali na casa de 20 a 25 pés, chegou a Nazaré. Eu estava surfando quando Vitor veio me resgatar e vi que a onda de trás era grande. Fui tão afoito para subir no sled do jet ski, com medo que ele me deixasse ali, que acabei luxando meu ombro esquerdo. O ombro saiu do lugar pela primeira vez na vida, e a dor foi absurda. Voltei para o Brasil em dezembro sem poder mais surfar. Fui a médicos, fiz os exames necessários, mas a intervenção indicada, tanto pelos médicos, como pelo meu fisioterapeuta, foi a cirurgia, devido ao rompimento do labro, que é o ligamento que segura a estabilidade do ombro. Com essa notícia, a depressão quase me pegou, primeiro porque eu não podia mais surfar nem na marola, e segundo, porque eu estava me sentindo muito distante do mundo que eu sempre pertenci e almejei. A opção cirúrgica também me incomodava e foi aí que eu e minha mulher começamos a pesquisar sobre opções alternativas.
Lembramos de uma amiga que nos contou sobre a cirurgia espiritual de sua mãe numa viagem que fizemos juntos há alguns anos. Esta lembrança nos tocou e entramos em contato com ela. Em fevereiro de 2016, fiz uma cirurgia espiritual em uma casa de energia surreal e mágica, entendendo que, em particular, havia me machucado por estar vivenciando um desalinhamento emocional.
Não sou uma pessoa religiosa, mas acredito muito na espiritualidade e admiro o que há de mais belo e comum em todas as religiões: o amor. Essa cirurgia também me ajudou a entender a importância do amor, e foi com ele que fui me tratando dali por diante. Passei a rezar mais; falar mais com Deus; passei também a agradecer e a pedir minhas vontades. Passei a levar mais a sério o que realmente era importante: o amor ao próximo, o amor com tudo. Alinhei e agradeci essa aceitação com ininterruptas sessões de fisioterapia com o Marquinhos, no Guarujá.
Dois meses depois da cirurgia, em abril de 2016, consegui voltar ao surfe e, mesmo com meu ombro ainda comprometido se exposto a impactos e movimentos bruscos, sentia que estava melhorando. Meu corpo progredia e, principalmente, minha mente estava se aquietando. Eu estava ficando mais leve e tudo parecia progredir. Logo fui liberado da fisioterapia do Marquinhos e promovido para os treinos físicos com meu personal Carlos Brandão, que desenvolveu treinamentos irados específicos para a minha recuperação gradativa dentro da Flex Academia. Entendi que me tornei refém dos treinos de fortalecimento, principalmente nas regiões que já apresentavam suas avarias. Essa consciência corporal foi um dos maiores presentes que ganhei nessa fase.
Em julho de 2016, eu já estava surfando os swells de Maresias com minhas guns para treinar a remada. No frio do nosso inverno, havia horas em que meu ombro não doía, mas em outros momentos eu sentia um tremendo desconforto. Até que chegou a temporada de Nazaré, e pela primeira vez me programei para essa viagem sem acompanhar um swell. Compramos a passagem para o dia 24 de outubro com um mês de antecedência, no intuito de chegar para treinar e sentir como eu iria reagir. Eu continuava pedindo para que Deus nos guiasse da melhor forma e aconteceu até algo engraçado. Eu, que sempre viajava um dia antes do swell para surfar as bombas pelo mundo, desta vez, quando cheguei uma semana antes do meu voo, apareceu um grande swell para Nazaré, exatamente um dia antes da minha chegada em Portugal, então aceitei.
Se foi uma mensagem não sei, mas eu estava chegando depois de todos pegarem altas. Não sei como, mas mesmo assim eu estava em paz. Seria esse um teste para o meu ego. A verdade é que eu estava diferente, percebia que aquela leveza que havia trabalhado durante o último ano estava fazendo muito bem para mim. Antes de eu voltar a pensar em surfar qualquer onda grande, eu estava evoluindo, pessoalmente, fora da água. Surfei durante minha temporada toda em 2016. No começo bem receoso, mas fui numa crescente e de repente meu ombro já não doía mais. Meu consciente ainda estava preocupado com ele, mas dia após dia fui me esquecendo e colocando este problema no “arquivo morto” do meu inconsciente. Durante o tempo que passei em Nazaré, alguns swells grandes aconteceram, mas nenhum gigante. Voltei para o Brasil no meio de dezembro muito contente e empolgado de ter reestabelecido novamente uma confiança naqueles mares e já estava pronto, aguardando um swell gigante.
O ano de 2017 começou e eu estava ainda mais psico nos treinos. Emagreci 5 quilos que me fizeram lembrar de quando eu era bem mais novo. Essa era a colheita de todo meu comprometimento com meu personal. Sentindo essa boa fase de novos fluidos e gratidão ao aprendizado, chegou, junto com o carnaval, uma previsão gigantesca para Nazaré. Embora o vento fosse o fator duvidoso da previsão, em meio a uma atualização e outra, ele perdeu a intensidade e ficou apenas com 6 nós de maral. Foi quando não hesitei e agilizei logo a passagem para, enfim, chegar um dia antes do swell.
Ainda no Brasil, vendo a previsão gigantesca, mas com a qualidade questionável, eu não sei como, mas estava mais tranquilo do que anos atrás, quando era frequente o meu ritmo frenético com as bombas. E essa tranquilidade me fazia sentir pronto. Físico e mentalmente preparado. Acreditei que teríamos um bom momento durante o dia do swell e que, depois do trabalho árduo que fiz durante estes últimos tempos, estava pronto para vivenciar a mágica de Nazaré gigante outra vez.
Meu voo era para embarcar no domingo, e o swell seria terça e quarta feira de Carnaval. De repente, no sábado, a previsão piorou. O vento, que na sexta-feira estava entre 6 a 8 nós, passou para 15 a 16 nós maral, e nessas condições, o surfe poderia ser muito prejudicado.
Por outro lado, minha passagem estava comprada e minha expectativa para reviver Nazaré estava lá em cima. Não tive dúvidas, pedi para Deus me guiar e me conectar com o que fosse melhor para mim. Com esse sentimento, embarquei para Portugal no domingo rumo ao swell histórico de Carnaval.
Uma publicação compartilhada por Rodrigo Koxa (@rodrigokoxa) em Mar 10, 2017 às 4:29 PST
No dia do swell, a terça-feira amanheceu muito feia. O vento maral estava fortíssimo e picos de chuva forte nos faziam questionar sobre se o rolaria ou não o surfe naquele dia. Só uma mudança drástica poderia salvar o nosso cenário. Às 9:40 horas o tempo fechou e, como um tufão, chegou uma chuva forte – ambiente que me desanimou ainda mais. Entretanto, depois que a chuva acalmou, o vento foi diminuindo e a nova perspectiva animou a mim e a minha equipe, então partirmos rumo ao mar.
Contudo, rapidamente levou um tempo, e foi neste intervalo que uma chuva forte caiu novamente. Eu já estava no jet ski a caminho do outside e a visibilidade estava muito prejudicada. Nesse momento, toda galera que estava no mar passou por nós, indo embora, e o Garrett McNamara disse que o mar havia piorado e que o italiano Francisco Porcella havia surfado uma onda mutante bem naquele momento rápido em que o vento acalmou.
Depois que a chuva forte passou, eu, que já estava no outside, esperei por aquele bom momento em que o vento diminuísse, como ocorreu anteriormente, mas este momento nunca chegou. Esperei das 12 às 15:30 horas e nada. O tempo que eu e meu parceiro Sergio Cosme tentamos surfar na corda foi tão horrível que preferimos abortar o surfe e escolhemos admirar a natureza bem de pertinho, vivenciando aquele espetáculo. Mesmo me sentindo privilegiado por poder viver aquele momento, eu não poderia deixar de me questionar o porquê daquela situação. Opa, eu sabia que não podia reclamar. Então olhei para o céu, agradeci a Deus e disse a ele que sim, eu aceitava a sua vontade, e mais, que sua vontade seria também a minha, pois eu estava ali para confiar e ser feliz. Pelo tamanho do swell e depois de estudar bem a previsão, eu tinha certeza de que teria uma nova oportunidade na manhã do dia seguinte, com o vento terral que acaba deixando a onda mais em pé.
Acordamos super cedo, na manhã do dia 1 de março, e fomos rapidamente para o mar. O plano era ficar esperando as maiores ondas que viessem no primeiro pico, onde a esquerda é bem maior por vir direto do canhão, encostada ao desfiladeiro. Foi seguindo este protocolo que fui presenteado pelo meu Deus. Eu queria, pedi, eu vivi novamente momentos que só eu sei o quanto eram importantes para mim. Agora eu espero estar me instigando novamente, pois essas foram as melhores ondas que surfei nos últimos dois anos. Minha prancha estava incrível, assim como a irmandade de toda a nossa equipe.
Esse canhão da Nazaré me ensinou muito na vida. Lá passei muitos momentos irados, muitos momentos difíceis, momentos de alegria em total conexão com minha alma e momentos de medo e dúvidas que me obrigaram a me transformar, mas o amor que sinto em estar sempre nesse contato com o oceano torna tudo mais prazeroso.
Hoje eu estou em paz com o meu coração e continuo com o sentimento de total respeito por ti, Nazaré. Percebi como realmente amo surfar essas ondas e, analisando o conflito de sentimentos vivi nesses dias, no caso, como fiquei chateado de não ter encontrado um momento favorável de surfe num dia, e, como eu estava eufórico, feliz e super conectado com minha alma no outro, entendo que tudo tem um propósito e um sentido.
Acredito ter reacendido uma chama que estava meio apagada dentro de mim, em meio a dúvidas e desconfianças. O que ficou mais claro depois deste carnaval em Nazaré foi que não posso fugir do que eu mais gosto de fazer na vida. O autoconhecimento nos permite perceber que, quando não fazemos o que nossa alma pede, nos magoamos interiormente. De fato, Nazaré não para, e muitos outros swells gigantes virão para que possamos nos superar novamente, e assim espero que aconteça.
Agradeço a Deus, ao meu parceiro Sergio Cosme e à minha mulher psicóloga Aline Cacozzi, que, me conhecendo melhor do que ninguém, me ajuda de forma ímpar conversando muito comigo para que eu possa cada vez mais entender o valor que tem a nossa essência e, é claro, a todos os brasileiros presentes nessa sessão – Alemão de Maresias, Maya Gabeira, Everaldo Pato, Lucas Chumbinho, Pedro Scooby, Marcelo Luna, entre outros.
Feliz e sempre aprendendo: Go Bigger”