América do surf

Chile em roteiro camarada

Fazer um roteiro de viagem ao Chile em um só artigo é praticamente impossível.  Para falar do potencial do litoral e de cada um de seus pequenos povoados e ondas daria para escrever um livro enorme.

 

Por isso vou concentrar meu relato numa milésima parte dessa maravilhosa costa, Pichilemu, onde surfei as melhores ondas da minha vida.

 

As caras de Pichilemu  

 

Depois de me despedir do Rio de la Plata, atravessar a fronteira, cruzar quilômetros e

quilômetros de extensas pastagens, subir e descer centenas de montanhas para transpor o país de lado a lado, dobramos uma curva e o Oceano Pacífico apresenta-se diante de nossos olhos, enchendo-me de tranqüilidade, alegria e paz.  Tínhamos chegado ao Chile.

 

Ao longe, vimos uma ponta muito comprida encaixada no Oceano.  Não imaginávamos que isso seria a extensão da onda mais “povoada” do lugar.

 

A gente sabe por estórias que as esquerdas são longas, mas nunca se imagina que a coisa é assim até enfrentar as ondas, que fogem da tua capacidade visual.   

 

As ondas

 

A região oferece basicamente três picos de esquerdas: La Puntilla, Infiernillo e Punta Lobos, cada onda com uma magia diferente.

 

Puntilla É a praia mais concorrida, por ficar em frente ao povoado e por ser a mais constante.  A onda é incrível, dependendo como está o banco de areia, pode conectar desde atrás da ponta até a praia, o que se pode traduzir em uns dez quarteirões ou mais numa mesma onda; com tubos e seções alucinantes para manobras.

 

Infiernillo Fica a uns dez quarteirões de La Puntilla em direção ao Sul.  Segundo os locais, é

a onda mais pesada de Pichilemu, onde quebram os melhores e mais pesados tubos, mas também a mais inconstante.

 

Em meados dos noventa saiu nas revistas importantes do mundo uma foto da onda na famosa campanha da Rip Curl “The Search”, com uma série de esquerdas a la Indonésia, mais que perfeitas, entrando alinhadas. 

 

Quebrando de forma clássica, Infiernillo combina seções de tubos pesados e perfeitas paredes de água.

 

Punta Lobos É o lugar mais mágico de Pichilemu;

seguindo para o Sul, por uns sete quilômetros em caminho de terra e – agora – asfalto cercado de pinheiros e ciprestes, desembocando numa enorme ponta rochosa que tem ao final a famosa Las Tetas. 

 

Além de Las Tetas, as outras seções da onda são El Mirador, El Diamante e La Playa.

As ondas podem quebrar desde meio metro em La Playa, até uns 5 em Las Tetas.  O astral é puro surf, quem chega lá entende. O sentimento é de pura magia.
 

Se o vento sopra do Norte ou se o mar está muito pequeno, é bom ir para o outro lado de

 

Ponta Lobos, um beach break chamado La Pancora. São 13 quilômetros de praia, com ondas pesadas quebrando uma ao lado da outra. Normalmente, ninguém vai.

 

Em Pichilemu no verão, os primeiros raios de sol às vezes surgem às 5:30 e escurece por volta de 21:30. Então, são cerca de 16 horas diárias para surfar altas esquerdas muito longas.
 
A melhor hora para surfar é durante a maré baixa, com muitos tubos. Para conferir a tabela de marés, é bom consultar a excelente revista local Marejada, distribuída gratuitamente na região.
 

A temperatura da água é realmente muito baixa e exige um neoprene 4/3, além de botas.

 

O quiver deve incluir uma 6´0 para os dias longos e divertidos em La Puntilla; 6´7 a 7´ e algo mais para os dias de tubos em qualquer dos picos;  e até uma 9′ ou mais para surfar Las Tetas, em Punta Lobos, quando entram os grandes swells.

Temporada
 
Há ondas o ano todo, mas a melhor época é de fevereiro a maio, quando o vento Sul da terra é mais suave e há dias sem vento.  Durante o inverno os swells grandes do Sul são mais constantes, bem como o vento Norte, maral. 

 

Além disso, a temperatura é mais do que gelada. No verão tem muita onda e muita mulher.

 

É muito importante respeitar os “locales”.  Com o tempo, aumentou a quantidade de visitantes e, como em qualquer lugar, os locais podem ficar violentos.
 
Há inúmeros secret spots nos arredores de Pichilemu e o desafio é encontrá-los.
 
Pichilemu é uma jóia.  As ondas são incríveis e comparadas às de Bali, para onde nunca fui, mas ouço de amigos que não é muito diferente e que uma diferença é a necessidade do uso de roupa de borracha. 

 

Não é à toa que a região é bastante visitada por australianos, americanos e europeus.  Temos muita sorte por ter esse paraíso tão perto e não devemos deixar de visitá-lo.

 

Hospedagem

 

Encontrar um lugar é bem fácil, pois há muitas opções. Dependendo da época, dá para encontrar pousada por apenas US$ 1 por dia. Hotéis não muito luxuosos, mas confortáveis e seguros saem por cerca de US$ 5.

 

Se viajar em grupo, uma boa opção é alugar uma cabana em um dos tantos complexos do povoado.  O preço depende muito do humor dos proprietários e fica de acordo com a capacidade de cada um para negociar.

 

Larica O ideal para quem faz uma viagem de baixo custo é ir a um supermercado, no caso de estar numa cabana alugada. 

 

Caso contrário, a melhor opção é comprar “pescado con agregado” (peixe com guarnição) que custa uns 1000 pesos chilenos (pouco mais de um dólar), excelente com “ensalada chilena” (salada chilena), em um dos bares da principal rua de Pichilemu. 

 

Também fazem “empanadas” (pastéis) em um local de argentinos e uruguaios na rua principal, onde você encontra por todos lados batatas fritas e “anticuchos” (tipo o brasileiríssimo churrasquinho, mas feito de coração de boi).

 

Depois de pegar as melhores ondas da viagem, recomendo comemorar na  casa do René (434-1045), um descendente de italianos que abre as portas de sua bela casa para surfistas famintos pela culinária típica de seus ancestrais. 

 

Ali você se sente em casa, assiste uns vídeos, compartilha uma cerveja e escuta as histórias malucas do René.

 

Mala É importante levar bastante agasalho, pois mesmo no verão a noite é bastante fria.

 

Balada Em Pichilemu é obrigatório passar pela Discoteca 127 e conferir as chilenas. Experimentar o pisco (aguardente local) é fundamental, sem exagero, pois a ressaca pode ser insuportável.

 

 

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