Danilo Couto aposta suas fichas no XXL

Único brasileiro na disputa pela bolada de US$ 60 mil pela maior onda da temporada, o baiano Danilo Couto vive a expectativa de ver sua atitude reconhecida e levar o título do Billabong XXL 2004, graças às gigantescas ondas surfadas em Jaws, Hawaii, no épico dia 10 de janeiro, quando foram surfadas algumas das maiores ondas já vistas.

 

Nessa entrevista exclusiva feita em Oahu, Danilo Couto, parceiro de Rodrigo Resende no tow-in, conta ao correspondente Bruno Lemos um pouco de sua vida no Hawaii e as dificuldades para correr atrás das gigantes sem contar com um forte patrocinador, mas com o apoio de grandes amigos.

 

Como foi sua reação ao ser confirmado entre os finalistas do XXL Billabong?
Fiquei muito satisfeito e honrado, pois apesar de já esperar pela notícia, a confirmação é

o que vale, assim como o resultado final e o prêmio.

 

O que achou das outras ondas escolhidas? Alguma surpresa?
Acho que este ano está interessante e diferente por alguns motivos. Pela primeira vez um backsider está na disputa final, tem a esquerda de Jaws surfada por um goofy-footer, o que também nunca tinha entrado na disputa. Na minha opinião, os cinco finalistas sairiam de

Jaws, pelo tamanho do mar. Porém, teve a surpresa de Cortes Bank, que eu não esperava que fosse estar entre as finalistas.

 

Quem são os maiores concorrentes e porque?
As ondas surfadas por Pete Cabrinha e Ian Walsh são sem sobra de dúvidas minhas maiores concorrentes, são ondas gigantes também.

 

Qual o tamanho de sua onda?
Que perguntinha difícil! Até hoje não existe uma medição oficial de ondas, nenhum programa de computador ou algo bem preciso. Acho que a marola tem pelo menos uns 70 pés de altura, o tradicional 35 pés havaianos. Mas, como diz o ditado, sou suspeito para falar neste assunto. Na medida do Monstro, acho que seriam uns 2 pés sólidos … lá na valinha da Barra… (risos). E vocês, comentaristas do Waves. Qual tamanho para vocês? Mandem os comentários para o fórum.

 

Qual prancha usou naquele 10 de janeiro em Jaws?
6’3”, muito pesada pra segurar a pressão .

 

Você acha que pode levar alguma desvantagem no resultado por ser brasileiro e relativamente desconhecido da mídia internacional?
Espero que não! Os brasileiros já mostraram há muito tempo que são campeões mundiais no quesito onda gigante. Temos um time fortíssimo completo e de ataque-surpresa! De norte a sul, com titulares e reservas de altíssimo nível. E esta onda só comprova isso. Esperamos mais esse  título. Então, na verdade isto deveria ajudar. Porém, a minha única chance real de vitória é o julgamento ser justo e imparcial. Vou torcer também para o pernambucano Alexandre Martins, que também está representando o Brasil, e que tem boas chances de ganhar na categoria maior onda na remada em Mavericks. Vumbora, Blau! Atividade aos gringos, se eles vacilarem, são vários gols!

 

Como você consegue estar no lugar certo e na hora certa das ondas grandes? Como consegue os recursos financeiros?
Dava pra escrever um livro com esta pergunta, mas vou tentar simplificar a situação. A missão dos últimos anos é cercar os maiores swells entre Hawaii e Califórnia. Os custos são altos, passagens em cima da hora, jet-ski, manutenção, pranchas normais e de tow-in, equipamentos… mas não é nada impossível alcançar, tanto que tenho feito nos últimos dois anos sem ninguém bancando integralmente, apenas apoio. Trabalho muito entre as sessões de surf para pagar minhas contas. O problema é quando dá muita onda e complica a situação. Aí, entram os velhos e bons amigos, que ajudam de alguma forma. O Monstro é meu parceiro e não vai deixar o irmão passando fome antes de um swell gigante. Também não dá pra deixar o jet sem gasolina ou óleo. Tenho a sorte de ter uma equipe de fé. Yuri Soledade também joga em nosso time. Surfa muito, é um grande amigo dos bons tempos na Bahia, que me acolheu aqui no Hawaii quando pisei nas ilhas. Ele mora em frente a Jaws e está na mesma batida. Cada um tem um papel na equipe. Na verdade, existe cativeiro para a equipe em vários lugares, Mavericks, Oahu, Maui, Tahiti, Brasil. E a lista dos componentes é infinita, Marcio Freire, Biju, Capilé, Daniel Hardman,Wilson Nora… É a comunidade com falta de  recursos financeiros, mas com humildade e vontade de sobra para atacar as morras, e que se ajuda a sobreviver às mais diversas condições.

 

Como começou a surfar ondas grandes e a fazer tow-in?
Meu primeiro mar grande foi no Espanhol, um pico cheio de pedra, perto de minha casa em Salvador. Eu tinha 11 anos e o mar devia ter uns 5 pés. Mas, pra mim, naquele momento era grande. Cheguei ao Hawaii em dezembro de 1996. Passei o primeiro inverno em Maui, onde fiz a base para o North Shore. Gostava muito quando o mar subia. Cai pela primeira  vez em Waimea em feveveiro de 1998. Fiz tow-in pela primeira vez em Mavericks em dezembro de 2000, com Rodrigo e Burle, e tinha uns 30 pés. Nos últimos dois anos passei a me focalizar mais no tow-in..

 

Onde estão as melhores ondas para o tow-in?
Existem varias, muitos outsides aqui no Hawaii. Cortes Bank parece ser muito bom, espero que apareça uma oportunidade para ir lá. Todas ondas grandes e tubulares são boas pra tow-in, logicamente quando não tem ninguém remando. Jaws ainda é a rainha de todas. O Monstro que o diga, pois foi coroado campeão mundial pela rainha!

 

Como se prepara física e psicologicamente para surfar ondas grandes?
O psicológico é conseqüência do preparo físico. Quando você está na atividade física forte, o psicológico está fortalecido. Muito surf é a atividade principal. Porém quando o mar está ruim ou muito pequeno, gosto de remar, de canoa ou de prancha 12 pés no mar de 1 pé. Há quase três anos tenho praticando canoagem havaiana. Montamos, inclusive a equipe que representa o Brasil na travessia entre Molokai e Oahu. Gosto também de jiu-jitsu e de exercícios em geral, como alongamentos, bicicleta, natação, um pouco de tudo, além de uma alimentação rica e em quantidade.

 

O que te dá mais prazer, surfar de tow-in ou paddle-in?
Os dois me dão muito prazer. Remar com uma 10’6” num mar de 20-25 exige muita técnica, leitura de onda e coragem. Remar e botar pra dentro de um tubo gigante também, na Indonésia ou em Pipeline. Surfar de tow-in na parte crítica de uma onda de 35 pés em alta velocidade e completar com sucesso é muito intenso. É uma combinação das duas situações  acima. Uma completa a outra e o tow-in é a evolução do big surf puro e real. Qualquer uma das três situações, estando o mar em condições perfeitas e extremas, dão muito prazer.

 

Quais teus planos agora?
Viver na paz, com saúde e surfando muito, em marolas ou morras.

 

Confira a galeria de fotos de Danilo Couto.

 

 

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