Espêice Fia

Cedric tem o clic

Em outra oportunidade aqui no Espêice Fia, fiz contato com Ricardo Gibo, criador da revista japonesa Surfaholic. Desta vez converso com Cedric Barros, outro brasileiro envolvido com publicações no exterior.

Foi na França onde eu o conheci. Ao lado de sua esposa e filho pequeno, ele perambulava pelas areias de Lacanau, Hossegor e Biarritz durante os WQS daquela perna européia. A temporada começava em Newquay, Inglaterra, e se estendia por Espanha e Portugal.

Assim seguiram-se alguns anos e logo Cedric estava trabalhando para sua revista nas ilhas Canárias. Por acaso me peguei pensando outro dia sobre sua pessoa e consegui seu contato através do franco-brasileiro Eric Ribiere. 


E-mail vai, e-mail vem e aí está a conversa com este carioca da gema, que hoje mora na Espanha e trabalha como free lancer, incluindo trabalhos na publicação “internética” da revista brasileira Parafina.

Mano, você é carioca. Como foi bater nas Canárias? Conte um pouco do seu trajeto até lá.

Sim, carioca da gema. Na verdade foi por pura casualidade da vida. Estava fazendo uma trip com minha mulher pela França e também fotografava os campeonatos para a revista Inside, aí do Brasil.

Foi durante um festão que rolou em Biarritz para comemorar a vitória do Ricardo Tatuí no WCT, que foi incrível, chegou de surpresa e foi ganhando dos melhores da época para proclamar-se campeão em Biarritz. Se lembra?

 

Então, na festa encontrei com o grande free surfer Amir Ferreira. Perguntei para ele, um cara que já havia viajado tanto, se conhecia um lugar maneiro para morar e criar meu filho.

Ele viu que minha esposa era espanhola e falou das Ilhas Canárias, território espanhol, onde rolavam altas ondas e muito trabalho. Me explicou, que tinha um barco que saía do Sul da Espanha e dava até para levar meu carro.

 

Dito e feito, no dia seguinte partimos para colher maçãs no Norte da França para juntar um dinheiro a mais e partir rumo às Canárias.

Quando surgiu sua primeira revista?

Pô, boa pergunta. Já morando nas Canárias, comecei a trabalhar de free lancer para várias revistas espanholas e francesas. Então na época, mais ou menos em 1998, conheci um canário que estava começando uma revista de surf e buscava gente para trabalhar com ele.

Foi quando apareceu um outro fotógrafo canário e decidimos fazer parte deste novo projeto. Foi legal e funcionou, pois Miguel era um craque em programas informáticos e tudo relacionado com o mundo dos editoriais. Eu tinha muito contato no mundo do surf e já trabalhava como fotógrafo e Jose Vicente também era fotógrafo.

Foi quando surgiu a Radical Surf Mag, que no princípio era uma revista exclusivamente canária, mas com o tempo foi se tornando uma revista a nível espanhol. 

Você disse que fez três revistas, porque mudou de nomes? Fala um pouco de cada.

Na verdade não mudei de nomes. Comecei na Radical, que foi
meu principal trabalho por quase dez anos, pois além de fotógrafo também corria atrás dos anunciantes, fazia a distribuição em Lanzarote e Fuerte Ventura, também fazia parte do desenho gráfico, escrevia textos.

Mas um dia veio um cara e nos ofereceu juntar nossa revista e a sua editora, que fazia parte de um grande jornal canário, o “Canarias 7”. Eles estavam querendo entrar no mundo do surf e resolveram investir. De um dia para o outro, de dono de uma revista de surf virei assalariado.

Foi a maior cagada, mas meus sócios na época me botaram contra parede e tive que aceitar umas condições ridículas. Foi quando por outro lado, uma outra editora de Barcelona chamada Snow Planet resolveu também entrar no mundo do surf e através de Umberto, que era o grafista e webmaster da empresa e virou o responsável deste novo projeto chamado Cutback Mag me chamou para ser o diretor de fotografia.

O projeto de uma revista gratuita a nível espanhol me entusiasmava e o projeto canário já não estava dando muito certo. O único bom é que já não tinha que me preocupar com nada, cobrava todos os meses só pra tirar fotos. Então comecei a usar minha energia na Cutback Mag.

Como era o surf nas Canárias quando você chegou lá?

Cara, era muito bom, ninguém nos picos. A primeira ilha que cheguei foi Tenerife. Pois, como minha mulher estava grávida, pensei que nas outras ilhas não iria rolar assistência médica. Então escolhi Tenerife por parecer mais preparada.

Na época (1994) não se tinha tanta informação dos lugares nem existia internet, então era meio na sorte. Pô, me lembro quando cheguei em Alcala (Sul de Tenerife), hoje em dia uma onda super conhecida, e ninguém na água.

Estava 1 metro perfeito, altos tubos, e eu pensando: “será que dá para surfar esta onda?”. Fiquei um ano em Tenerife, nasceu meu filho e resolvemos nos mudar para Lanzarote, o North Shore da Europa.

Todo mundo me falava das tremendas ondas que rolavam nesta ilha, e eu não via a hora de conhecê-la. Realmente Lanzarote me surpreendeu por suas ondas e a similaridade com o North Shore de Oahu. No Norte da ilha na época não tinha nada, nem sequer ruas pavimentadas. Já o Sul era e é onde rola todo o turismo.

Surfava o El Quemao (Pipe canário) sozinho e muitas outras ondas. Só rolava um certo crowd na esquerda dos locais, mas nada comparado com agora.

 

No Quemao os únicos que apareciam por lá de vez em quando eram alguns free surfers da ilha de Gran Canária como Sergio El Halcon ou aussies como Rob Page e Gary Elkerton. Tinha ainda o surfista Basco Ibon Imatriain e Pablo Postigo, que no final comprou uma casa e ficou por lá.

Na maioria das vezes surfava praticamente sozinho, ou com dois ou três surfistas. Quando apareciam os profissionais, aproveitava para tirar fotos. Me lembro de ver uma vez o Dane Reynolds com só 16 anos com o team Quiksilver e o master Tom Carroll se jogando em Quemao, como era uma onda onde não existia localismo, muitos profissionais vinham treinar e tirar fotos.

Até lembro uma vez que veio o Tom Curren e seu irmão. Os locais levaram ele pra surfar no Quemao, pois queriam ver e aprender com o mestre.

 

Hoje em dia já não rola mais isso, demorou bastante para os locais se darem conta da tremenda onda que tinham bem em frente de casa. Primeiro foram os bodyboarders e muito depois vieram os surfistas locais. Deu pra tirar muito tubo sozinho.

Fiquei uns cinco anos em Lanzarote e depois me mudei para Fuerte Ventura. Outra ilha que no começo (ano 2001) não existia locais. Os locais eram praticamente os gringos e espanhóis, sobretudo galegos que viviam por lá. Fuerte Ventura é o paraíso do windsurf e agora do kitesurf.

 

Considerado um dos melhores lugares do mundo para velejar, e os windsurfistas foram os primeiros a surfar as ondas do lugar, pois aproveitavam os dias sem vento pra pegar umas ondinhas.

E hoje em dia? Como está o lugar depois das passagens do circuito mundial.

Mudou bastante. Lanzarote cresceu, mas o lance é que o North Shore guardou o mesmo encanto de sempre.

 

Bom, Lanzarote em geral se salvou da especulação imobiliária, pois um visionário chamado Cesar Manrique conseguiu passar uma lei de urbanização para toda a ilha que proibia a construção de edifícios de mais de quatro andares e coisas assim, então é uma ilha que cresceu com uma consciência muito ecológica.

O crowd no surf, como em todos os lugares no mundo, cresceu bastante, pois nosso esporte está em pleno auge. E claro, um campeonato mundial favorece este crescimento.

Soube que você enfrentou retaliações em determinados picos das Canárias por estar com a revista e divulgar os locais de surf. Quer falar sobre isso?

 

Na verdade nunca tive problemas, foi só com uns bodyboarders, mas por motivo pessoal. Mas já está tudo certo.

 

Também fui acusado injustamente de divulgar as Canárias, já que as ilhas sempre foram o North Shore europeu muito antes de eu chegar por aqui. Tanto que muitos dos primeiros surfistas das ilhas são estrangeiros.

 

Você falou que seu filho está surfando e que ele veio a se interessar depois. E sobre a fotografia, de alguma forma ele tem curiosidade no que diz respeito ao seu trabalho? Esqueci o nome de sua esposa, ela surfa também?

 

Somos uma família de surfistas. Rocio, minha mulher, a mais de 17 anos e meu filho Henalu, 16. Surfamos os três todos os dias. Meu filho demorou bastante para pegar o gostinho do surf.

 

Creio que por um lado foi minha culpa por insistir tanto e por outro as Canárias quase não existe beach break, só fundo de pedra. Então penso que foram estes os dois motivos principais. Ele só gostava de surfar na França (menino chique), então realmente só começou quando nos mudamos aqui pro Norte da Espanha.

Nas Astúrias têm altas praias, e onde mora meu sogro. É show de bola. Foi quando no verão, aos seus 13 anos, ele me disse que queria surfar. Deixei minha prancha e lá foi ele, nem quis me intrometer para não estragar.

 

E olha até hoje, agora está amarradão, já não quer fazer outra coisa. Surf é fogo, quando pega o gostinho é ruim de parar. Agora já é pra vida toda.

Demais, somos uma família de surfistas como a sua. E aqui nas Astúrias têm muita onda boa e estamos a cinco horas da França, um bom lugar para morar.

Também dividimos todas nossas atividades, minha mulher Rocio não só é minha companheira no dia-a-dia, mas também grande fotógrafa e videomaker.

 

Já fizemos vários vídeos juntos e ela também edita, fizemos uma revista juntos (Canarias Extreme). E meu filho, me ajuda também, este verão me ajudou gravando com a Go Pro.

E você, tem surfado? Qual o melhor pico das Canárias?

Todos os picos são bons, realmente Canárias é um verdadeiro paraíso. É o Hawaii europeu por excelência. São sete ilhas principais e várias ilhotas. Eu vivi em Tenerife, Lanzarote e Fuerte Ventura. Hoje em dia vivo no Norte da Espanha, nas Astúrias.

O melhor pico das Canárias? É difícil de responder, pois são vários e cada um tem suas qualidades. Se o cara estiver buscando tubos, El Quemao é a melhor opção. Longas direitas.

 

Tenerife tem muita variedade, Las Palmas é uma boa opção e estão as ilhas menos conhecidas. Resumindo, são um verdadeiro oásis do surf, wind e kitesurf.

Quais os Canários estão se destacando? Fala um pouco também do Jonathan Gonzáles, ele foi o primeiro expoente do arquipélago né?

Vi ele crescer, quando cheguei a Tenerife ele tinha 13 anos. Estava começando a surfar, e pouco a pouco foi ganhando todos os campeonatos locais, foi malandro, em vez de ficar nas ilhas, saiu fora, foi pra França com o team Quiksilver, seu patrocinador durante vários anos.

Pois aqui acontece o mesmo que no Hawaii, os surfistas locais não saem e isso impede um futuro melhor. E o Jonathan não deu esse mole. No começo de sua carreira viajei muito com ele. Tem um talento natural e, apesar de ter começado um pouco tarde, aprendeu rápido. Tem muito estilo e facilidade pra surfar.

Para mim e para muita gente é o melhor free surfer europeu. E só não chegou mais longe no mundo competitivo porque tem esse lado tão tranquilo das ilhas. Acho que falta mais esse lado competitivo que tem o Jeremy Flores, por exemplo.

 

Outros grandes nomes do surf canário são Jose Maria Cabrera, de Lanzarote, que também deixou o surf por um tempo e voltou várias vezes, e por isso não explodiu realmente.

Julian Cuello, das Palmas, também tentou a sorte durante uns anos no WQS, mas não é fácil e preferiu dedicar-se ao free surf e campeonatos locais e europeus e, claro os WQS das ilhas.

Mas o surf canário teve grandes surfistas como Felix Ortega, El Pecas, entre outros. O problema que antes da geração do Jonathan não se tinha tanta ajuda e por isso era muito difícil viajar a Europa para competir.

 

Outra coisa que ajudou muito o surf canário a ser mais competitivo foi o circuito local e claro, os WQS (El Confital, Lanzarote e Tenerife, onde também já teve um).  

E o Eric Rebiere? Ele mora nas Canárias? Você acompanha o surf dele? Existem outros brasileiros no arquipélago?

Cara, conheci o Eric através do Joe Sonis. Me lembro quando ele chegou na Europa, na França. Já chegou abalando, Eric é um lutador nato. No mundo da competição ganhou tudo, foi o primeiro europeu a entrar no WCT.

E sabe trabalhar com os fotógrafos. Trabalhei com ele bastante vezes. É muito atirado e fácil tirar foto de um cara que está sempre preparado para qualquer tipo de mar.

Comprou uma casa em Lanzarote e agora está descobrindo novas ondas por lá junto com surfistas canários. Acho que é muito bom para as ilhas ter um surfista como o Eric.

Tem outros brazucas que moram nas ilhas e também moraram. O próprio Amir Ferreira morou lá. Muita gente ainda lembra dele e das loucuras que ele fazia e das ondas que ele dropava.

Tem o Alcydes Royd, grande shaper que mora em Tenerife. O Marcelo Almeida, de Cabo Frio (RJ), morava em Mallorca e ia passar as férias na minha casa até que se mudou de vez pra Fuerte Ventura. O Gilmar, companheiro do Eric e que tira altos tubos no Quemao.

Mas, comparado ao Hawaii, por exemplo, são poucos os brasileiros que moram nas ilhas Canárias.

 

Como você vê os brasileiros hoje em dia dentro do surf mundial?

Pô, essa pergunta é fácil de responder. Você e o Teco (Padaratz) abriram o caminho para uma geração que está fazendo o povo brasileiro sonhar. Falta muito pouco pra ter um campeão mundial brasileiro.

O Gabriel Medina está quebrando tudo, ainda me lembro quando vi ele ganhar lá na França pela primeira vez. Foi um Pro Junior e foi lá que ele explodiu. Me lembro que na final todos os principais diretores das marcas de surf vieram e muitos tops também não quiseram perder o espetáculo. Ele conseguiu 20 pontos de 20 possíveis.

E não para de sair novos talentos, temos uma escola de surf inesgotável. Muita gente aqui na Europa está de olho no surf brasileiro. E não é só no mundo da competição que estamos destacando, é no free surf, nas morras. O Brasil hoje em dia já não e o país de samba e futebol, é também de muito surf.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.