
A temporada havaiana começa com o tradicional AGM (Annual General Meeting), reunião anual do Circuito Mundial de Bodyboard. Nela são decididas as diretrizes do ano que vem pela frente.
É também quando ocorre a votação para os membros do Executive Board, que é a parte da IBA (International Bodyboarding Association) responsável pela votação das propostas ao longo do ano.
A novidade na votação do board este ano foi a inclusão de Guilherme Tâmega, que entra para substituir o sul-africano Alistair Taylor, que sempre fez um trabalho brilhante.
Tâmega vai ter a oportunidade de mostrar seu amadurecimento fora da água e assumir uma postura representativa mais sólida no circuito mundial. Os outros votados foram Mike Stewart e Karla Costa-Taylor, que se juntaram a Steve Kirkmann, Derek Hulme e Mark Fordhamm no Executive Board.

Entre as muitas propostas, está a unificação mais abrangente do Tour. Concluiu-se que países como Portugal, Brasil, Ilhas Reunião, Japão e qualquer outro ao redor do mundo podem fazer um evento do Super Tour. O fator “ondas” continua importante, mas não é o único. O mercado exige isso e finalmente se enxergou o lógico.
Nos próximos dias, será decidido o mínimo de premiação para um evento da divisão de elite (WST), bem como as condições para ser aprovado o campeonato. Isso vai beneficiar o esporte, pois as estrelas vão ter que ir a todos os lugares para poder continuar no topo. Terão que competir no Tahiti, Portugal e Japão, de igual para igual. Será mais justo e a disputa mais abrangente.
Os eventos regionais continuarão classificatórios para o Tour. A regra continua a mesma: descem oito e sobem oito. Já nos eventos da divisão de elite, os competidores do WQT disputarão as triagens, que vão se encaixar no evento principal, ou seja, os 24 primeiros entram na frente e os trialistas vão avançando.

O formato de rounds será abolido, ficando restrito aos eventos especiais. É a hora de todos que querem fazer uma etapa começarem a trabalhar, pois está na hora de explodir de novo. Eventos na América Central estão confirmados, bem como Japão e América do Sul.
Eu continuo na direção da América do Sul e Central e vou exigir mais dos representantes. É hora de crescer. Fizemos várias reuniões com os representantes regionais – Japão, Europa, Austrália, EUA / Hawaii – e um maior intercâmbio de idéias será feito. A presenca do português Rui Felix nas reuniões foi fundamental para se fortalecer os laços Europa / Américas / Australia. É o comeco do sonho de uma associação realmente mundial, que vai se fortalecendo à medida que o esporte cresce em outras regiões. As vaidades e interesses se curvam frente a necessidade econômica do mercado e do esporte.
Vamos ao campeonato de Pipe. Perdemos o primeiro dia da janela na espera de um swell melhor. E a medida que os dias iam passando, as ondas não entravam, rolou o primeiro dia de WQT, com boas condições. Jorge Baggio passou a sua primeira bateria, mas não deu sorte depois. Guardou as energias para o dia que quebrou Waimea, entrou e botou pra baixo.

Hermano Castro passou suas baterias, mas no segundo dia de WQT, ele errou um aéreo que seria sem dúvida um dos mais bonitos do campeonato. Mandou na boca do tubo e não sabemos até hoje porque não completou. Não conseguiu achar mais ondas boas. O mesmo aconteceu com Paulo Barcellos e Roberto Bruno.
Bruno errou ars pesados, em uma bateria casca-grossa com Jeff Hubbard. Errou um para o Backdoor e outro pra Pipe. Se tivesse acertado, a história seria outra. Barcellos também não foi muito feliz. Nessa hora, o mar estava com péssimas condições, e sorte na escolha das ondas era fundamental. Uri Valadão caiu com Josh Kirkmann e Ryan Hardy. Os três estavam disputando palmo a palmo. Uri estava em segundo, mas faltando cinco minutos para o final, se posicionou mal e Josh pegou um tubo alucinante, ao mesmo tempo que Hardy pegava a melhor onda da bateria para o Backdoor. Um tubo, combinado com um rollo aéreo e outro rollo.

Enquanto isso, Luis Gustavo vinha atropelando, com manobras insanas para Backdoor, sem querer saber o que tinha embaixo. Foi um guerreiro que surfou muito, dropando as maiores sempre e arrebentando. Teria ido para a final, não fosse o “calo” dos brasileiros, o australiano Josh Kirkmann, que pegou o melhor tubo do dia pra Pipeline, deixando Luis em terceiro na bateria, vencida por David Winchester, que sem dúvida foi um dos grandes nomes desse campeonato.
No Super Tour, tivemos umas das disputas mais emocionantes dos últimos tempos.
Os concorrentes foram caindo: Sean Virtue – que deu o aéreo mais alto do campeonato – e Jeff Hubbard – que deu um quase tão alto – deram adeus a disputa do título.
Enquanto isso, os australianos vinham comendo as baterias. O português Rui Ferreira também foi destaque: fez uma bateria de quartas-de-final onde eliminou o sempre perigoso Ryan Hardy por apenas 0,8 décimos na média de pontos. O terceiro lugar do evento mostrou mais uma vez sua competência. Com esse resultado, Rui tornou-se o melhor competidor Europeu de todos os tempos em Pipeline.

Tivemos performances memoráveis de Spencer Skipper nos tubos de Pipe. GT voava sem parar. Na semifinal, pegou uma das melhores ondas do campeonato. Dropou para Backdoor, mandou um rollo aéreo, caiu na parede, back flip e rollo aéreo.
Damien King vinha com tubos sólidos e muito profundos. Todos estavam arrebentando e foi um show de bodyboard. Na final, tudo já estava escrito. Tocou a corneta e King pegou uma das melhores ondas do campeonato. Todos já sabem a história, tirou nota nove e meteu uma mão no título. Só que GT estava na água, e não se pode duvidar dele.
E vem o momento que decide tudo; uma onda para Backdoor sobe para King. Ele no pico e GT rema para cima dele, tentando ir pra Pipe. Bloqueia a passagem do australiano, desce reto e caracteriza a interferência.
Depois disso, Tâmega começou a surfar que nem louco, não fosse a interferência, teria terminado em segundo. Mas o dia e o ano eram mesmo de Damien King. Mereceu o título e se mostrou constante em todos os tipos de mar.
Ganhou Teahupoo, ficou em segundo em Portugal e em quarto em Shark Island.

GT se machucou em Teahupoo, e correr atrás assim a gente sabe que é difícil. Mas, só para variar, mostrou que não se pode brincar com ele. 2004 está aí, com disputas emocionantes.
Teve ainda a cena lamentável do cara que invadiu a área. Devia ser louco, pois quando o salva-vidas do Jet foi falar com ele, mandou um F… para ele e disse que não ia sair de jeito nenhum. Ninguém gosta de violência, mas da maneira que ele desrespeitou a todos, não deu para escapar. Apanhou muito e ainda foi pouco…
Foi uma maneira muito ruim de aprender uma lição, ficou com a cara deformada, uma cena que deu até um certo nervoso. Mas isso foi só um detalhe, em um campeonato de um ano onde teve de tudo.
Obrigado e parabéns ao quadro técnico, estão todos de parabéns e foi exatamente como se previu. Um dos melhores quadros que já trabalhei em Pipe. Chefiados por Bruno Calheiros, que mostrou porque é uma das maiores referências no Bodyboard Mundial, o julgamento ficou pequeno.

Agradeço a Craig Hadden, da Australia, perfeito nas notas e no suporte. Midget Smith, da Califórnia, que com seus mais de 20 anos de julgamento, mostrou experiência nos momentos cruciais. Ao Corey por sua competência e profissionalismo, coordenando tudo o que se refere a bodyboard no Hawaii. E também ao Jason, da África do Sul, pelo amadurecimento nos campeonatos.
Agradecer ao Duda, pela força que dá a todos, incondicionalmente. Ao surfista do Posto 5, Marcio Necrose, que atualmente é Fisico na Universidade de Notre Dame, e que tomou a pior série no dia em que Pipe estava grande e todos na praia pensaram que tinha morrido, ficou duas ondas embaixo da água, no coral de Backdoor. Um sobrevivente, literalmente. Assistir aos filmes de Maverick’s deu resultado.
Parabéns a todos os campeões, de todas as categorias do Brasil. Esse ano foi difícil, mas todos juntos, com consciência e maturidade, chegaremos lá. Temos eleição em julho e uma pessoa com a mesma responsabilidade tem de dar continuidade ao trabalho, sempre buscando a união entre todos e pegando o que se tem de melhor pra trabalhar.

Em março será realizado o ISA Games no Equador, e fui convocado pra ser o Head-Judge do Bodyboard na competição. Pela primeira vez no ISA será usado um head-judge de bodyboard. É uma grande honra poder participar do maior evento esportivo do mundo do surf e tenho certeza que será um excelente trabalho.
Eu e meu irmão começamos a pegar onda de peito no Posto 5, junto com Renan Rocha e o Tâmega. A mesma galera… Meu irmão surfa até hoje, Renan é o que é, e o GT também. Bruno Calheiros pegava onda de peito em Icaraí e Itacoatiara, Guilherme Herdy também…
Bruno é o que é no julgamento mundial e Herdy é o que é no surf mundial. E são grandes amigos. Não é preciso dizer mais nada… Só evoluir. E como é dito desde a descoberta: “Surfar é a arte de deslizar nas ondas”.
Um abraço a todos e vamos trabalhar!