Nem sempre a vida percorre os caminhos que planejamos. Agora, por exemplo, escrevo sobre um assunto nada planejado, mas que não consigo deixar passar sem que algo seja dito.

 

Desde sábado à tarde, nós mulheres passamos a engordar a lista de mortes em redes de pesca no litoral do Rio Grande do Sul. A surfista Júlia Rosito, de 21 anos, morreu afogada presa a um cabo de rede, quando tentava varar a arrebentação num mar agitado e com muita corrente. Que droga!

 

Por que isso tem que acontecer todo início de inverno gaúcho? De quem é a culpa? Pois é, essa pergunta está difícil de ser respondida. Hoje, no RS, existe a lei 2004 que formaliza locais de pesca e de surfe. Alguns municípios não cumprem a lei, segundo o presidente da Federação Gaúcha de Surf.

 

Que descaso, vidas jogadas fora a exemplo de tudo que acontece nesse país, seja pela violência urbana, no trânsito, na falta de saúde pública ou pelo abuso de poder por grande parte dos governantes que nada fazem pelo povo a não ser que seja em benefício próprio ou de seus familiares. Mas o que dizer deste caso, em que havia uma placa delimitando as áreas e cada um fez seu papel conforme prevê a lei?

 

No caso da Júlia, o local era uma área de transição. “Ela estava no início da área de surfe e no fim da área de pesca. Ali havia um cabo que prende a rede, só que o cabo não é uma linha reta e com a corrente de sul fez uma enorme curva entrando muito na área de surfe,” contou Luis Otávio, namorado de Júlia. E aí, de quem é a culpa? Será que essa lei está bem feita? Será que ninguém previu que isso poderia acontecer e que o mar não é uma coisa estática, estando sujeito sempre às alterações da natureza? Talvez seja preciso rever esta lei imediatamente!

 

Eu não conhecia a Júlia. Apenas conversei com uma pessoa que tinha todos os detalhes do ocorrido. Primeiro foi o namorado dela que se enrolou no cabo e rapidamente tirou o leash,  passando para o outro lado e recolocando-o novamente. Depois foi a vez da Júlia. Mas é sempre assim, tudo acontece muito rápido e sem que se perceba, acaba em tragédia. Uma coisa não sai da minha cabeça: Será que todos os surfistas que entram num mar deste estão realmente preparados?

 

Essa foi uma situação atípica, que pode complicar a vida de qualquer um até tirar sua vida. Mas fico pensando nas várias cenas que presencio todos os verões que acabam em afogamentos e tragédias. O surfe não é um esporte como outro qualquer que você sai tentando por simples prazer. No surfe estamos encarando uma das mais poderosas forças da natureza, o mar. Vejo meninas  e meninos de todas as idades, que se jogam no outside, em qualquer condição sem temer nada. Na verdade, muitas vezes é falta de conhecimento da situação, despreparo total. Em muitos casos é preciso temer o mar, pois é ele que vai dizer qual é o seu limite, até onde você pode chegar. De qualquer jeito, nunca devemos esquecer que ele  é sempre mais forte que nós.

 

Neste verão, senti na pele a dificuldade de passar meus conhecimentos de surfista para minha filha e um grupo de amigas. Todas surfistas com 13 e 14 anos. Num dia de mar agitado e com muita corrente elas resolveram entrar no mar em outra praia e vieram me avisar. Logo proibi, mas a revolta comigo foi geral e as que estavam sozinhas me ignoraram e foram para o mar. Minha filha tentou me convencer de todas as formas de que seria ridículo não entrar, pois ficariam todas bem na beira. Como santo de casa não faz milagre, decidi ir junto e observar de perto.

 

Elas mal se jogaram na água e a corrente começou a levá-las para o canal onde o mar estava enorme. Elas levaram um super susto! Algumas foram salvas por outros surfistas. Minha filha, que saiu da água sozinha, aprendeu a lição e eu também por  não ter sido tão dura e fiel aos meus sentimentos. Hoje contamos com o apoio das escolinhas de surfe. Todos podem ter um início de carreira, pelo menos, mais seguro recebendo informações básicas traduzidas em aulas teóricas e práticas. Só que isso não é tudo, ser prudente ou correr o risco será sempre uma decisão pessoal. Respeitemos nossas limitações!

 

Muita gente comentou e alguns até condenaram a atuação da Jacqueline Silva e da Tita Tavares em Teahupoo. Elas não surfaram nenhuma onda durante suas baterias. Faltou coragem para se jogar de cabeça? Elas simplesmente tiveram azar de não conseguir entrar nas ondas ou  tiveram muita coragem de respeitar seus limites evitando que o pior viesse a acontecer? Se foi por medo, admiro vocês mais ainda. Admiro por serem fiéis aos seus sentimentos e instintos de sobrevivência, típicos de almas femininas.

 

Quanto a Júlia, infelizmente ela não teve a chance de ouvir sua voz interior e foi pega de surpresa por uma cilada da vida.

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