O Clidão era o cara. Foi para o outro lado sem dó. Não sei se só por vocação ou por falta de opção – seus neurônios espirituais não permitiriam outra trilha.
Através dos seus contatos telepáticos com o ministro norte-americano Henry Kissinger salvou milhares de vidas nas Filipinas. Era o legítimo herdeiro de O.S., como bem observou o nosso amigo e músico, Olmair, ou seja, O Senhor.
Dizia ter acesso a bilhões de dólares a qualquer momento nos principais bancos do mundo. Essa vida era muito comum para ele, preferiu criar (ou acessar) outra?
Refletia nossos rostos no seu, muitas vezes distorcido. Dissertava quantas balas e tanques foram utilizados na Segunda Grande Guerra Mundial. Sabia quais fuzis eram os mais eficazes, além dos meandros políticos da ascensão de Hitler.
Clidão nos metralhou a todos, enquanto discursava sobre esses mistérios, enquanto reclamávamos, do sofá de casa, que ele estava na frente do jogo de futebol na TV.
Amigos insensíveis ou loucura tem hora, a hora do intervalo? Não para ele. Vivia o seu sonho 24 horas por dia. Onde ele era o centro e era o rei. Onde ele era o Sidharta e todos eram Govinda. Talvez tivesse razão.
Era um mestre na arte de comer um x-salada da maneira mais punk possível, lambendo a maionese que escorria para a manga da sua camisa enquanto providenciava, com a língua, que a carne não escorregasse para o limbo. Era o cara.
Dono indisputado de “Everest, o Gigante da Floresta Amazônica”. Seu gol de curva do meio da quadrinha, numa noite de verão, no Clube Pinheiros, em São Paulo, deixou todos de boca aberta. O soco no ar que deu, em seguida, foi só para provar mais uma vez que ele sabia das coisas, e nós, não.
O seu terno Deep Purple era a sua cara. Sempre foi deep, demais até. Virou urso só com um “pega” que deu no Festival de Surf de Ubatuba, numa noite (antes de dormir usando a lata de feijoada como travesseiro) enquanto penetrava na mata ainda virgem da Praia Grande sem nenhuma construção.
Sim, ele não era desse mundo, apesar que todos seus atos sugerissem que ele o controlava. Foi o nosso extremo alucinante, o que, talvez, todos seríamos se tivéssemos a ingenuidade ou a predisposição de nos embrenharmos nos labirintos da mente. Saudades, meu amigo.
O Clidão passou por nossas vidas pontificando excentricidades, tendo a presença que só um irmão tem, testando minuto a minuto os limites da percepção – dele e nossa, nos obrigando a olhar nossas próprias deficiências físicas e emocionais sem a piedade dos lenientes, e, principalmente, o nosso medo de enlouquecer.
Já nasceu meio curvado, como se ameaçasse entravar a qualquer momento. Surpreendia com flashs de genialidade, observações claras sobre a vida e os homens, com exceção da vez em que prometeu me nomear Ministro da Economia no seu futuro governo do Mundo. Era da turma. Eu, Datcha, Netão, Kid, Silvério. O Dragão, o Magoo, o Teixeira, a turma do Guarujá também o conhecia de raspão. Ficava vendo a gente surfar sentado na praia e viajando dentro da sua mente brilhante demais para caber naquela pequena caixa craniana.
Na ríspida brincadeira de “Pegador no escuro”, que fazíamos no Haras que meu pai mantinha, ao apagar das luzes, que dava início à pancadaria, subia desajeitadamente, mas com presteza, a escada de um dos beliches imitando o robô do seriado de TV “Viagem no Tempo”, gritando: “Perigo, perigo extremo!”.
Nos olhava como se enxergasse através de nossos corpos e além dos nossos pensamentos. Diz a lenda que o destino lhe colocou um “doce” no caminho, lá pelos idos de 1970 e pouquíssimos. Ninguém viu. Nunca mais voltou da viagem. Não era uma alma preparada para essas rudezas. Deve ter vindo por engano. O seu espírito não cabia direito nessa vida. Todos nós tivemos que endurecer para sobreviver. Ele não. Não quis. Conhecendo o cara, imagino que deva ter achado que não valia a pena.
Esqueci de dizer, entre milhares de detalhes relevantes da personalidade do sr. Euclides Penteado Leme da Veiga, vulgo Clidão, que ele afirmava categoricamente ser amante da princesa Caroline de Mônaco, e que dava risadinhas irônicas – como que se apiedando de nossa santa ignorância -, quanto duvidávamos. Ops, desculpem, a série de TV era “Perdidos no Espaço”, com o famigerado e mal-intencionado Dr. Smith, e não “Viagem no Tempo” – que eu, na minha santa ignorância, confundi duplamente com “Túnel do Tempo”.
Para vocês verem que o Clidão não foi o único sequelado por aqueles tempos românticos… Ele era o nosso parâmetro de inteligência analítica, de memória excepcional e de um sentimento de amizade que vazava pelas grossas lentes dos seus óculos de aros quadrados. Um ser atemporal, visitado constantemente por fantasmas e visões, as quais não se furtava em compartilhar conosco no detalhe.
National Kid era amador perto do Clidão, com seus incas venusianos e seres abissais elevados à enésima potência. Era master nos campeonatos juvenis que incentivavam o vício solitário e o transformava numa espécie de arte.
No futebol de rua, na Rua Dr. Mário Ferraz, na década de 60, quando ainda era de terra, fazia dupla com o Datcha contra eu e o Jair. Mantinham a mesma parceria ao atacar o nosso Forte Apache, erguido sobre o galinheiro (que nunca teve galinhas) de casa com flechas de madeira e espadas toscas. A cena dele saindo de trás do muro do jardim com seu andar claudicante mas decidido, atirando uma flecha que nunca nos atingia, e voltando correndo, nunca vai sair das minhas retinas.
Era frágil, engraçado, canhestro, autêntico. Não consigo imaginar o que teria sido dele, hoje, se suas sinapses cerebrais não tivessem tido a interferência abrupta da era lisérgica. Tá certo que ele já tinha uma tendência forte para despirocar, mas não precisava de mais um empurrãozinho, certo?! Nos vemos no andar de cima um dia desses, meu amigo. Vai preparando o campo de futebol, as camas de beliche, a praia, as risadas, e, principalmente, a Caroline de Mônaco!
Sidão Tenucci é escritor, diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Nunca subestimou o que chamam de “loucura”, e não esquece o que sentiu e sente em relação aos amigos verdadeiros. Autor dos livros O Surfista Peregrino (Livraria Cultura) e Almaquatica, em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o designer gráfico David Carson (FNAC). Lançará, em agosto, a sua terceira obra: “Poentes de Amor”.