O carioca Pedro Robalinho, 27 anos, é atualmente um dos técnicos mais requisitados pelos surfistas do circuito brasileiro.

 

Formado em Educação Física, criou em 1998 com Henry Ajdelsztajn (seu sócio) o CADES – Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento do Surfe – um projeto dividido em dois setores: Escola de surf  (educação através do esporte) e treinamento de atletas (área de preparação física e psicológica e treinamento técnico-tático desportivo).

 

No início da carreira, Robalinho treinava apenas surfistas amadores, como Adilton Mariano, Gustavo Fernandes, Leandro Bastos, entre outros. Após o crescimento de seu trabalho, iniciou o treinamento com os principais surfistas cariocas, considerados como os grandes talentos da nova geração do surf brasileiro, entre eles Léo Neves, Pedro Henrique e Brigite Mayer.

 

Junto com Andréa Lopes, iniciou em 2002 um relacionamento que resultou em uma nova conquista, o terceiro título de campeã brasileira de surf profissional. Atualmente está treinando alguns dos principais surfistas da elite do surf nacional, como Sávio Carneiro, Lucinho Lima, Thaís de Almeida e Silvana Lima.

 

Com isso, está somando ao seu currículo um invejável número de títulos em diversas categorias. Surfista há muitos anos, o profissional está atuando em um projeto que tem como principal objetivo calcular o esforço de remada de um surfista para que se possa saber seu nível de condicionamento físico, segundo ele, um estudo jamais feito em toda a história do esporte.

Como surgiu a idéia de criar o CADES (Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento do Surfe)?

 

O CADES surgiu em março de 1998, através da união de dois jovens estudantes de Educação Física que tinham um sonho em comum: trabalhar para o surf e viver surfando.
Eu já trabalhava com atletas desde 1996 e o Henry Ajdelsztajn tinha uma idéia de fazer sua monografia sobre algum assunto ligado a este universo maravilhoso. Acabamos juntando as forças e fizemos a monografia juntos. O estudo foi sobre as escolas de surf que existiam na época no Rio de Janeiro. Pesquisamos a formação dos instrutores, as metodologias de ensino, entre outros temas. Somos sócios há mais de 5 anos e o trabalho está crescendo. Já realizamos cursos, vários campeonatos, palestras e estamos organizando o Circuito Universitário Carioca.

 

Com quantos atletas começou e quais já passaram pelo centro de desenvolvimento?

 

Eu comecei o trabalho de técnico em 1996com um único atleta, o carioca Thales Salgado. Ele era amador e estava se tornando profissional. Depois de alguns resultados, outros surfistas começaram a se interessar pelo trabalho. A partir disso fui desenvolvendo um treinamento com Léo Neves, Bruno Coutinho, Leandro Santos, Pedro Henrique, Marcelo Trekinho e outros surfistas da nova geração da zona sul carioca. Já trabalhei com a Brigitte Mayer e com a Andréa Lopes no seu terceiro título de campeã brasileira profissional.

 

Quais são os surfistas que você está trabalhando atualmente?

 

Sávio Carneiro, Claudemir Lima, Lucinho Lima, Thiago de Souza, Adilton Mariano, Gustavo Fernandes, Leandro Bastos, Raphael Guimarães e Daniel Hardman entre os homens. Entre as mulheres estão Silvana Lima e Thaís de Almeida, lembrando que a Tita faz parte da equipe nas viagens internacionais.

 

Qual o tipo de treinamento aplicado para as competições?

 

O treinamento consiste em treinos diários nas praias do Recreio, Prainha, Grumari, Macumba e outros picos. Fazemos também alongamento, musculação e natação na academia Aquafitness. A equipe ainda conta com as orientações do médico orto-molecular Hélio Ventura e do fisioterapeuta Tom Freitas. Durante um bom tempo, ainda tivemos um trabalho desenvolvido pelo psicólogo Narciso Mello, que sempre nos ajudou a solucionar alguns pontos nos treinos diários da equipe.

 

Quais são os principais requisitos para se tornar um bom técnico?

 

Uma personalidade forte e de liderança somada a uma formação direcionada para a carreira, como o conhecimento das ciências do esporte (Educação Física) e outras línguas, como o inglês, espanhol e o francês. Também considero fundamental a prática do surf como rotina.

 

Como foi o início da relação de trabalho com os surfistas do Nordeste?

 

As circunstâncias foram acontecendo. O Claudemir Lima conhecia o Thales Salgado e veio passar um tempo no Rio de Janeiro, nos conhecemos e ele demonstrou interesse em ficar. Depois de algum tempo eu já estava morando em uma residência maior na praia da Macumba e o convidei para morar nesse lugar e treinar comigo. Depois que a maioria dos surfistas nordestinos percebeu a evolução do Bibi e a oportunidade de treinar com um professor, vários migraram para a cidade, foi uma união de interesses. Do meu lado, passava a ter uma equipe ainda melhor, com atletas de nível altíssimo. Em relação aos surfistas, seria a chance de conseguir um lugar com melhores oportunidades. Todos que vieram naquele período fazem parte da elite nacional atualmente.

 

Como funciona o estudo que você está desenvolvendo na piscina e que visa  medir o esforço do surfista na remada?

 

Eu fiz pós-graduação em Fisiologia do Exercício na Universidade Gama Filho e busquei dar seqüência aos estudos ligados ao surf nesta área de pesquisa. Sabe-se que existem poucos trabalhos escritos sobre nosso esporte e que dependemos disso para que possa acontecer o desenvolvimento maior dos sistemas de treinamento para os atletas. Com esse trabalho que dei início em 2001, poderemos quantificar a potência anaeróbia do atleta (explosão), com prancha, simulando uma situação mais real de desempenho na remada. Os testes são aplicados em uma piscina e também em laboratório. Depois os dados são analisados e pode-se saber o nível de condicionamento físico do atleta nesta qualidade física, que pode determinar até o vencedor de uma bateria. Quando este trabalho estiver concluído, teremos dado um passo largo na direção de melhores prescrições de treinos para os surfistas, além de podermos comparar os resultados de cada fase do trabalho e acompanhar melhor a evolução da equipe. Outro fator positivo é a facilidade na aplicação do teste, pois bastam um relógio, duas bóias e uma piscina de 25 metros.

 

O CADES é dividido entre a parte técnica – feita por você – e a escolinha de surf dirigida pelo Henry. Como é administrado esse trabalho?

 

No começo, em 1998, eu trabalhava na parte da escola também e isso se deu até o ano 2000 aproximadamente. A partir daí, estava ficando pressionado a me dedicar mais aos atletas. Esse foi o ponto marcante para que dividíssemos as tarefas e determinássemos a linha de crescimento do CADES. Ainda hoje fazemos questão de manter as duas partes trabalhando juntas, o aprendizado e o desenvolvimento.

 

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Você está trabalhando com as melhores atletas do país. Como está sendo feito esse trabalho?

 

É um trabalho bem gratificante, já que são duas atletas incríveis. A Silvana é minha pupila, uma vez que eu a acompanho durante cada dia da semana em seu treinamento, mas a Tita também faz parte da equipe nas viagens ao exterior. As duas são muito aplicadas taticamente e facilitam meu trabalho com o talento que possuem. Eu acredito no sucesso das duas na próxima temporada do WCT.

 

A que você atribui esse montante de resultados positivos com os atletas da equipe?

 

Sempre se deve a um conjunto de fatores, mas a raça e a determinação estão entre os principais. Eu tenho um espírito de competição muito grande e sempre procurei passar essa atitude para os meus atletas. A motivação é fundamental para um bom desempenho e acredito muito na importância das intervenções durante as baterias também. Também acredito muito na força do trabalho que faço com meus atletas. Apesar das dificuldades que encontramos no Brasil, pude conseguir ótimos resultados. Entre eles, posso destacar os títulos brasileiros do Adilton Mariano em 2001, quando foi campeão nas categorias  Júnior e Open, o título profissional carioca do Bibi (2002) e seu ótimo desempenho no Super Trials em 2001, quando foi vice-campeão brasileiro. Este ano, o Sávio Carneiro teve seu melhor resultado da carreira, ficando em sétimo no ranking do SuperSurf, e o Lucinho Lima também, em 12o SuperSurf. O Leandro Bastos foi campeão Panamericano e fez final no Mundial Amador da ISA. As campanhas da Silvana Lima, com uma vitória, uma semifinal e uma quarta-de-final, e do Gustavo Fernandes, semifinalista na Inglaterra e com um índice altíssimo de aproveitamento nas baterias nos eventos válidos pelo WQS da  Europa. O bicampeonato no Super Trials e o vice-campeonato do SuperSurf logo no primeiro ano da Silvana… Enfim, acho que o que acontece é que eu tenho uma qualidade humana incrível nas mãos e, aliando isso ao trabalho que fazemos todos os dias, estamos colhendo os frutos de uma equipe vitoriosa no CADES.

 

Já que comentou sobre a intervenção nas baterias, o que é dito em termos de táticas para seu atleta durante a competição?

 

Isso pode variar muito com cada atleta, já que uns gostam mais e outros menos desta prática. Já tive momentos de imensa satisfação ao conseguir entrar em sintonia com o atleta na água e ajudá-lo a vencer, seja com o posicionamento ou um incentivo moral ou até passando informações que não estão chegando até ele por motivos de som ou qualquer outra falha técnica. É certo que essa prática pode mudar a história de uma bateria e a forma como é feita vai depender  muito das condições do mar e até da geografia da praia, do vento, etc. Me lembro bem de um caso em uma bateria do Sávio Carneiro contra o Marcelo Trekinho no SuperSurf 2002, em Itacaré (BA). O Trekinho vinha liderando a bateria com folga e seria quase impossível virarmos a situação a nosso favor em apenas uma onda, pois também não tínhamos muito tempo. O Sávio pegou uma onda e seu desempenho não estava bom. Percebi que seria melhor trocar de prancha, pois havíamos treinado e sabia que a outra se encaixaria naquela ocasião. Rapidamente chamei o Sávio e já dentro da água lhe entreguei a prancha. Aquela atitude trouxe uma motivação ao atleta, pois ele sabia que podia confiar em mim. Não deu outra, logo na primeira onda ele surfou bem melhor e as notas começaram a surgir. No final conseguimos a virada e a bateria foi bastante comentada, pois foi uma virada “daquelas”. Há atletas da minha equipe que preferem não se preocupar com a sinalização na areia. Neste caso, procuro estar atento e deixo que ele se mostre interessado em receber alguma informação, já combinada anteriormente. Ou seja, há de haver o respeito à individualidade do atleta. O treinador tem de ser flexível. Em alguns casos é melhor nem “mexer” na  bateria e só ficar filmando para análise posterior.

 

Ainda existem reclamações em relação às falhas de julgamento nos circuitos nacionais?

 

Claro que existem (não só aqui, mas também nos mundiais) e dificilmente isso acabará, pois somos todos humanos e  temos a natureza influenciando diretamente nos resultados, já que cada onda é única e a subjetividade vai sempre estar presente nos campeonatos de surfe. Mas acho que já houve melhora neste aspecto e se nos esforçarmos mais, como já disse anteriormente, podemos chegar em um ponto onde juízes, atletas e técnicos falem a mesma língua em relação às performances. Além disso, gostaria de ver os nomes pesando menos no julgamento.

 

Um técnico é realmente indispensável na carreira de um atleta para conseguir bons resultados?

 

Acredito que seja muito importante e acho que pode ajudar em diversos fatores, ainda mais se este técnico tiver uma formação de Educador Físico. Neste caso os benefícios são ainda maiores e mais significativos. Imagine uma  pessoa que possa ser seu técnico e preparador físico e ainda te orientar em relação a sua alimentação, por exemplo. Qualquer atleta de alto nível precisa desse suporte.

 

Além de técnico, você atua como empresário dos atletas?

 

Este nunca foi meu objetivo, pois já desempenho diversas funções no CADES, mas devido à necessidade, acabei fazendo este papel para alguns atletas. Não é o que mais gosto de fazer, mas até que estou aprendendo bastante com isso, principalmente na área de relacionamentos com empresários.

 

Existe um trabalho focado na parte psicológica dos surfistas? Quem faz?

 

Durante um ano, aproximadamente, tive a ajuda indispensável do Narciso Mello, um psicanalista renomado no Rio de Janeiro, professor de Yoga, que me ajudou a desempenhar  meu trabalho de forma mais harmônica. Imagine o que aparece de conflitos pessoais e interpessoais dentro de uma equipe com nove atletas de culturas variadas e situações econômicas diferentes. Outro ponto importante é o fato de você ter a oportunidade de ser supervisionado por alguém que está de fora, com uma visão crítica e que pode te ajudar a melhorar na forma de intervir em cada situação específica com uma visão profissional a respeito. Em 2004, o Narciso vai ser uma peça fundamental na equipe e isso já é certo.

 

Atualmente os juízes estão valorizando as manobras com maior nível de dificuldade, como as variações de aéreos, por exemplo. Qual a sua opinião em relação a esses novos critérios de julgamento?

 

Acredito que o surfe já caminha nesta direção. O que falta é uma convenção de atribuição de valores a este tipo de manobras, ou seja, falta termos um estudo sobre as manobras e seus respectivos graus de dificuldade. O que acontece hoje é que poucos juízes no Brasil são verdadeiros surfistas, atuantes, e, além disso, não há congruência entre seus pensamentos e os dos surfistas, simplesmente porque não há “meetings” (reuniões) sobre julgamento, onde se possa ver as ondas e manobras em vídeo e discutir a respeito, fora das competições, como um evento para melhorar a qualidade de julgamento e reduzir a sua subjetividade. Isso seria muito bom para todos os envolvidos. Os técnicos, atletas e a comissão técnica estariam em maior sintonia e facilitaria o trabalho de todos, pois já estariam estabelecidos os critérios de forma bem mais detalhada do que é hoje em dia. Poderíamos até redigir um documento que demonstrasse o que ficou convencionado sobre aéreos e sua s variações e também sobre outras manobras. Na equipe, com certeza, iríamos nos basear nisso para direcionarmos o treinamento técnico. Seria uma evolução para o nosso esporte. Eu já dei a sugestão em reuniões da Abrasp e espero que um dia me dêem ouvidos.

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