Motos e ondas

Combinação libertadora

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Concept Path 22 – protótipo da marca alemã BMW criado com ajuda de surfistas para surfistas.
Foto: Divulgação. 


Inspirada por um movimento que vem de longa data mas está tomando força cada vez maior nos últimos anos, a mitológica marca alemã BMW lançou uma protótipo especialmente desenhado para quem curte a combinação de perigo, adrenalina e liberdade comuns ao motociclismo e ao surf.

Foi meu cunhado americano quem me alertou sobre o lançamento da Concept Path 22, a moto conceito da BMW criada com a ajuda de surfistas para surfistas. Brian não pega onda, mas é fanático por motociclismo – ao ponto de batizar seu filho de Rossi, em homenagem ao maior corredor de motos de todos os tempos, o italiano Valentino Rossi – e sempre está ligado nas notícias mais interessantes desse universo. E se alguma delas tem alguma relação direta com o surf, então ele me encaminha, sabendo que eu sou um entusiasta da utilização de motocicletas na busca por ondas.

Há alguns meses ele me indicou a leitura de uma matéria no site da revista americana Cycle World em que dois editores de arte, um deles da própria CW, e ou outro da publicação irmã Dirt Bike, decidem ir surfar na Baja Califórnia a bordo de duas maravilhosas máquinas colocadas à disposição da revista para testes, uma KTM 1190 Adventure R e uma BMW R1200GS Adventure. Os editores de arte aproveitam o convite de um dos pilotos de teste oficiais da Cycle World que iria participar da Baja 500, para passar um final de semana curtindo as ondas da desértica península, ao mesmo tempo em que conferiam a famosa corrida fora de estrada. Com as pranchas presas aos robustos bagageiros das motos por cintas presilhas, eles tiveram acesso a praias isoladas, descendo das encostas por trilhas que levavam até a areia, e surfaram sozinhos.

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Dois editores de arte de publicações “irmãs” embaracam rumo a Baja Califórnia a bordo de duas maravilhosas máquinas colocadas à disposição para testes.
Foto: Cycle World.

 
Respondi ao meu cunhado agradecendo a dica e indicando a ele um outro link, de um vídeo que eu havia encontrado no site da BMW. Na bem cuidada produção promocional, diferentes personagens mostram como interagem com seus modelos escolhidos da marca. Num dos segmentos, as imagens se alternam acompanhando uma bela surfista a bordo de sua BMW, que não é ainda a Path 22, seguindo em direção à praia com uma prancha presa a um rack lateral, e surfando ao nascer do sol. Em seu depoimento ela compara surfar a andar de motocicleta, já que nas duas atividades a emoção perseguida seria a mesma. 

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Sumatra sobre duas rodas. Na Indonésia, há muito tempo é comum utilzar esse tipo de transporte – mas no Brasil as coisas continuam as mesmas. Foto: Arquivo pessoal.

Motos com racks carregando bikes não são uma novidade. No Brasil por muitos anos foram bem populares ao longo do litoral, ainda que seu uso, por ter sido denominado ilegal pelas autoridades incompetentes, tenha diminuído muito. Mesmo assim, motos carregando pranchas em racks podem ser vistas ocasionalmente em nossas praias, enquanto que na Indonésia estão por todos os cantos, sendo o principal meio de locomoção dos sufistas que visitam  ou residem em Bali.   

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De role pelo deserto de Atacama, no Chile, em 1988. Foto: Camila Reimann

Meu outro cunhado, esse brasileiro, o Luiz Caldas, com os sócios, o irmão Caca e o pai da ideia, o amigo surfista e engenheiro Jorge Assumpção, foi pioneiro na fabricação de racks específicos para motos no Brasil, no início do anos 80, inclusive com anúncio pago na FLUIR número 1. Aliás foi ao me acompanhar na instalação de um rack Austral para minha Honda XL 250 que minha irmã o conheceu. E alguns anos depois, já casado com ela, Luiz me enviaria para a Califórnia um modelo igual, a ser instalado na Honda XL 600 com a qual eu planejava ir até o Brasil. A peculiaridade é que os racks fabricados pela Austral eram posicionados no lugar normalmente ocupado pelo bagageiro, e deixavam a prancha em pé, quase como uma quilha na traseira da moto.

Mais recentemente, tanto em Bali como em Venice Beach, na Califórnia, tomei contato com as criações exclusivas da Deus Ex Machina, a marca que é um misto de surf shop e oficina mecânica, oferecendo as mais incríveis pranchas e motocicletas customizadas a uma clientela antenada. Tendo como missão declarada a atualização de designs do passado, suas pranchas e motos são criadas com o objetivo de permitir a mais alta performance com o máximo de estilo, podendo ser consideradas belíssimas obras de arte            

Muitas das motos produzidas pela oficina da Deus Ex Machina na Califórnia lembram as exibidas no documentário de Bruce Brown sobre corridas de motocicletas fora de estrada nos anos 70. O mesmo cineasta que deu ao mundo do surf  o clássico dos clássicos “The Endless Summer”, seria premiado alguns anos depois, em 1971, com uma indicação para Oscar de melhor documentário com “On Any Sunday”, realizado em parceria com um dos maiores atores de Hollywood à época e grande entusiasta de motocicletas Steve McQueen. O interesse de Bruce Brown pelo tema refletia um dos passatempos prediletos da chamada Máfia de Dana Point, o grupo formado por Hobie Alter, das pranchas Hobie, Gordon Clark, da Clark Foam, e Bruce Brown, entre outros, que dominava a indústria do surf na virada dos anos 60 para 70 e se divertia promovendo corridas de motos entre seus participantes, nas montanhas próximas a costa Californiana, nos dias sem onda.

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A oficina da Deus Ex Machina, na Califórnia, reproduz muito bem o estilo das motos usadas nas buscas das ondas ainda nos anos 70. 
Foto: Divulgação

 

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Rob Machado de motocicleta em “The Drifter”, da Hurley. Foto: Reprodução.

Também fazem parte da história do surf as descobertas de algumas das ondas mais perfeitas do planeta graças ao uso de motocicletas. Grajagan e Nias são os dois exemplos mais marcantes. G-Land foi surfada pela primeira vez após Bob Laverty ter avistado a fabulosa bancada num voo entre Jakarta e Bali e, junto com parceiro Bill Boyum, a bordo de Suzukis 90cc com pneu balão para transitar sobre areia e corais, terem ido por terra ao seu encontro. Já Lagundri Bay foi revelada em 1974, durante uma expedição cruzando a Indonésia em motocicletas, realizada por Kevin Lovett, John Giesel e o maior explorador da história do surf Peter Troy. Mais recentemente o filme The Drifter”, numa jogada de marketing corporativo da Hurley, tentou convencer seu público assistente de que Rob Machado teria vagado solitário entre as mais perfeitas esquerdas indonésias pilotando uma motocicleta, ainda que, como acuradamente notou Fred D’Orey em sua coluna Outras Ondas na FLUIR, o verdadeiro drifter tenha sido o australiano Jim Banks.

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Uma atenção especial foi dada ao rack lateral que pode carregar pranchas de diversos tamanhos com total eficiência. 
Foto: Divulgação

Mas apesar de todo esse histórico, até o lançamento da BMW Concept Path 22 nenhum grande marca de motocicleta havia carimbado seu selo de aprovação no movimento que une motos e surf. Minha experiência própria com a Honda, após ter completado a viagem da Califórnia ao Brasil numa XL 600 e buscado algum tipo de apoio da marca japonesa para trabalhar a divulgação, foi surpreendente. Eles se recusaram a associar a marca ao surf e consideraram que transportar uma prancha numa moto comprometia de maneira grave as regras de segurança defendidas por eles.

A BMW escolheu  a quarta edição do Festival “Wheels and Waves”, ou Rodas e Ondas, realizado entre 11 e 14 de junho passado, em Biarritz, na França, como o palco ideal para apresentar a Path 22. O evento organizado pelo clube de motociclistas Southsiders MC reúne aficionados de motos e pranchas customizadas. Além de uma exposição de motocicletas customizadas, são realizados uma corrida de motos e um campeonato de surf onde o maior objetivo é a diversão e não a competição. Como esclarece um dos diretores do grupo, a razão para se juntar motocicletas e surf num evento é muito simples, “queremos celebrar a liberdade que é promovida por essas duas disciplinas – e  o resultante perigo e adrenalina que são reações comuns às duas atividades.”

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Feito em alumínio e couro, o rack pode ser recolhido ou desmontado com muita praticidade quando não estiver sendo usado. Foto: Divulgação

A Concept Path 22  teve seu nome de batismo inspirado na sinalização que leva a um pico de surf secreto na costa atlântica francesa, somente acessível por uma trilha que cruza um bosque por onde carros não tem como passar. Resultado de uma colaboração iniciada por Vincent Prat, dos Southsiders MC, com a BMW, participaram também do projeto o artista gráfico australiano Nico Sclater, mais conhecido como Ornamental Conifer, responsável pela pintura que decora a moto, e o shaper americano Mason Dyer, criador das duas pranchas apresentadas juntamente com o protótipo.

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Com a intenção de lembrar as “scramblers”, a Path 22 tem um visual original que a aproxima das motos customizadas em oficinas particulares. Foto: Divulgação

Construída sobre a base de uma BMW R nine T, modelo de linhas clássicas lançado em 2014 para celebrar os 90 anos da marca, a Path 22 é uma moto que incorpora elementos novos a um design já existente. Com a intenção de lembrar as “scramblers”, potentes motos dos anos 50 adaptadas para andar fora de estrada, a Path 22 tem um visual original que a aproxima das motos customizadas em oficinas particulares. Uma atenção especial foi dada ao rack lateral que pode carregar pranchas de diversos tamanhos com total eficiência. Feito em alumínio e couro, o rack pode ser recolhido ou desmontado com muita praticidade quando não estiver sendo usado.

A BMW não comenta nada sobre a possível colocação de uma Concept Path 22 em produção de linha tornando-a acessível a qualquer um que curta motos e ondas. Mas certamente o primeiro passo já está dado. O transporte de pranchas em motos oferece  várias vantagens, que vão desde a acessibilidade a lugares isolados e a economia de combustível, com consequente diminuição da agressão ao meio ambiente, até a inegável combinação de dois prazeres similares e sublimes, o motociclismo e o surf. Mas enquanto a BMW não se decide, aqueles que quiserem programar uma surf trip de moto – fora do Brasil, já que aqui a lei não permite – podem, no país escolhido para a aventura, customizar sua própria moto ou encarregar alguém competente de fazê-lo. E ai é só cair na estrada,  alternando curvas e cutbacks. Boa viagem.

1200x794Deserto de Atacama, no Chile, em 1988. Foto: Camila Reimann

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