Por Redação SupClub
A chegada do verão impulsionou mais uma vez o SUP. O stand up está em evidência. Nicole Pacelli foi capa da Folha de São Paulo, jornal com maior tiragem do Brasil; programas de TV, revistas de celebridades, entre outros canais de comunicação de massa, colocam a remada em pé novamente na categoria de “esporte da moda”.
Na esteira desse sucesso surgem novas marcas, “professores” sem experiência, sites “especializados” sem conteúdo e toda ordem de produtos e eventos ligados ao stand up paddle. O apelo do SUP é irresitível e obviamente atrai aqueles que estão mais interessados em lucrar do que em contribuir. O mercado, em princípio, agradece. Pois toda essa exposição, mesmo que em parte gerada de maneira artifical, sem profundidade, contribui para a expansão da modalidade.
No entanto, como ensinam praticamente todas as teorias econômicas, existem ciclos de expansão e retração e, sendo assim, a grande questão nesse momento é:
“Como garantir que esse sucesso tenha consistência e não transforme o SUP em mais uma febre passageira?”
Com o intuito de promover um exercício de reflexão sobre esse tema, nossa reportagem entrou em contato com algumas das pessoas mais atuantes do Stand Up brasileiro, nas mais diversas áreas, e pediu que avaliassem, em seu ponto de vista, quais os caminhos a serem percorridos para fortalecer o crescimento do SUP no Brasil de uma forma sustentável. Confira.
ARTHUR JUNG (Sócio proprietário da Art in Surf)
“Na minha leitura o SUP para crescer de forma ordenada é preciso que exista um maior apoio das marcas que atuam no mercado. A maioria das marcas, com exceção de poucas, só pensam em lucro e não apoiam o esporte. Precisam atuar mais apoiando e criando eventos, apoiando atletas e as mídias especializadas.
A minha opinião é que se as instituições que se beneficiam do esporte revertessem uma parte do seus lucros ou energia para as questões que levantei acima, teriamos muito mais atividades e conteúdos. Também acho que as associações e federações deveriam se unir politicamente para angariar fundos para o desenvolvimento de atletas e eventos nacionais e internacionais. Penso que se todos correrem para o mesmo lado o SUP irá se tornar um esporte olímpico com muita rapidez, devido ao seu meteórico crescimento.”
NECO CARBONE (Shaper)
“Acho que de todo mundo que tem prancha hoje, são pouquíssimos os que remam com freqüência. Os grupos de remada são importantíssimos porque um pilha o outro em sair para remar, assim, as pessoas vão ficando cada vez mais envolvidas com o esporte trocando ideias sobre equipamentos, técnicas, etc. Mas para isso os amigos tem que se organizar pra coisa acontecer.
Faltam eventos. Pelo quanto o esporte já cresceu, o calendário deveria estar recheado de eventos e isso acontece porque faltam patrocinadores. Tem muita, mas muita gente, que está no mercado do SUP e não contribuí com o esporte, não patrocina atletas e eventos, não apóia em nada, só quer usufruir dele.”
VICTOR VASCONCELLOS (Shaper e proprietário da Hotstick)
“Acho que as competições são a melhor maneira de difundir o SUP no Brasil, principalmente por ser um esporte que tem várias modalidades Race, Fun Race, Wave, Descida de Rios, etc.
Assim aparecerão os ídolos e a mídia divulgando, fomentando o interesse de outras pessoas, popularizando o esporte gerando seu crescimento.
O momento é propício a termos circuitos Nacional/ Estadual devido ao grande fluxo de novos comerciantes de pranchas e acessórios nacionais e importados, podendo assim dar um suporte financeiro às competições e sua organização.”
SERGIO DA SILVA (Proprietário da New Advance)
“É importante que a cultura do stand up tenha a mesma constância que a do surf, que existe desde o início do século passado, passa por altos e baixos, mas mantém um público fiel porque transmite um estilo de vida.
E agora, principalmente aqui no Brasil, com o título do Gabriela Medina, o surf vai passar por um bom momento e acredito que o SUP, por tabela, irá se beneficiar dessa boa fase.
Cabe a quem está envolvido com o esporte aproveitar esse momento, mas também dar a sua contribuição. A minha receita é patrocinar atletas e apoiar eventos, sejam competições ou encontros de remada. É importante fomentar o esporte e promover a sua cultura.
Se cada marca envolvida com o SUP patrocinar pelo menos um atleta, você estimula a prática e fortalece a sua cultura. Nós temos em nossa equipe competidores de alto nível como o Leco, que é campeão mundial e a Aline Adisaka, campeã brasileira, e também um atleta como o Sylvio Mancusi, que dropa ondas gigantes com o SUP, mas também rema com a mulher e o filho, promovendo esse estilo de vida e acessibilidde que a gente encontra no stand up.”
HUDSON CHAMON (Proprietário da SUPflex)
“Na minha opinião o SUP no Brasil vem se consolidando a cada dia. Por ser um esporte extremamente prático e inclusivo, isso faz com que o número de adeptos só cresça. Aquele que anda pela primeira vez, já pensa na segunda remada e em seguida ter sua própria prancha.
Para o SUP ir ainda mais longe vejo que um grande caminho são os interiores, apenas com o SUP você consegue levar o “lifestyle” da praia para represas, lagoas, rios, corredeiras, etc. Além disso vários treinamentos já utilizando as pranchas de SUP vem ganhando muito espaço, principalmente em academias, como pilates, yoga e treinos funcionais sobre a prancha.
Porém um ponto muito importante para que tudo corra bem é a segurança, atualmente poucos praticantes e até mesmo escolas de SUP tem essa preocupação. A grande maioria dos praticantes não está atenta às variações de maré, vento, correnteza, etc. A massificação das informações de segurança deve ser uma prioridade para fabricantes, escolas de SUP e até mesmo pelo governo através dos bombeiros e órgãos responsáveis.”
ALESSANDRO MATERO (Atleta profissional, responsável pelo Clube de Canoagem Matero e treinador de atletas)
“Eu acho que sempre que a organização vem antes da ação, a chance de dar certo é maior. No começo do esporte, na euforia, várias provas começaram a aparecer sem muita organização e ao decorrer dos anos isso mudou.
No meu ponto de vista, a evolução do esporte virá com a seriedade na produção de eventos, como datas, horários e respeito aos atletas. Assim como os atletas devem respeitar e apoiar o esporte com ideias e atitudes pensadas no crescimento.
Com a criação da Confederação Brasileira de SUP creio que estamos caminhado na direção correta.
Com relação às regatas, seria importante centralizar as forcas nas categorias infantil e open (profissional), dando mais valor à nova geração e aos que estão competindo na categoria open.
Profissionalizar as escolas, para que tenhamos mais qualidade no ensino e mais segurança.
Quanto mais organizado e sério estiver o esporte, maior a chance de empresas do ramo da telecomunicação, veículos, empresas de grande porte apoiarem atletas e eventos. Com isso cresce a divulgação e o retorno para as empresas também.
Enfim, acho que estamos alguns passos de conseguirmos um apoio maior, mas vai acontecer com certeza.”
ROBERTA BORSARI (Profissional de comunicação online e marketing, especialista em SUP Travessias)
“O SUP vem crescendo de maneira vertiginosa no Brasil, todos sabem disso.
Acho importante que as instituições, sejam associações ou clubes, se unam para estabelecer regulamentações sólidas e coerentes, em prol dos praticantes e atletas. Isto do ponto de vista recreativo, competitivo, comercial, ensino ou da política de segurança em geral.”
E sempre pensar na fomentação e evolução do esporte, com atenção especial a qualidade das escolas, dos seus profissionais e todos aqueles que iniciam na modalidade, para que isso não ocorra de maneira distorcida.”
OTÁVIO ASSIS (Proprietário do clube SUP Amigos de Aracaju)
“O leque de opções do SUP é imenso e pode e ser explorado tanto para diversão, como o lado competitivo. É a ferramenta ideal para alavancar o desenvolvimento sócio, econômico e cultural, onde temos que oferecer um serviço a altura do poder de promoção do SUP.
Então, quando se trata do SUP como diversão, deve-se seguir normas de segurança e instruções de como remar da maneria correta e sempre primando pela segurança do remador.
Além disso, associar remadas temáticas ao dia a dia e promover passeios, onde os participantes tenham a oportunidade de remar com estrutura e segurança. Promover campanhas sociais de preservação e limpeza dos rios e demais locais da prática do SUP também é muito importante. Essas remadas ajudam muito no crescimento da prática do SUP, pois quase sempre viram alvo de matéria dos meios de comunicação.
Já o lado competitivo, acho que deveríamos rever a premiação, ela deveria ser estendida às demais categorias. Acredito que alavancaria o número de inscrições.
Tentar introduzir a sua prática nas escolas públicas, com projetos de inclusão social. Estamos por aqui já há alguns meses com a ‘Remada Com Faxina’ e sei que o caminho é esse. Incentivar a prática do SUP em todos os seguimentos da sociedade, pois o SUP é como uma chave mestra, abre qualquer porta.”
PABLO CASADO (Atleta profissional e proprietário da Amazônia Tribal SUP)
“Acho que um investimento maior nas categorias de base é importante para o futuro da modalidade, bem como uma maior interação das Federações com a CBSUP e principalmente os atletas profissionais para que não haja um esvaziamento do circuito brasileiro e possamos ter um número cada vez maior de atletas participando do circuito.
E principalmente uma legislação que posso organizar a atividade do SUP no Brasil, para que o esporte cresça com segurança e qualidade técnica.”
ALEXANDER ARAÚJO (Atleta profissional recordista sulamericano e brasileiro de remada em longa distância de SUP em alto mar)
“O SUP vem crescendo muito e isso tem um efeito positivo no mercado para todos, sejam atletas, marcas e mídias especializadas.
Mas para o crescimento seguir de forma organizada, precisamos fortalecer e melhorar o trabalho na base do esporte. As associações e federações tem um papel funfamental neste crescimento, pois são elas que vão balizar e ajudar o desenvolvimento saudável do esporte e fortalecer a Confederaçao Brasileira de SUP.
Fiscalizar estabelecimentos que praticam comércio usando o stand up paddle, seja ministrando aulas, alugando equipamento ou desenvolvendo passeio é o ponto mais nevrálgico neste desenvolvimento e tem que ser fiscalizado por estas instituições, exigindo destes profissionais capacitação nos aspectos seguraça e conhecimento do esporte.”
BÁRBARA BRAZIL (Atleta profissional tetra-campeã brasileira de SUP race)
“Na minha opinião o SUP está com força total. Mas tem sempre algo que pode fazer crescer ainda mais, de modo que fique bom para todos os interessados.
Mais subsídios para atletas profissionais e amadores tanto do governo quanto do setor privado. Projetos sociais envolvendo comunidades carentes beira mar e rio. Regulamentação do ensino/escolas de sup e aluguel de equipamento.”
JOÃO RENATO (Atleta profissional e Preparador físico)
“Acredito que o SUP terá um espaço muito grande nos próximos anos como um esporte para toda família, oferecendo uma grande oportunidade de atividade física lúdica e prazerosa, e esse filão vai atrair cada vez mais a atenção da sociedade. Mas, também com esse crescimento, vejo que já começam a surgir alguns oportunistas visando não a evolução do esporte, mas o lucro acima de tudo.
Desde fabricantes que se limitam a produzir equipamentos de baixa qualidade, meras cópias de outros mais desenvolvidos, pois seus fabricantes investiram tempo e dinheiro em pesquisas, passando por marcas que usam e abusam do lifestlyle do SUP, mas não patrocinam ninguém, até pessoas que alugam pranchas e dão aulas sem a menor qualificação profissional para isso. É preciso ficar atento e valorizar aqueles que verdadeiramente trabalham pelo SUP.
Acho também que os atletas precisam se unir mais pra colocar em prática muitas ideias que acabam ficando pelo caminho.”
AMÉRICO PINHEIRO (Atleta profissional e treinador de atletas)
“Acredito que são vários os fatores que, combinados, fazem um esporte crescer. Um fator importante é que para um esporte evoluir e atrair mais participantes e, consequentemente, mais mídia e investimento, é a formação de ídolos, atletas que se destaquem e sejam exemplo e inspiração, atraindo mais pessoas para o esporte. E nossos atletas estão entre os melhores do mundo, mas precisamos de mais provas em condições semelhantes às encontradas nas provas internacionais, pois isso ajudará nossos profissionais a ganhar mais experiência. Não adianta termos basicamente provas em águas paradas. Deve-se dar valor aos atletas que realmente treinam, se dedicam e investem no esporte, a elite. Com o grande número de eventos e categorias, hoje em dia todo mundo é “campeão de SUP”. Isso atrapalha o crescimento do esporte e ofusca os verdadeiros campeões.
Um ponto importante é que, devido a moda que o SUP se tornou nos últimos anos, muitos são aqueles que veem no esporte uma oportunidade de ganhar dinheiro. É preciso ter cuidado, pois qualquer um acha que pode sair por aí dando aulas, cursos etc. Não é bem assim. Esta prática pode prejudicar o esporte.
Outra questão, uma das mais problemáticas do esporte no Brasil, é a falta de patrocínio. Muitos amadores que veem atletas de elite viajando e competindo por todo Brasil e no exterior acham que esses atletas possuem um patrocínio que banca essas viagens e outros gastos. Isso não é verdade. A grande maioria dos atletas da elite do SUP nacional precisa trabalhar, e muito, para cobrir esses custos. Existem apoios e sem eles muitos não poderiam competir, mas ainda é pouco. É preciso mudar a mentalidade de que quem patrocina está “ajudando”, “dando uma força”. O patrocínio é uma troca. A marca/empresa investe o dinheiro e o atleta entra com a divulgação e agrega valor à imagem desta marca/ empresa. No caso do SUP, essa imagem é de saúde, natureza, e um estilo de vida que muitos querem ter. Sem falar dos benefícios fiscais que são possíveis hoje em dia. Os dois lados ganham, atleta e patrocinador.
De uma forma geral temos que pensar atitudes que favoreçam os atletas, os patrocinadores e a mídia, já que, na minha opinião, nenhum esporte cresce e nem sobrevive sem estes três pilares.”