Reta final, últimos instantes. As esperanças brasileiras prestes a virarem uma doce realidade. De repente, fica tudo no quase…
Parece, mas não estou falando sobre o final heróico de uma temporada brilhante do piloto brasileiro Felipe Massa na Fórmula-1, mas sim do mais que improvável final de temporada dos últimos anos no World Tour.
O circuito já vinha morno desde Trestles, Califórnia, mas, quando chegou a Europa, simplesmente desceu a ladeira em velocidade máxima, salvo algumas performances espetaculares de um ou outro, a previsível decisão do título por antecipação azedou as doces expectativas de todos nós expectadores.
Desapontados, fomos obrigados a assistir ao total desinteresse dos Tops pelas etapas finais do circuito, especialmente a única na América do Sul, que, aliás, há três temporadas consecutivas oferece algumas
das melhores condições de swell do Tour, principalmente se compararmos com picos tradicionais como J-Bay, Mundaka e Teahupoo, que já deixaram a desejar mais de uma vez em termos de qualidade de onda.
Apesar de tudo, sou adepto da filosofia de ?de um limão faça uma limonada?, então, já que o intuito da coluna é falar sobre julgamento, análise crítica e, principalmente, debater regras, essa é uma excelente oportunidade para abrirmos os olhos para o que também faz parte do livro de regras, mas não diz respeito exclusivamente ao julgamento das baterias.
É no mínimo curioso que, exatamente depois da confirmação do nono título de Kelly, todas as lesões tenham aparecido ao mesmo tempo, especialmente entre os Top 10, onde cinco atletas, ou seja, metade não compareceu, alguns comprovadamente contundidos, mas outros visivelmente por desânimo e desinteresse, uma vez que já estão garantidos na elite para o ano que vem.
Não discuto o fato em si das ausências, até porque por direito os competidores podem descartar até duas das 11 paradas do circuito, desde que justifiquem com antecedência de 21 dias o não comparecimento, seja por lesão ou qualquer outra razão pessoal (seção 2, artigo12).
No caso de não comparecimento por lesão, o atleta deve, além de avisar com antecedência, apresentar atestado médico e ainda passar por uma avaliação do coordenador médico do circuito, caso esse julgue necessário (seção 2, artigo16).
Quanto ao não comparecimento de Kelly, também está previsto no livro de regras da entidade que o atleta que conquistar o título por antecipação, deverá comparecer a todas as etapas restantes depois da conquista, sob pena de multa no valor de US$ 10 mil (seção 5, artigo 16).
Portanto, insisto mais uma vez, antes de simplesmente criticar e acusar levianamente árbitros e comissão técnica, que leiam e estudem o livro de regras. Kelly, quando decidiu não vir, sabia exatamente qual a conseqüência, e simplesmente pagou pela opção que fez, porque conhece e sabe como aplicar o regulamento.
Isso não redime, porém, o nove vezes campeão mundial da falta de respeito com espectadores e patrocinadores responsáveis pela manutenção da boa qualidade do circuito, inclusive no que diz respeito a premiações, que foram responsáveis por uma significativa engorda na conta bancária de Mr. Slater este ano.
Particularmente, acho branda a punição material, em forma de multa, se essa não for acompanhada de perda de pontos ou com a retirada de um melhor resultado, que no caso de Slater faria uma real diferença, uma vez que com 1200 pontos a menos, jogaria a decisão para Pipe, caso Kelly insistisse em não comparecer à etapa brasileira.
Voltando às aspirações brasileiras de assistir a um atleta ganhar uma etapa em terra natal, ficamos mais uma vez na vontade, mesmo com a presença maciça de representantes da elite nacional, aliás, as baterias da primeira fase e repescagem mais pareciam uma etapa do SuperSurf, tamanha foi a operação ?tapa-buraco? para garantir o acontecimento do campeonato.
Méritos de quem soube usar essa vantagem para tirar a cabeça da degola e ir para o Hawaii mais tranqüilo, sem precisar de excelentes resultados, uma vez que lá o buraco é bem mais embaixo.
Nessa avaliação, destaque para Leo Neves, que amadureceu muito durante o ano, aliando a potência de seu surf a um trabalho de bordas primoroso em algumas ondas. Falhou somente na estratégia contra Jeremy.
O mesmo aconteceu com Heitor Alves, que parece ter aprendido que o caminho para o sucesso no ano que vem. É o equilíbrio entre seu repertório moderno e progressivo e uma consistência maior durante as baterias.
No final, reinou quem estuda o esporte em todas as suas variáveis – técnica e disciplinar -, além do comprometimento com o critério de julgamento, bagagem adquirida durante o processo de treinamento desde as categorias de base nos surf camps oferecidos pela regional australiana da ASP, o que fez de Bede um perfeito campeão, educado, inteligente e extremamente competente no seu ofício.
Bede não se furtou em criticar as ausências dos demais Tops, inclusive em seu blog na internet, porém não deixou de declarar sua admiração por Kelly, o qual considera como ídolo.
Enfim, resta apenas uma etapa, talvez a mais tradicional do Tour, e em regime de prova final a turma que não se dedicou durante o ano corre atrás de nota para não levar bomba, com uma diferença para a escola. No World Tour, quem fica reprovado não repete ano; volta à pré-escola para aprender novamente o B-A -BÁ!
