Abuso de poder

Constrangimento a caminho do Cepílio

Inicio o meu relato parabenizando a polícia militar do estado do Rio de Janeiro pelo excelente trabalho, constantemente noticiado na mídia nacional, em prol da comunidade fluminense.

 

No último dia 21 de julho, protagonizei uma situação muito constrangedora no litoral Sul carioca, a caminho da praia do Cepílio, em Trindade.

 

Parti da praia do Lázaro, em Ubatuba, com um casal de amigos do Rio Grande do Sul, sem destino definido. Eu buscava as ondas e eles tranqüilidade, praia e sol.

 

Passamos pelas praias centrais ubatubenses sem perspectivas animadoras quanto ao surf, porém incríveis quanto ao dia de praia.

 

Antes da entrada da praia da Itamambuca, lancei a idéia, prontamente aceita, de esticarmos até Trindade, unindo os interesses de sol e surf dos tripulantes da nau rodoviária.

 

Fitando a paisagem outrora admirada por Cunhambebe, tentava imaginar como se dava a vida naquela região amada por mim e por milhares, nos anos posteriores ao descobrimento do Brasil.

 

Alcançamos a entrada de Trindade alguns quilômetros depois da divisa entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro, e iniciamos a subida em direção a praia do Cepílio, quando fomos orientados por um policial militar a encostar o carro para uma averiguação de rotina.

 

Embicamos sob a laje do posto policial para não atrapalhar o fluxo de veículos que subia em direção à Trindade. 

 

Ao volante estava um gaúcho de ar sereno e extremamente educado, que naquele momento, muito tranquilamente, solicitou à sua namorada os documentos do veículo que se encontravam na bolsa.

 

O policial, ao visualizar a prancha de surf entre os bancos do carro, em tom muito agressivo ordenou que o casal descesse imediatamente para uma vistoria interna do veículo.

 

Eu, que estava atrás do banco da passageira encoberto pela prancha, imediatamente atendi ao comando, visando facilitar o seu trabalho.

 

Neste momento fomos surpreendidos com o comando para colocarmos a mão no teto do carro, pois passaríamos por uma revista pessoal, e aí começou o que posso intitular de constrangimento, achaque, abuso, humilhação, vergonha! Vergonha de ser brasileiro e viver num país onde a lei não é lei, é piada. O poder público é ditatorial.

 

Sem qualquer razão ou motivo aparente, os policiais nos trataram como marginais, no mesmo nível daqueles que os recebem com AR?s 15 nas subidas dos morros, cheirando e vasculhando objetos pessoais, nos dirigindo palavras de baixo calão, violando direitos garantidos constitucionalmente.

 

Não permiti que nos revistassem, iniciando uma calorosa discussão, chegando quase às vias de fato. Fui ameaçado de prisão por desacato. O policial chegou a ir buscar as algemas, porém acabou desistindo sob os meus argumentos de que o abuso de poder é crime muito mais grave do que um desacato que sequer chegou perto de acontecer.

 

Após aproximadamente 40 minutos de intensa discussão, fomos liberados sem seqüelas físicas, porém moralmente estraçalhados. Não pela atitude daqueles dois policiais de compleição física robusta e ameaçadora, mas por sabermos que mesmo cumpridores dos nossos deveres e obrigações, o Estado nos trata como se nada fôssemos.

 

Pior, nos trata como criminosos. A mazela política que assola nosso país reflete nas incorporações com pessoal despreparado, incompetente e mal pago. Infelizmente, o aqui relatado tem o significado de uma gota no oceano de absurdos que banha o nosso país.

 

O dia acabou sendo salvo pela generosa natureza da região, sol, calor e ondas, que apesar de pequenas tinham excelente formação.

 

Que este relato sirva de experiência ao leitor que por esta região circula, trabalha, administra, policia, admira, se diverte, pratica seu esporte favorito. Boas ondas!

 

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