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Contra tudo e contra todos

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Adriano de Souza venceu com garra, com bravura, com talento, com merecimento. Foto: Bruno Lemos / Liquid Eye.

 

Sempre que a decisão pelo título mundial é disputada na última etapa do ano, em Pipeline, no Hawaii, o final é imprevisível e digno de filmes hollywoodianos. O espetáculo provoca sorrisos, lágrimas, emoção, tensão e lições de vida. A energia da costa norte de Oahu transforma uma competição esportiva em dramas pessoais e histórias para a posteridade. Foi assim no passado, com títulos inesquecíveis de Kelly Slater, Andy Irons e do próprio Mick Fanning, e não foi diferente com o título de Adriano de Souza. Nosso capitão é campeão mundial!

Enquanto os australianos acumulavam tragédias que alimentavam dramas e piedade, nosso herói se manteve focado, soube separar os dramas alheios de suas pretensões profissionais e buscou na memória de Ricardinho o mesmo impulso emocional que empurrara Mick ao quase título. A cada bateria vencida, os dedos para o céu e golpes no bíceps tatuado em homenagem ao amigo falecido. O nível técnico atingido por Fanning e Mineiro foi coadjuvante na disputa emocional em que se tornou o Pipe Masters e a corrida pelo título mundial de 2015.

Mick foi um valente. Manteve, dentro do possível, o controle de si para continuar na disputa depois de receber a notícia da morte do irmão mais velho. Com a mãe na areia, parecia só querer pensar no desastre depos do dever cumprido com seus fãs e com seus planos traçados no início do ano. A atmosfera dramática tocava apresentadores, fãs e competidores que já não podiam crer que Fanning não levaria a taça depois de tanto esforço. O drama atraía a energia ao tricampeão através da piedade.

Kelly Slater, no round 3, quando duas baterias aconteciam paralelas, deu de graça, quando detinha a prioridade, a onda que abriu a vitória do australiano sobre Jamie O´Brien. Não seria exagero dizer que Kelly ajudou novamente o amigo nas quartas de final. O erro na última onda para Pipe, que lhe custou uma vaca e a bateria, não são comuns para o 11 vezes campeão e especialista na bancada. Fanning surfou com Kelly na água três vezes durante o campeonato e não venham me dizer que Kelly estava imparcial quanto à disputa pelo título mundial.

Se não tivesse acionado a emoção através da memória de Ricardinho, muito provavelmente Mineiro não competiria no mesmo nível que Fanning. Os dois estavam em um nível extraordinário que não se espera de cidadãos em condições regulares do cotidiano. Mineiro foi o maior dos guerreiros, superou cada um de seus adversários nas condições de onda que lhe eram oferecidas. Soube anulá-los e impedi-los de vencer com suas maiores armas de competição: o controle da prioridade e a garra. Foi cirurgicamente impecável durante todo o evento e por isso venceu e mereceu a vitória.

Em um ano que, segundo o próprio Adriano, não seria um bom ano se ele não fosse campeão, (em entrevista concedida no meio do ano, longe dos holofotes do título), Mineiro atacou seu sonho no auge de sua experiência e forma física com todas as suas forças e capacidades, como se essa fosse sua última chance. Mineiro venceu e mereceu. Venceu contra tudo e contra todos, sem ajuda de ninguém. Venceu por que superou todos os seus adversários, sem ajuda, sem compaixão, sem piedade alheia. Venceu com garra, com bravura, com talento, com merecimento. Parabéns, Adriano, choramos juntos. Você merece muito.

Não bastasse o título mundial e do Pipe Masters de Adriano de Souza, o Brasil teve o melhor ano de sua história no surfe mundial. Temos Adriano como campeão mundial do CT, Caio Ibelli como melhor do QS, temos quatro atletas entre os dez melhores do mundo, dos quais três estão entre os quatro melhores, temos Ítalo Ferreira como Rookie of the Year (novato do ano),  temos Medina como campeão da Tríplice Coroa Havaiana, não tivemos nenhuma baixa do CT para o QS e ainda ganhamos três novos talentos para a elite do próximo ano. Somos e seremos por muito tempo o país a ser batido no surfe. Somos campeões mundiais. Bicampeões. Parabéns, Brasil!

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