O big rider Laudinei Neves, mais conhecido como “Dê da Barra”, esbanja disposição em sua oitava temporada havaiana.
Enquanto aguardava a chegada de um novo swell no North Shore de Oahu, o catarinense trocou uma idéia com Bruno Lemos, correspondente do Waves no arquipélago havaiano.
Na entrevista, Dê comenta a temporada de ondas em Oahu, a prática do tow-in e a frustração de ter sido pouco valorizado pela mídia em 2004, quando surfou uma onda estimada em 25 pés na praia do Cardoso, Farol de Santa Marta.
Quantas vezes já esteve no Hawaii e como descreveria esta temporada?
Minha primeira temporada aqui no Hawaii foi em 1998. Vim mais cinco temporadas e depois dei uma parada devido às dificuldades financeiras, pois estava sem patrocínio, o que impossibilitava minha vinda. Agora, com os patrocínios da Confraria das Artes, Bad Boy, Restaurante Cirrus, Academia Forma, Suco da Saúde e Tick Deck, consegui vir em mais dois invernos.
Posso descrever que assim que cheguei neste inverno, lá pelo dia 5 de dezembro, rolou o primeiro big swell da temporada, e depois choveu muito e não deu boas ondas. Porém, na segunda semana de janeiro as condições mudaram, quebrando um swell épico, perfeito para o tow-in nos outsides dos reef breaks. Na semana passada, tivemos um swell perfeito para Pipeline e Backdoor.
Você pratica tow-in no Brasil desde 2000. Em sua opinião, quais as principais diferenças, dificuldades e facilidades em praticar tow-in aqui no Hawaii?
As diferenças já começam pelas condições do mar. Moramos no Atlântico e temos dificuldades em pegar grandes swells no Brasil. Aqui no Hawaii, a oportunidade de você praticar o tow-in em ondas realmente grandes é bem maior do que no Brasil. A dificuldade de um país para outro em relação ao preço dos equipamentos é enorme. Aqui é bem mais barato e isso dificulta alguns surfistas no Brasil que curtem o esporte, impossibilitando de comprar o equipamento. Falando em facilidade, o piloto que já sai treinado do Brasil no beach break leva uma grande vantagem, já que a maioria dos picos possui canal, o que facilita um pouco o drive. Mas não se iluda com isso; o tamanho das ondas não permite que você relaxe.
O que acha dos surfistas que costumam praticar tow-in em ondas não tão grandes e que poderiam ser facilmente surfadas na remada?
Lá vem aquela velha polêmica!! Uma coisa que não acho legal é jet-ski perto de pessoas que estão remando. Isso não é certo. Mas você nunca vai levar um piloto que está aprendendo a um mar de responsa. É claro que ele vai perder o jet-ski. Mas, para quem está aprendendo, tem de ter uma área neutra, longe dos surfistas na remada. Às vezes fazemos teste de equipamento em ondas menores no Brasil, e tem aquele surfista que já não está mais na pilha da remada e outros também que nunca remaram na vida. O tow-in fez com que algumas dessas pessoas voltassem ao surf.
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Quais foram as maiores ondas que você já surfou até hoje?
Sempre tive vontade de surfar Jaws. Era algo pessoal mesmo, queria provar para mim mesmo que isso era possível, e no ano passado o Jorge Pacelli me deu a maior força em Maui.
Na primeira semana de janeiro, quebrou um swell de 40 pés e não tenho dúvida de que foram as maiores ondas já surfadas na minha vida. Na última semana, eu e meu parceiro César Oliveira, o Cesinha, pegamos um swell de 25 a 30 pés nos outsides reefs de Backyards e Phantons.
No Brasil, a maior onda que já surfei foi na praia do Cardoso, Farol de Santa Marta, onde tenho o título comprovado, com documento da ASP norte-americana, de maior onda surfada no litoral brasileiro, feito registrado pelo cinegrafista Marcos Dias.
É uma pena que isso não tenha muito valor no Brasil, talvez por eu não ser um surfista tão conhecido. Achei que a mídia especializada ia dar uma atenção maior. Quando cheguei aqui nos Estados Unidos, fui para a famosa salinha da imigração e já vieram logo com um questionário, perguntando quem eu era, para onde estava indo e o que iria fazer.
Daí, comecei a me identificar, me apresentei como surfista profissional e também falei que era life guard rescue pilot e que tinha recorde brasileiro. Ele olhou pra mim e falou que ia checar isso na internet. Tudo o que falei bateu, ele olhou para o meu passaporte, carimbou e, em seguida, me disse “esse é o tipo de pessoa que nós precisamos nos Estados Unidos. Go and save same people”. Acho que o Brasil perde com isso, vários talentos brasileiros acabam optando por morar nos Estados Unidos.
E durante esta temporada, como você tem passado?
Só tenho a agradecer a Deus, porque todas as maravilhas vêm do Senhor. Tenho passado bem, estou melhorando meu inglês, pois estou morando com um gringo. Daí, tenho que falar todos os dias. Eu gosto do North Shore não só pelas ondas, mas pela qualidade de vida e treinamentos que faço sem onda. Este lugar é abençoado por Deus. Queria agradecer ao Marcelo Coverdeio da Ilha, do Rio de Janeiro, pela estadia aqui no Hawaii. O Rico Grunfeld, o Marco da Bad Boy, minha mãe Nathalia Pretinha… tem tanta gente pra agradecer que vai faltar espaço.
Também te vi botando pra baixo em Backdoor, num dia bem grande. Como foi essa experiência?
Acordei nesse dia às 5 horas da manhã e fui para Hammer Heads fazer town-in, pois estaria clássico. Fui para esse pico, em Mokulea, altas ondas longas e perfeitas quebrando para os dois lados. Ficamos quase umas três horas e na volta para o North Shore já sabia que Pipeline e Backdoor estavam daquele jeito. Cheguei ao pico e percebi que o clima estava tenso, grande e cabuloso. Sinto-me mais seguro para o Backdoor porque sou regular e gosto de vir do Banzai. Peguei essa primeira onda, mas não consegui concluí-la inteira, pois o swell era bem de oeste. Logo em seguida, veio outra bem maior lá de Banzai. Tive o azar de um havaiano dropar em minha frente, impedindo minha passagem. Sabe como é, né, Bruno? Somos criados no sufoco… vale a pena lembrar aquela seqüência no Backdoor, “Brasileiro não identificado arrepia no Backdoor”, revista Fluir, novembro de 1998. Foi um dia de muito surf na ilha.
Dê um o toque às pessoas que gostariam de surfar ondas grandes aqui no Hawaii.
Queria dar um toque às crianças, principalmente adolescentes, para ficarem longe das drogas. Tenho visto filhos de brasileiros naturalizados havaianos que são promessas do surf mundial. Recebi um convite de uma ONG em Florianópolis, antes de vir ao Hawaii, para dar uma palestra numa favela em Floripa e apresentar um DVD da maior onda surfada no Brasil. Acho que a molecada do morro tem o maior talento e, se depender de mim, essas crianças merecem uma oportunidade. Queria parabenizar o projeto do músico e compositor Jack Johnson, no colégio Sunset School Recicle Hawaii. Àqueles que querem pegar ondas grandes no Hawaii, vai se preparando que o negócio aqui é pedreira. Aloha!



