
Meninos, eu vi…
Eu vi um careca maluco andando pelas areias da praia do Leme, no início dos anos 80.
Com uma meia prancha debaixo do braço, ele era seguido por uma legião de moleques mais malucos ainda, todos impressionados com as histórias surreais que saiam por debaixo daquele bigode místico.
O careca maluco falava de coisas surpreendentes e mesmo sem nunca terem sido ditas antes, faziam o maior sentido para quem ouvia.
Ele falava sobre uma terra prometida, que nem ele havia estado. Um lugar distante onde as ondas eram grandes e perfeitas, e que muita gente gostaria de ir apesar da maioria não ter idéia do que fazer quando chegasse por lá.
O careca era tão maluco que usava sua meia prancha de borracha e shape engraçado para deslizar, rolar, rodar e até voar nas ondas. Mesmo quando o mar estava tão sinistro, que até os salva-vidas amarelavam. Numa época onde tudo isso era novidade, ele chegava ao cúmulo de dizer que se divertia dessa forma.
O careca tinha um nome engraçado: Kung. E o lugar distante a que se referia era o Hawaii.
Eu vi. Vi sim. Juro que vi!
Eu vi dois lourinhos mirrados do Leblon, pequenos em estatura, mas grandes em marra e atitude.
Eles falavam coisas vindas de um mundo a parte, um mundo molhado, salgado e interessante. Um mundo onde as pessoas iam à praia antes do dia raiar com suas meia pranchas, só para curtir a melhor hora do vento, do mar e da vida.
Eu pensava: Como pode ser tão bom acordar de madrugada e passar a maior friaca na praia, lugar que deveria ser quente, agradável e ensolarado?
O nome deles era Xandinho e Luizinho Kiko.
Vi sim, vi sim…
Eu vi uma galera de loucos que resolveram, vejam só, adotar a incerteza, brigar pelos seus ideais, levar adiante o plano aparentemente sem pé nem cabeça, de fazer uma brincadeira virar uma profissão, transformar bagunça em organização, um sonho em realidade.
Dentre esses alucinados estavam Guto de Oliveira, Kiko Pacheco e Ebert, Marcos Salgado, Cláudio e Heraldo Marques, Billy Portinari, entre outros, não tão famosos – mas nem por isso menos importantes.

Vi sim. Eu não estou viajando…
Eu vi a nova geração de Guilhermes, Paulos, Renatos, Fabios e Marcelos. Vi também Isabelas, Marianas, Stephanies e Glendas abraçarem as idéias da geração anterior, fazendo peso do lado certo da balança e brigando muito para que as coisas acontecessem. E elas aconteceram!
Eu vi um castelo amarelo, montado no reinado das areias do Brasil, onde um rei generoso e poderoso, junto com sua nobreza, fazia de tudo pra reunir os plebeus nos finais de semana para se divertirem juntos, contar histórias, e competir pelo simples prazer de mostrar para os outros do que cada um era capaz.
Mesmo com a diversão e a comunhão das forças e idéias em primeiro lugar. Os atletas, além de realizados pela magnitude da festa, levavam para casa uma boa grana, passagens aéreas, aparelhos de som, motocicletas, bicicletas e até automóveis.
Tudo isso num clima de amizade, diversão, e principalmente, união.
Eu vi, podes crer…
Eu vi a molecada em peso nas praias do Brasil e do mundo tentando imitar aquele careca maluco e sua galera. Depois tentando fazer melhor do que ele. Estão realmente fazendo melhor que ele, extrapolando os limites da física. Voando sem asas, girando sem eixo, brincando de tirar tubo?
Eu vi essa galera conquistando o mundo, deixando os gringos de boca aberta, mostrando a atitude do povo mais raçudo do mundo: o brasileiro.
Vi sim, ninguém me contou…
Eu vi a bodyboarder, a BB Style, a Fluir Bodyboard, a Ride It, revistas que tratavam dos nossos assuntos, que defendiam nossos ideais, nosso estilo de vida. Feitas por quem entende de bodyboard para quem entende de bodyboard.
Apoiadas pelas empresas que se interessam pelo nosso mercado, que acreditaram no nosso mundo, em nossas coisas.
Eu vi tudo isso crescer, melhorar e evoluir ano após ano. Começando lá de baixo e vindo a tona como uma grande bolha de ar que não via a hora de chegar na superfície e mostrar pra todo mundo que essa gente bronzeada tinha seu valor sim, e muito!
Ooops, eu disse tinha? Ato falho. Eu quis dizer têm.
Eu vi, vocês também viram, mas parece que esqueceram?
Não quero dizer que hoje tudo está errado. Mas sei também que não está certo. Não é justo esquecer do passado e tentar começar tudo de novo, como se nosso esporte não tivesse uma história para contar.
Com tanta coisa acontecendo no Brasil e no mundo, acho que esse é um bom momento para parar e refletir. Querer melhorar algo, sem saber de onde viemos, onde estamos e onde queremos chegar é simplesmente impossível.
Temos que pensar mais no que já foi feito até hoje, o que está acontecendo, e o que nos espera.
O que está faltando é colaboração e consistência, para que o bodyboard conquiste o lugar que merece. Os atletas só querem competir e ir pra casa. Acabam esquecendo do seu papel de ídolo e referência para a molecada.
As empresas do meio querem arrancar árvores, sem se preocupar em plantar outra no lugar, ou seja, só querem vender. Mas na hora de reinvestir na horta onde colhem…
As associações deveriam conversar mais, pois cada uma faz o que bem entende, sem se lembrar que inconsistências de critério nada fazem para ajudar no objetivo maior, que é promover a prática nacional do esporte.
O espaço de mídia especializado é limitado e muitas vezes tendencioso, frustrando iniciantes, amadores e até profissionais.
Enfim, tem muita gente boa se esforçando para fazer um bom trabalho. Mas sem espírito de união, organização, e colaboração, fica muito difícil evoluir. Um bom começo seria o apoio mútuo entre atletas, associações, mídia especializada e as empresas interessadas no esporte.
A união é a solução!