
O shaper carioca Cláudio Valle, 41 anos, é testemunha da evolução técnica que a indústria do surfe brasileiro atravessou nas últimas duas décadas.
Cláudio foi um dos fundadores da Cristal Grafitti, ponta de lança do boom que o surfe brasileiro experimentou a partir da década de 80.
A afinidade com o shape vem de berço. Seu pai, que nunca surfou, fez sua primeira prancha a base da curiosidade e do instinto. “Um amigo dele tinha fábrica de bugres, carros de carroceria feita de fibra de vidro, o que facilitou o acesso ao material necessário na época”, lembra.

Mais tarde, Cláudio iniciou a carreira como laminador do shaper Beto Santos, que ao lado de Russo, ensinou-lhe os macetes do ofício.
A parceria com Beto deu certo e juntos decidiram fundar a Cristal Grafitti. Aos poucos, Cláudio foi migrando para o shape até assumir definitivamente a função.
Mais de 20 anos se passaram desde aquela época, tempos de um idealismo quase romântico, quando oficinas conviviam com uma crônica dificuldade para conseguir equipamentos.
“Ter um powerpad, por exemplo, era como ter um tesouro. Você cuidava dele como se fosse o bem mais precioso da oficina”, lembra Cláudio.
Para quem não sabe, powerpad é um disco de espuma para lixar prancha, equipamento hoje facilmente encontrado. A verdade é que as dificuldades do passado soam cômicas às novas gerações de shapers.
“Hoje é muito mais fácil ser shaper. Há uma farta disponibilidade de equipamentos e materiais de muito melhor qualidade que no passado. Conseqüentemente, a concorrência cresceu muito, acompanhando o crescimento do mercado consumidor”, avalia Cláudio.
Fazendo uma análise estratégica do mercado de pranchas, pode-se dizer que ele se tornou um mercado em que concorrentes ingressam com mais facilidade do que há 15 anos, uma vez que as barreiras de entrada diminuíram. Entenda-se por barreiras de entrada, por exemplo, o acesso a equipamentos apropriados para o oficio bem como à tecnologia.
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Outra importante mudança que Cláudio Valle está vivenciando é a introdução da máquina de shape criada por Luciano Leão. Em parceria com Vitor Vasconcellos, ele adquiriu esse equipamento e o investimento levou-o a assinar suas pranchas como Cyber Shape, uma referência direta à nova tecnologia.
Segundo o shaper, além de aumentar a precisão dos shapes e aumentar a capacidade de produção da oficina, a máquina trouxe um benefício extra muito importante: permitiu que sobrasse mais tempo para se dedicar à otimização dos processos da oficina, como shape, laminação, pintura, acabamento, gestão de materiais e rotinas administrativas.

Cláudio reconhece que com o advento da máquina, o processo de shape perdeu um pouco do romantismo, uma vez que a figura do shaper vai perdendo espaço para a máquina. “Porém, o finish ainda é feito à mão e essa etapa é crítica para o resultado final”, ressalta.
Na opinião dele, o segredo está na forma que o shaper vê a prancha. Na medida em que ele consegue transpor essa visão para a máquina e orientar um “finalizador” para ter a mesma visão que o shaper, torna-se possível fazer pranchas à distância. Basta imputar seus dados digitalmente na máquina.
Outro detalhe interessante é que a máquina de shape também serve de fonte de renda, na medida em que outros shapers alugam o seu uso.
Atualmente, Cláudio investe em poucos atletas e prefere focar seu trabalho em algumas promessas da nova geração. Seu mercado está mais concentrado no Rio de Janeiro, além de exportar para os EUA e Costa Rica. Na sua percepção, o produto brasileiro ainda sofre preconceito no mercado externo, onde consideram inferior a qualidade do material utilizado.
No mercado interno, Cláudio avalia que o grande filão continua sendo o consumo direcionado para o lazer, principalmente filhos de ex-surfistas e longboarders. Para ele, o mercado de competição também é significativo, porém mais específico para pranchas de alta performance.
Para entrar em contato com Cláudio Valle envie mensagem para [email protected] .