Por Rodrigo Geocks
Sabe aquele frio na barriga, que indica algo importante a acontecer? Foi assim que o surf entrou e mudou a minha vida. Exatamente no ano de 2002, ano do pentacampeonato e do adeus para Chico Xavier, quando eu tinha 32 anos.
Aí eu entendi como um esporte pode mudar a vida de alguém. Vi no surf algo que transcende o esporte em si. O surf proporciona uma conexão, uma forma de ver a vida diferente. No mar, você entende que faz parte de um todo e se distancia da cultura antropocentrista que domina a tudo e a todos.
Eu era gerente de vendas em uma grande empresa, depois de uma carreira bem legal (com menos de 30 anos, liderava quase 2.000 pessoas). Estava ganhando um bom dinheiro, mas aquele frio na barriga não me deixava quieto. Era uma vontade louca de mudar de vida, voltar a estudar, aprender coisas novas, trabalhar com novos desafios. Foi assim que mudei, mas mudei mesmo. Pedi demissão, desfiz um casamento e resolvi mudar de casa. O medo da mudança caminha de mãos dadas com o medo de errar, mas, na vida, é impossível não errar. Acredito que o desafio é acertar mais que errar, assim a nossa vida progride.
Fui a procura de uma casa para morar, já que não queria apartamento e sim uma casa que eu pudesse pisar no chão de terra. Comecei pelo Horto (um bairro no pé da floresta, na zona sul do Rio) e fui parar na Praia da Macumba. O templo do surf carioca. Passei lá, vi uma placa e fui morar numa casa que era o máximo (dependendo do que cada um acha “o máximo”, pois um ex-colega de trabalho passou lá e disse que não era compatível com o “meu nível”). Simples, em frente à praia, com uma mistura de pedras, tijolo e madeira, e o belo chão de terra com coqueiro e pitangueira de brinde. A janela do meu quarto era enorme e viva cheia de respingo de água do mar, de tão perto era da areia. Ali era o Maracanã do Surf, lá eu via Olimpinho fazendo o que queria com sua longboard, Daniel Friedman, Rico, Phil Rajzman… Meu Deus, eu que desde adolescente sempre sonhei surfar, mas achava que não conseguiria por ser gordinho e desengonçado (o esporte nunca foi um dos meus pontos fortes). Estava alí, no templo do surf, agora chegou a minha vez, já que eu tinha deixado a baixa autoestima lá na adolescência, comprei um longboard.
O clima da Macumba era super “friendly”, meus erros e raberadas foram tolerados e a galera antiga dava muita força para esse iniciante desengonçado. Trabalhava como consultor de negócios, ficava 3 dias em SP e voltava, literalmente, voando para Macumba. Não queria sair de lá, nenhuma viagem para Paris ou Nova Iorque me tirava de lá. O mar é um excelente professor. A escolha da onda certa, saber “ler a sua hora”, usar a energia da onda a seu favor, o respeito ao todo e o entendimento que somos apenas parte (inspiração Kapriana)! Tudo isso trouxe muito aprendizado, o surf, além de ser uma terapia, está diretamente ligado ao meu desenvolvimento pessoal na busca por equilíbrio e sabedoria. Dá até para fazer um excelente paralelo com o mundo empresarial, mas isso é papo para um outro dia.
Além de tudo, as surf trips são experiências únicas. Eu nunca vi nada igual. Vc já viu dois amigos que gostam de basquete marcar uma viagem a Porto Rico para jogar na praça central da cidade?
Fui para Chicama (que esquerda peruana é essa?), Califórnia e, no ano passado, levei minha nova paixão (um StandUp 9.0) para surfar sete minutos de onda na pororoca! Onda que dividi com 2 amigos (da antiga galera da Macumba) e o Robby Naish, americano que faz uma das melhores pranchas do mundo, e que gravava um vídeo para campanha publicitária de um energético.
Hoje, casado com uma mulher excepcional, um filhote de 5 anos e uma enteada de 15 que ganhei de presente, moro na Barra da Tijuca. Confesso que foi difícil me adaptar, até porque me acostumei a dividir ondas na Macumba e essa prática não é tão comum por aqui. Vivendo e aprendendo. Virei empresário e meu SUP é meu parque de diversões (junto com o filhote que já pega altas ondas comigo). Aliás, que frio na barriga é esse que estou sentindo novamente?