
Há 20 anos. Férias de verão na então vazia praia de Juqueí, nossa rotina era mais ou menos essa: o Kabeça acordava muito cedo e passava na minha casa.
Eu já estava pronto. Bermuda, parafina e prancha. Passávamos na casa do Alemão, que nunca estava pronto. Aliás, muitas vezes nem acordado!
Enquanto o esperávamos, ficávamos assistindo aos filme de surf da época. Éramos três moleques, vidrados na frente da TV, prometendo chegar no Cantão e fazer as mesmas manobras. Ou quase isso.
Assistíamos ao mesmo filme por todo o verão. E sempre com atenção máxima às manobras. Nas mais complicadas, além de ver e rever trocentas vezes, ainda assistíamos quadro a quadro, pra tentar entender todas as ?dobraduras? de joelho e colocadas de prancha. Aquilo era um estudo!
Hoje. Ao chegar na minha produtora, tive a feliz notícia de que o quadro clínico do videomaker Timmy Turner, autor do filme “Second Thoughts”, apresentou uma melhora considerável nos últimos dias.
O californiano tem feito longas sessões de fisioterapia. Segundo o relato de Jessica, sua mulher, Turner estava explicando num mapa, para o fisioterapeuta, o caminho que leva à sua casa. Uma vitória e tanto para quem estava em coma induzido e passou por duas cirurgias no cérebro.
Semana passada. Verão em São Paulo, um calor infernal. Fomos eu, o Alemão e o Selvagem (um quarto elemento dos tempos em que Juqueí era vazia) na mansão do Kabeça assistir “Second Thoughts”, do mesmo Timmy Turner que melhorou hoje.
Éramos quatro moleques passados dos trinta anos, vidrados na frente da TV. Com atenção máxima às manobras. Vendo e revendo trocentas e duas vezes, assistindo quadro a quadro, para ainda tentar entender todas as ?dobraduras? de joelho e colocadas de prancha.
E ontem ainda foi diferente porque, com algum dinheiro no bolso, deixamos a imaginação nos levar, para uma ilha deserta na Indonésia, com longas ondas tubulares e bancadas secas.
Um lugar inóspito, onde teríamos que aprender a lidar com a selva e providenciar comida e água. Exatamente assim, como fizeram os amigos Turner, Potter e Schwartz no filme. Quer dizer, com a direfença consensual de que a cabra nós não mataríamos.
Resumindo, ontem e hoje serviram para mostrar algumas coisas:
É possível manter a amizade por 20 anos.
É possível se recuperar da ação de uma bactéria devastadora.
É possível fazer uma viagem fantástica com os amigos.
Enfim, é possível cultivar o que vale a pena na vida e transformar o que não vale.
Abraço e boas ondas.
PS ? O Kabeça ainda acorda muito cedo.