Compromisso com a verdade, doa a quem doer

Muito tem se falado e especulado sobre o que aconteceu recentemente com Neco Padaratz. Ele desistiu de competir na etapa do mundial WCT em Teahupoo, no Tahiti, por não ter conseguido superar o trauma que tem com o local desde que quase morreu afogado lá.

 

O interessante do fato é que a notícia não foi dada através de um furo jornalístico, mas chegou à imprensa através de uma carta redigida pelo próprio Neco, prestando contas à todas as pessoas que torcem pelo surf brasileiro – e a própria imprensa.

 

Confesso que ao ler a carta me senti meio dividido. Em parte entendo o Neco. Pensando como um sujeito de 39 anos de idade, com mulher e filha e que não tem mais compromisso nem com patrocinadores nem com ninguém, a não ser consigo mesmo, entendo perfeitamente que o cara não queira, neste momento, arriscar a vida em um lugar onde já viveu um filme de terror.

 

Por outro lado, concordo que como brasileiro e torcedor do Neco, sinto-me frustrado. Penso que dos que estão correndo o WCT, o Neco é um dos poucos, senão o único brasileiro, com possibilidades reais de se tornar campeão mundial de surfe.

 

Não tanto pela qualidade do seu surfe, mas principalmente porque neste jogo político em que o surfe mundial também se transformou, ele é uma unanimidade entre os gringos. Ele é, ou era, respeitado há muito tempo tanto pela imprensa internacional quanto pelo corpo de juízes da ASP.

 

Acho natural que todos sintamos uma certa vergonha por termos que admitir que foi um dos nossos que puxou o bico, mas cansei de ler aqui e ali sobre gringos que se apavoraram na hora de enfrentar Waimea e outros picos de ondas grandes e também acabaram puxando o bico.

 

O problema é que o fato envolvendo o Neco toma proporções maiores por ele ser brasileiro e porque ele teve a coragem – e respeito – de admitir publicamente, em carta destinada a todos nós, o seu problema.

 

É preciso que respeitemos o irmão Charles por sua coragem de enfrentar o problema assim, com respeito pelos que torcem por ele. Se quisermos, neste momento, desistir do ídolo Neco, tudo bem, é justo. Ídolo é aquele sujeito que nos serve como espelho.

 

Mas eu, surfista de alma, passei a admirá-lo mais ainda, do fundo do coração, pois em nenhum momento ele assinou contrato comigo ou com você, para estar dando satisfações de seus atos desta maneira.

 

Tentem imaginar Andy Irons, Kelly Slater ou mesmo o malucão Tom Curren, ídolos de muitos e de gerações, dando satisfação do que fazem ou deixam de fazer. Respeito o Neco e, principalmente, continuo apostando minhas fichas nele.

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