
4 Paraíso
Ikaika e Malia moravam em uma palhoça em frente à praia. Ao redor daquele ninho de amor, vizinhos e uma incrível vegetação fértil.
A vida na pequena comunidade era pura harmonia, clima perfeito, nada de roupa, só amor e recreação. O mar estava repleto de ondas, o bosque, ornado por árvores, e os nativos tinham as pranchas.
Os dias passavam com alegria e fraternidade naquela ilha paradisíaca, distante da Revolução Industrial, longe da concentração do pecado e da violência das cidades egoístas e materialistas.

3 Paraíso “visitado”
Ikaika acordou bem cedo naquela manhã. Olhou pela janela da palhoça e confirmou o esperado desde a tarde anterior. “Kae Maloko” (1), pensou.
As ondas em Kealakekua estavam grandes e alongadas espumas deslocavam-se pelo distante recife. Ele beijou a mulher e saiu da palhoça.
A prancha de madeira-balsa, construída por ele mesmo, estava atirada na grama do jardim. Esforçou-se levemente para levantá-la e a observou com orgulho.
Deu vinte passos e mudou de ambiente. Agora, a pesada prancha movia-se com mais facilidade. Suave e dinâmica, acariciava a água.

Ikaika fez seu caminho até a arrebentação sem molhar o cabelo e, enquanto olhava o nascer do sol e alguns pássaros iniciavam o primeiro vôo, sentou-se à espera da primeira onda.
Ao olhar para o horizonte, viu, ao longe, a aproximação de um grupo de ondas. Como não havia mais ninguém na água, esperou pela quinta da série, girou o bico em direção à beira do mar e começou a dar suaves remadas.
A prancha adaptou-se com perfeição à transparente massa de energia e, uma vez mais, aprovou o bom desempenho de seu desenho.

Tal como vista da cama, a espuma o levou diretamente à beira, de onde, agora com mais alegria e menos ansiedade, começou a remar até a arrebentação.
Na espera por outra série, já com o sol brilhando no céu, os olhos avistaram algo incomum às manhãs de deslizamento. Via, cada vez maior, flutuar um monstro de madeira, parecido com nada visto anteriormente.
Era como o Moku (2) no qual o tio Kekoa pescava esses Mahi Mahi, mas, de dimensões impensáveis.
Quando o objeto estranho se aproximou, Ikaika notou que trazia pessoas como ele, Kaikua´ana (3), mas com uma simples diferença: a cor da pele.

Aliviado ao ver que não se tratava de uma besta-marinha, começou a remar para dar boas-vindas aos irmãos.
Aloha, Aloha – gritou com alegria ao grupo de tripulantes que olhava para baixo, estranhando aquele sujeito nu sobre um objeto flutuante.
Bastante assustados, jogaram uma escada de corda ao sorridente anfitrião. Mas, já a bordo, Ikaika não deixou de ser acompanhado pela ponta das baionetas.
Ikaika não parava de se mexer, excitado por tantas coisas que nunca tinha visto e nem aí para as armas de fogo, pois não as conhecia.
– Devemos mostrá-lo ao Capitão Cook – disse um dos tripulantes. Seguraram Ikaika pelo braço para ser levado ao interior do grande Moku, onde ele viu outros milhares de objetos que não pôde reconhecer, até chegar ao quarto de um homem com chapéu, muito simpático, que aproximou-se e disse:
– Olá, meu amigo! – Diante do primeiro cara-pálida sorridente, Ikaika respondeu muito contente e também sorridente:
– Aloha, Aloha!
O Capitão segurou a mão dele e deu uma palmada nas costas. Sem entender muito aquele ritual, Ikaika repetiu o gesto.
O Capitão então começou a emitir sons ininteligíveis. Mas, o polinésio não prestou atenção, impressionado que estava com a quantidade de objetos desconhecidos.
Enquanto tocava os trajes da real armada inglesa, pensou no incômodo que deveria ser carregar aquilo tudo sobre o corpo o dia inteiro.
Ao terminar a inspeção, Ikaika fez com que fosse seguido até a ponte do navio, de onde apontou para à comarca dele e disse:
– One hanau (4) – para logo depois apoiar o dedo no peito e declamar: – ku´u Ikaika (5) –
O Capitão Cook fez igual.
– Eu sou o Capitão James Cook e este é o Resolution e sua tripulação.
Ikaika sinalizou para ser novamente seguido e pulou n’água. Subiu na prancha enquanto o Capitão e dois tripulantes pegaram um bote destes daqueles de reconhecimento para acompanhá-lo.
No meio do trajeto, Ikaika sentou para esperar uma boa e o bote seguiu para a beira.
Um lindo grupo de ondas foi avistado no horizonte e Ikaika pegou a primeira, perfeita, percorrendo-a até a areia, trazendo admiração e emoção aos recém-chegados.
Ao chegar à praia, disse sorridente: Pae i ka He´e Nalu (6). E seguiu caminhando em direção à palhoça.
Os visitantes impressionaram-se com a beleza nua de Malia, enquanto ela preparava a refeição, o lei de boas-vindas a todos.
Avançada a manhã, todos integrantes da comunidade estavam inteirados da chegada inesperada. E centenas de Mokus cercaram o Resolution.
A comoção era grande na aldeia e o chefe polinésio organizou um luau para honrar os visitantes e mostrar a cultura daquelas ilhas.
Os forasteiros cobiçavam com os olhos as mulheres dançarem e tomavam, ao redor da fogueira, uma bebida que transformava o ânimo.
Ikaika mantinha-se ao lado do novo amigo, compartilhando cocos enquanto falava. O
O polinésio tentava explicar os detalhes da ilha, de sua vida, e, logicamente, de seu esporte, o He´e Nalu.
Durante a noite, pouco faltou para desatar um arranca-rabo, depois que um dos tripulantes tentou algo mais ousado com a bela prima de Malia, e alguns nativos procuraram defendê-la.
Felizmente, o Capitão pôde contornar a situação.
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2 Cook is not a kook
Na madrugada seguinte, Ikaika olhou novamente pela janela e mais uma vez as ondas quebravam no recife. Beijou Malia, pegou as pranchas do jardim e começou a remar em direção ao Resolution.
Subiu pela escada de corda e repetiu o caminho pelo qual foi levado um dia antes. Chegou ao camarote do Capitão, que dormia tranqüilo, e começou a gritar:
– He´e Nalu Cook, He´e Nalu (7)!

Sem entender, o Capitão pulou exaltado da cama e começou a seguir Ikaika. Ao chegar à ponte, Ikaika apontou para a arrebentação e para as duas pranchas flutuando ao lado do casco da embarcação.
Diante da situação, primeiramente o Capitão mostrou-se um pouco arredio. Mas, afinal de contas, ele era um dos maiores aventureiros de sua terra e, como Ikaika, amava o mar como nada no mundo. Era seu ambiente e, na realidade, a idéia de estar mais perto dele entusiasmava.
Deixou passar cinco segundos de silêncio e, repentinamente, tirou toda a roupa para pular n’água soltando um grito meio de louco.

Ikaika se mandou atrás dele, ambos subiram nas pranchas e começaram a remar em direção à arrebentação. Ikaika acomodou Cook na prancha e mostrou as posições e movimentos básicos do He´e Nalu.
A primeira série aproximou-se e começaram a remar juntos. As duas pranchas seguiram o percurso da onda, os dois colocaram-se em pé ao mesmo tempo e começaram a gritar de alegria.
Deslizaram pela onda até a beira e voltaram remando até o pico incontáveis vezes mais, até a fome os fazer voltar à palhoça.
Compartilharam o almoço comentando a sessão da manhã através de mímica e uma ou outra palavra de entendimento comum.

Tiraram uma soneca e foram para a água partilhar um fim de tarde estonteante.
Repetiu-se então esta rotina por todos os dias, durante um longo tempo. O Capitão Cook nunca mais seria o mesmo: a alma estava purificada.
Mas, uma história diferente acontecia entre os tripulantes e a população polinésia…
1 Paraíso infetado
A chegada dos visitantes finalmente fez efeito. Passou um tempo e a maioria da população estava infetada por uma estranha doença venérea. E a cada dia morriam mais polinésios.
A população conheceu o álcool, o jogo, as armas e uma nova religião.
A tranqüila e harmoniosa comunidade tinha se convertido em um incontrolável e violento consulado ocidental em plena Polinésia.
Os tripulantes dispararam e mataram muitos polinésios, enquanto os polinésios vingaram-se, matando vários tripulantes.
Ikaika e o Capitão tentaram conter a situação, mas era tarde demais. A ordem não era mais regida pela alegria e generosidade.
Chefes polinésios atearam fogo à embarcação inglesa e estavam dispostos a assassinar o Capitão. Para eles, Cook era o responsável pela desgraça do lugar.
0 Salve-se quem puder
Quando Ikaika descobriu que seu tio-avô, o grande chefe Kaeo, planejava matar o amigo, foi imediatamente procurá-lo. Assim, ele, Malia, a prima e as pranchas foram embora no Moku do tio.
Ikaika havia ouvido falar que na costa ao norte de uma ilha vizinha chamada Oahu, quebravam ondas maiores e o lugar era quase totalmente virgem.
Ikaika dirigiu a embarcação naquela direção.
Glossário
1 Maré baixa
2 Barco
3 Irmãos
4 Meu lar
5 Eu, Ikaika
6 Deslizar até a beira do mar
7 Surfing