Cinco anos de vida nova

Na noite de 8 de junho de 2000, a vida do santista Paulo Eduardo Chieffi Aagaard, o Pauê, foi marcada por um grande revés. Nada mais seria como antes.

 

Ao atravessar uma linha férrea em São Vicente, Pauê foi atropelado por um trem que trafegava sem sinalização e teve parte das pernas dilaceradas.

 

Ele chegou a ficar 56 dias internado, correndo risco de morte. Porém, se recuperou.

 

Pauê encontrou nas próteses as pernas que não tinha mais e viu no esporte o alicerce para uma nova vida.

 

Momentos angustiantes e tristes se transformaram, pouco a pouco, em etapas de alegria, reconstrução, de vitórias pessoais, como a conquista do título mundial de triatlon na categoria amputados bilateral, em Cancun, México, em 2002.

 

Ontem, exatos cinco anos depois do acidente, ele é conhecido em todo o Brasil e exterior. Mesmo sem ter parte de suas pernas, Pauê enfrenta atualmente rotinas diárias como a de qualquer pessoa e mantém uma vitalidade de causar inveja.

 

Recentemente, esteve em Portugal para falar sobre sua história de vida em um evento de surf e em emissoras de televisão. Além de pegar ondas e disputar provas de triatlon, o atleta destina seus esforços para promover o esporte adaptado como fator de inclusão social.

 

Ele ministra palestras, busca parcerias, é admirado por muitos, enfim, é um jovem de 23 anos acostumado a ajudar ao próximo. Em um bate-papo descontraído, ele conversa abertamente sobre o acidente e afirma que não consegue imaginar se sua vida seria melhor ou pior do que agora. Pauê sabe apenas que seria infeliz se desistisse de lutar. Confira abaixo a entrevista com o triatleta e surfista.

 

Depois do acidente, o que o dia 8 de junho representa para você?

 

Posso dizer que aquele dia foi o surgimento de uma nova vida, um novo Pauê. Hoje faço uma retrospectiva e lembro que, há cinco anos, eu estava lutando pela vida! Eu me recordo de tudo o que aconteceu e no que construí nestes anos. Mas, não considero um aniversário. Para mim, é apenas mais uma data especial. Se não morri naquele dia, com certeza existe um motivo maior para estar aqui.

 

Você mudou seu jeito de ser?

 

O acidente abriu um leque de opções e serviu como estímulo, que antes eu não tinha. Hoje, sirvo como referência para outras pessoas, gente de todo o País que me encontra, liga ou envia e-mail, interessados na minha forma de superar obstáculos como portador de uma necessidade especial. Além de estar envolvido com o triatlon e o surf, me preocupo em promover a inclusão social por meio do esporte adaptado.

 

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Você sempre acreditou em Deus?

 

Sempre acreditei em uma força maior. Acho que pode chamar isso de Deus. Esta fé me ajudou a encarar toda a fase dolorosa e a reagir para dar a volta por cima.

 

Como era a sua vida antes do acidente?

 

Antes eu não almejava seguir uma carreira no esporte. Eu me preparava para o vestibular. Aí tudo mudou, num piscar de olhos. Comecei a me adaptar e a lutar pela sobrevivência. Pelo esporte, percebi que melhorei minha reabilitação pós-acidente.

 

Foi o incentivo que precisava. Como tinha o desejo de voltar a surfar, uma de minhas paixões, passei a nadar e fazer musculação ainda na cadeira de rodas. O resultado disso todo mundo vê hoje: faço triatlon e já surfo sem as próteses.

 

Como você acha que seria seu futuro se nada disso tivesse acontecido?

 

Eu poderia ter um futuro de sucesso ou estar na mesma… Não dá para saber. Eu sempre gostei muito da área de saúde e pensava em ir para o exterior para desenvolver alguma técnica neste ramo. Cheguei a prestar vestibular para o curso de Medicina. No entanto, veio o acidente.

 

O engraçado é que passei para a segunda fase do processo seletivo, mas fiquei encurralado, pois o esporte estava me fazendo muito bem. Pensei, vai que dê um azar e acabo conseguindo entrar em Medicina… (risos). Eu teria que estudar em período integral e deixar o esporte de lado. Meus objetivos já eram outros. Naquele momento, eu achei mais importante ver o lado pessoal.

 

Em seu blog na Internet, a frase “… hoje aprendi a caminhar com as minhas próprias pernas…” está destacada. O que significa para você?

 

Isso foi logo após o acidente. É uma frase de duplo sentido. Significa ter que aprender a andar mesmo, mas também a encarar a nova realidade. Tive duas opções: me entregar e ser infeliz ou batalhar e ver no que daria. Certa vez, uma jornalista da Folha de São Paulo propôs que eu falasse sobre o que era andar para mim. Disse que era como andar nas nuvens porque eu não sentia o chão. Foi bem legal, até hoje lembro desta frase.

 

Mas, antes do acidente você também aprendia a caminhar com as próprias pernas?

 

É como eu disse, acelerei este processo. Tive que amadurecer mais rápido. Hoje tenho certeza que coisas se evidenciaram muito mais cedo para mim.

 

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