
Na opinião de várias pessoas do meio, como surfistas profissionais, mídia e simpatizantes do esporte, o carioca Carlos Felipe da Veiga Lima Rodrigues, mais conhecido como “Cauli”, é um dos principais surfistas brasileiros de todos os tempos.
Considerado o atleta mais competitivo do país na década de 80, influenciou e foi a grande referência de toda uma geração numa época em que o surfe começava a mostrar seu potencial.
Atualmente com 47 anos, Cauli foi um dos principais responsáveis pela profissionalização do esporte, tanto pelas atitudes, como treinos intensos de aproximadamente oito horas por dia em vários picos cariocas e a elevação dos parâmetros das manobras, como os longos cutbacks e as mortais e velozes batidas de backside, que marcaram época.
Ele começou a surfar espontaneamente, pois existia um grupo de amigos que gostava de ficar em pé na maioria dos esportes, como os carrinhos de rolimã e as bicicletas nas ladeiras. Depois disso, iniciaram os treinos nas pranchas de “planonda” (isopor) e, logo depois, Cauli ganhou do tio uma prancha de fibra de vidro para dividir com o irmão.
Seu principal pico era a praia de Copacabana, que Cauli lembra com saudosismo comparando-a com Sunset Beach, no Hawaii, antes do aterro. Além do bairrismo que já existia, foi proibido por seus pais de ultrapassar os limites do quarteirão, e tinha que surfar em frente de sua residência. O local era o posto 5, considerado um dos melhores picos de surf do país e que, segundo Cauli, tinha ondas todos os dias e raramente ficava flat.

Junto com sua turma, ele iniciou nas pedras do Arpoador e, em seguida, descobriram que as ondas de Ipanema eram propícias para as pranchas de isopor, já que em Copacabana as ondas eram mais cavadas.
Houve um período que o governo aprovou uma lei restringindo a prática do surf em algumas praias. No Arpoador, por exemplo, somente era possível surfar em horários pré-determinados. Os policiais chegavam de camburão e tocavam uma sirene para que os surfistas saíssem do mar, e quem não obedecesse tinha a prancha apreendida.
Num dado momento foi terminantemente proibida a prática do esporte. A polícia ficava atenta ao desrespeito à lei, e quem morava em Copacabana tinha que surfar clandestinamente. Assim que os policiais chegavam, todos corriam para se esconder nos prédios próximos.
O próprio Cauli foi protagonista de um episódio curioso. Vários surfistas estavam em Copacabana e assim que a polícia chegou alguns permaneceram na água. Os policiais fizeram então um cordão de isolamento para aguardar a saída de todos e prender os infratores. Percebendo toda a situação, Cauli ficou sentado no outside e deixou que a maré o levasse bem devagar para longe do pelotão. Distraídos, os policiais não perceberam a situação e depois que o surfista já estava fora da água, correndo pela areia, um dos soldados percebeu e avisou aos demais que tinha um “elemento em fuga”, mas já era tarde.

“Eu pertencia a uma turma de aproximadamente 15 pessoas, conhecida como os ‘metralhinhas’, que implicava com os surfistas da geração mais antiga. Sempre freqüentávamos as festas do Iate Clube, mas não para curtir e sim para aterrorizar. Porém, como alguns daqueles surfistas não tinham pranchas, tomavam de quem era da minha turma quando nos encontravam na praia, devolvendo apenas no final da tarde. E tinha também um lance bem engraçado de deixar alguns moleques sem calção, completamente nus. O calção era pendurado na torre do telégrafo do Arpoador e o garoto tinha que buscá-lo. As maiores vítimas foram o Petit – o “Menino do Rio”, cantado por Caetano Veloso – e o Paulinho Proença”, conta Cauli.
O intercâmbio com outros surfistas era escasso e também a conseqüente falta de materiais específicos para a prática do esporte. Para dar uma idéia, certa vez Cauli foi com seu pai até a fábrica do Coronel Parreiras para encomendar uma prancha e teve de ficar numa fila de espera por cerca de seis meses. Depois esperou mais três meses para a prancha ficar pronta, ou seja, praticamente um ano.
Naquela época, os surfistas somente tinham a oportunidade de conhecer outros produtos quando um abonado – já que a passagem de avião era uma fortuna – retornava de outro país. No Arpoador, existia a Escola Americana e lá fizeram contato com vários alunos. Com isso, começaram a conhecer as novidades que chegavam dos Estados Unidos. Um de seus amigos, chamado Jorge Prettyman, foi o primeiro surfista dessa geração a fazer uma viagem para o Hawaii. Assim que retornou das ilhas, trouxe um filme, convidou toda a turma para assistir e todos ficaram perplexos com as cenas inéditas.

Com o aumento populacional devido às oportunidades que uma cidade grande como o Rio de Janeiro gerava, várias pessoas de outros Estados e países chegaram à procura de oportunidades para uma vida melhor. Com isso, várias obras foram criadas para dar uma melhor estrutura para a cidade e uma delas foi a estação de tratamento de esgoto em Ipanema. Com grandes tubulações de aço e toneladas de areia depositadas em seu fundo, um novo pico com ondas perfeitas surgiu no local: o famoso pier de Ipanema. Em época de repressão do regime militar, surgiu um movimento pós-bossa-nova formado por várias pessoas de inúmeras tribos, como artistas, intelectuais e os hippies, e o novo point foi apelidado de “as dunas do barato”.
“Essa história é mal-contada pela imprensa. Naquele local os primeiros freqüentadores, ou seja, os desbravadores, foram os surfistas. Ali existia uma cerca e as dunas logo atrás. Era impossível passar, apenas os surfistas entravam pelo outro lado, remando pela água. Existia aquele velho estereótipo de que todo maconheiro não era surfista, porém, todo surfista era maconheiro, existia uma grande discriminação. Não posso negar que alguns se drogavam, além de gostar de música, os hippies vieram por esse caminho. Depois de horas de surf, a turma descansava dentro do território demarcado pela obra. O local foi ficando conhecido e o pico começou a encher. Sempre que passava em frente ao pier e Arpoador, notava que estava completamente cheio, praticamente sem condições para o surf. Comecei a pegar onda mais à esquerda do píer, já que os outros praticantes ficavam apenas na direita, apelidada de Backdoor. Enquanto tinha só Arpoador, Saquarema e Macumba, ninguém sabia o que era crowd, e isso aconteceu assim que descobriram o pier. Anteriormente era um homem e uma onda apenas, depois, pegar onda se tornou insuportável. Fiquei impressionado quando fui para o primeiro campeonato em São Paulo, em Ubatuba, mais precisamente em um evento na praia Grande, em 1972. Tinha onda para todos os surfistas, achei aquilo incrível, já que em Ipanema ficou difícil surfar com tranqüilidade”.
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De acordo com Cauli, as competições não lhe interessavam, pois achava que o esporte não precisaria ser direcionado para o caminho das disputas. Foi morar em Búzios e, após saber que todos os seus amigos se deram bem no primeiro campeonato no pier de Ipanema, resolveu competir. Com uma postura de total comprometimento com as competições, iniciou um forte trabalho focando os resultados. Em 1973 fechou um contrato de patrocínio com um dos mais respeitados jornais do país, o famoso JB (Jornal do Brasil) e com a Rádio Cidade.
Em sua primeira disputa ficou na quarta colocação e foi considerado o melhor backside na final Junior. O evento rolou na praia do Quebra-mar, na Barra da Tijuca, num mar com ondas grandes. “Nesse primeiro torneio fui considerado um dos melhores surfistas e já encarava tudo com muita seriedade. Nossa geração tinha surfistas espetaculares. Para dar uma idéia do nosso nível, a pontuação do Pepê foi o dobro da soma de pontos do primeiro colocado da categoria Sênior”, lembra.
“Meu surf foi lapidado por muita perseverança, pois no Rio de Janeiro não tem muita opção de ondas para a direita. Depois do aterro de Copacabana as opções ficaram reduzidas e os picos tradicionais são para a esquerda, como Arpoador, Quebra-mar, Guaratiba, entre tantos outros. Quando me tornei competidor, fiz um treinamento pesado que começava por Guaratiba e, dependendo da direção do swell, seguia para o Quebra-mar, depois para a Joatinga e no final de tarde finalizava no Arpoador, onde todos os amigos se encontravam”.

O retorno dos treinamentos aconteceu após Cauli assistir a Daniel Friedmann e Pepê, que venciam todos os eventos que participavam. Os dois surfistas até brincavam de dividir o prêmio antes do término das disputas – lembrando que naquele período a premiação era dividida entre os finalistas em todas as competições nacionais ou internacionais. Ele decidiu então que algo deveria ser feito, teria que haver uma renovação no cenário competitivo. Naquele mesmo ano, Cauli foi campeão de duas competições válidas pelo circuito dos Jogos Universitários Brasileiros, conseguindo projeção nacional. Em busca do reconhecimento internacional, foi para a Austrália representar o Brasil, comprometido em ter um grande desempenho.
Mantendo uma postura sempre profissional, relatou que assim que chegou com Pepê para competir, a maioria dos surfistas de outras nações ficaram surpresos e não entendiam como marcas de fora do surf poderia patrociná-los, aquilo era um marco para o esporte. Foi convidado por Jim Banks para ficar em sua residência e foi apresentado a dois garotos que estavam iniciando no circuito profissional, Mark Occhillupo e o fenômeno americano Tom Curren.
“Cheguei com a minha mala e com três pranchas para competir. Fui para a praia treinar e tinha um garoto detonando as ondas, era o Curren. Fiquei estático olhando seu surf, assustado. A perfeição não existe, mas o Curren chegou próximo dela. Para a direita era o Curren e para a esquerda era o Occy, apelidado de homem-mola. Ficava olhando o estilo do Curren, os movimentos, as manobras e pensava: meu surf acabou por aqui, não vou conseguir surfar melhor que esse cara. Em um campeonato, o mar estava com meio metro e ele executava manobras que ninguém tinha visto, com uma flexibilidade impecável. Assim que saiu da categoria amadora e entrou no profissional, vários surfistas ficaram amedrontados quando o enfrentavam nas baterias”.

Cauli venceu todas as baterias das triagens do Straight Talk Tires, uma das principais etapas do circuito mundial na época. Porém, no final da disputa que liderava e conseqüentemente iria vencer, acabou em quarto lugar, já que seu adversário, chamado Russel Lewis – que estava em último – alegou que Cauli havia puxado sua cordinha.
“Não tinha nexo, como eu poderia estar em primeiro lugar e puxar a cordinha do adversário? No final, o Wes Layne foi considerado campeão e eu fiquei completamente frustrado com aquela situação. Tentei ser reconhecido internacionalmente, fui o melhor competidor brasileiro. Em um desses eventos, não fui como convidado, entrei no lugar do Rico e achei que tinha passado a bateria, porém, fui garfado e não reclamei, achando que por ser meu primeiro ano no circuito, os juízes não tinham a mínima pretensão de me prejudicar. E foi revelado o contrário, pude perceber que os juízes tinham a intenção de prejudicar claramente os atletas brasileiros. Na minha concepção, o que importa não é o nome ou a nacionalidade do surfista, mas a cor da camiseta. Depois, o shaper das pranchas Emerald me apresentou ao proprietário da Peak Wetsuits, uma das empresas mais famosas do setor de roupas de borracha. Ao mesmo tempo me propuseram um patrocínio de uma empresa de guarda-chuvas para correr todo o circuito mundial, e como já estava desestimulado por causa do despreparo dos juízes, que sempre alteravam minhas notas, acabei desistindo de tudo isso. Todos percebiam que eu tinha o nível dos outros atletas, mas os juízes eram os únicos enganados a esse respeito. Seria o primeiro brasileiro a vencer um evento válido pelo trials na Austrália. Retornei ao país para levantar o surf brasileiro e terminar a faculdade. Como disse, tinha até uma proposta de patrocínio para correr todo o circuito e recusei. Não queria ficar detonando as ondas com um surf de alto nível e ser roubado pelos juízes. Comentei com esse eventual patrocinador que não ficaria por causa desse motivo, tinha chegado ao meu limite. No entanto, o despreparo dos juízes não aconteceu apenas nos outros países, mas também no Brasil, além dos problemas de julgamento, existia o bairrismo. Fui prejudicado em uma competição em que um dos juízes estava completamente bêbado e me disse que apenas pelo fato de ser carioca me deixaria em último na bateria, que nenhum surfista carioca tinha o mérito de ser campeão”.

Cauli participou da fundação da ASP (Association of Surfing Professionals), então a nova entidade do surf mundial, sendo o único brasileiro presente e o primeiro a pontuar no ranking da associação. Um dos surfistas mais fortes do circuito nacional e muito competente se tornou seu grande rival nas competições. Roberto Valério, um exemplo de dedicação, foi outra referência do esporte e segundo o próprio Cauli, um dos maiores competidores que já conheceu. Valério já fazia calções e se juntaram criando a Cyclone, uma das mais importantes empresas de surfwear de todos os tempos. O nome foi criado por Cauli, que o retirou de uma revista australiana. Assim que foram registrá-lo, descobriram que existia uma empresa que fazia calçados em Porto Alegre com o mesmo nome. Com isso, resolveram criar a marca Cylinders e um tempo depois, Cauli passou os direitos da Cyclone para o Roberto, que fez uma aliança com a Company, mega-empresa da época. Todos os calções foram vendidos rapidamente e a marca foi um sucesso de vendas logo no início. Com o amadorismo dos circuitos e a total falta de estrutura, alguns cariocas resolveram se antecipar aos fatos e criaram a OSP (Organização dos Surfistas Profissionais).
Isso porque perceberam que o Estado estava sem competições importantes e algumas pessoas como Valdir Vargas, Rosaldo Cavalcanti, Fred D’Orey, entre outros, se reuniram para tornar o projeto viável. Cauli também fez parte de uma das maiores equipes de surf brasileira, a Cristal Grafitti, uma das grandes companhias de surfwear e pranchas daquele período. Em 1985 tornou-se o primeiro campeão carioca – o único circuito profissional do país. Foram realizadas sete etapas e a competição era enorme, não existia favorito, todos eram extremamente competitivos. Na última disputa da temporada, Marcus Brasa, Marcelo Bôscoli e Cauli Rodrigues eram os favoritos ao título. “Na minha opinião, o mais importante não era a premiação, mas sim o fato de você ficar na história como o primeiro campeão profissional do país. Não vou tirar o mérito do Paulo Mattos, ele foi considerado o primeiro campeão brasileiro de surf profissional, mas fui o primeiro campeão profissional quando não existiam circuitos regionais. Com certeza absoluta e sem falsa modéstia, entre 1977 e 1985 fui o atleta mais competitivo do país”.
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Ele sempre enfatizou que o esporte poderia ser mais elitizado, reconhecido pela sociedade e por empresas de fora do segmento. Na opinião dele, o atual cenário tem ótima estrutura, com empresas investindo e um circuito interno muito forte, com vários atletas despontando como favoritos em busca do título nacional e mundial. “Os brasileiros têm que se orgulhar de ser uma das maiores potências mundiais. Temos que dar prioridade aos circuitos internos, é ótimo saber que atletas sem oportunidade estão conseguindo uma vida mais digna por causa do surf. São atletas muito talentosos e que às vezes ficam à margem do mercado, sem patrocínio e sem estrutura alguma. Temos que agradecer a essa turma de outras gerações, inclusive a minha, que sempre buscou o fortalecimento do esporte num período em que estávamos completamente órfãos. Atletas como Pepê, Ricardo Bocão, os irmãos Pacheco, Rico, Daniel Friedmann, Paulo Proença, Mudinho e outros que acreditaram no surf carioca e principalmente brasileiro. Essa estrutura que temos agora é fundamental para todos. Posso me lembrar que no passado foi criado pela Volkswagen um automóvel feito para o atleta Cacau, o Passat, com seu nome na lataria, exatamente o que podemos acompanhar hoje no Super Surf. Na minha concepção, o auge do esporte no Brasil foi a criação do Waymea 5000, válido pelo circuito mundial”.
Sempre contundente em tudo que diz, até por vezes de forma metódica, como alguém que tem uma grande responsabilidade e carinho por seus feitos, Cauli Rodrigues é uma lenda do esporte brasileiro e talvez um dos mais injustiçados. Principalmente pela incoerência de julgamento – já que seu estilo era avançado e poucos compreendiam – e também por sua personalidade forte, que em algumas situações foi interpretada de maneira equivocada.
Há alguns anos, no primeiro mundial Master profissional sancionado pela ASP, Cauli foi mencionado pela mídia brasileira como favorito para representar o país. Entretanto, suas esperanças não se concretizaram e a decepção foi grande. Alegou que se comunicou por várias vezes com a entidade, recebendo a resposta de que apenas o Fábio Gouveia poderia competir assim que chegasse a uma certa idade e os atletas que possuem um nível de pontuação específico no ranking poderiam ter a possibilidade de ser convidados. “O Daniel Friedmann foi convidado para a primeira competição, na Irlanda, pois o Nat Young não pôde comparecer, já que tinha sido agredido naquele mesmo lugar. Não é desmerecendo seu surf, pelo contrário, sou um de seus admiradores, mas o Daniel está competindo há muito tempo na categoria Longboard e eu continuo surfando de pranchinha, acho que poderia ter tido melhor desempenho”.

Também foi enfático ao comentar sobre um possível título mundial e disse que gostaria que Fábio Gouveia o tivesse conquistado. “Anos atrás, pude prever que um brasileiro seria campeão mundial independente da categoria, e aconteceu com o Fábio Gouveia, se tornando campeão amador no Mundial de Porto Rico, em 1988. Essa ânsia de termos um campeão mundial é negativa, é muita pressão em cima dos caras. Isso é questão de tempo, tenho orgulho da raça de nossos competidores. O principal fator é a união, os gringos ficam perplexos com esse tipo de atitude. Após perceberem a união dos atletas brasileiros os competidores de outras nacionalidades começaram a se unir. Pude notar que os próprios atletas dos mesmos países se odiavam, eram desunidos. Temos boas ondas, um mercado forte, boas pranchas e excelentes competidores, não devemos nada ao resto do mundo. Estamos provando a cada dia que nosso surf é forte e em alguns anos teremos um campeão mundial. Posso dizer que os brasileiros são iguais e até melhores do que muitos competidores de outros países. Vejo alguns surfistas gringos surfando e os caras fazem o básico, o brasileiro é mais criativo, mais talentoso”.
Em relação aos shapers, ele ressalta a importância do trabalho entre ambos como fundamental na carreira de um competidor profissional. “Um dos sucessos que tive em minha carreira foram os grandes shapers que trabalharam comigo naqueles anos e que sem esse trabalho não seria nada. Fui muito radical nas manobras, minhas batidas eram sempre de cabeça para baixo, completamente verticais. Tive a oportunidade de conhecer vários shapers, como o sul-africano Glen D’arcy, além de surfistas de todo o mundo, isso também foi fundamental para o desenvolvimento dos outlines das minhas pranchas. Acho as pranchas brasileiras excelentes. As pranchas gringas eram melhores do que as nossas até o início da década de 80. Uma vez, um conceituado shaper australiano me disse que as pranchas brasileiras naquela fase eram melhores que as australianas. Por que trazer shaper gringo para fazer pranchas no Brasil? Tem que valorizar um dos melhores profissionais do mundo, que é o brasileiro. Os caras são convidados para shapear no Brasil e voltam felizes para seus países com os bolsos cheios de dinheiro. Por que não exaltar o shaper carioca, o paulista, o nordestino, o catarinense? Quem faz cópia, automaticamente vai andando para trás, temos que ser autênticos, criativos”.
Após exaustivos anos de comprometimento com os treinos, ele descobriu uma hérnia de disco, de acordo com suas palavras, um dia fatídico em sua vida. Foi morar na região de Mangaratiba, próxima a Ilha Grande, e o surf se tornou esporádico, dando lugar à caça submarina, financeiramente mais rentável. Como acontece com várias histórias de sucesso quando chega um momento em que tudo parece desmoronar, começou o processo de afastamento, a decadência. Após a descoberta do problema em sua coluna, disse que não estava preparado para abandonar as competições e muito menos imaginar a terrível possibilidade de abandonar o surf para sempre.

Citado várias vezes durante a entrevista, Pepê Lopes foi o grande amigo e companheiro de viagens de Cauli, considerado pelo mesmo como um dos melhores surfistas do planeta e um de seus maiores incentivadores. Foi Pepê quem conseguiu os patrocínios do JB e Rádio Cidade para Cauli.
“Posso me sentir reconhecido, o Pepê me levou para fechar o patrocínio com essas empresas, ele acreditou no meu trabalho e fiquei muito feliz com isso, foi realmente uma prova de amizade. Quando cheguei ao Hawaii com o Pepê para competir no Pipe Master, no qual ele fez a final, notei que ele era o melhor de todos. Era o único mais abusado, assistimos atletas puxando o bico, enquanto o Pepê colocava para baixo em ondas enormes e clássicas, além de entubar como um local. Ele pegou duas ondas clássicas com Pipeline 18 pés, consideradas as duas melhores ondas do dia em que o público levantou e o aplaudiu. Em uma das edições da revista Surfer da época, tinha uma parte chamada ‘Foto do leitor’ em que um havaiano enviou uma foto de um moleque loiro entubando em Pipeline em uma onda de 15 pés. Era o Pepê. Eu o considero um dos melhores tube riders que já existiram, era o surfista que melhor se posicionava dentro dos tubos. Dentre tantos outros expoentes do esporte, o Pepê foi o que mais me impressionou. Quando os surfistas mais experientes, como Otávio Pacheco e Paulo Proença, chegavam ao pico do pier de Ipanema, a molecada tinha que sair, pois eram mais velhos, e ele era o único surfista que tinha a liberdade de sentar no outside para esperar as ondas”.
Na segunda metade da década de 80, Cauli começou a competir na categoria Master e até o fim da carreira foi top 30 nacional. Na última competição que participou venceu as categorias Master e Sênior em Ubatuba, na etapa do circuito brasileiro. Continua surfando regularmente, no entanto não pode ficar muito tempo dentro da água por causa das dores na coluna, além de descobrir que tem uma lesão cerebral não diagnosticada por causa de anos praticando caça-submarina.

“Gostaria muito de poder ficar várias horas na água como antigamente, mas faço a ‘cabeça’ de qualquer maneira. Estou com alguns problemas físicos que me impossibilitam de estar dentro da água diariamente. O surf é uma terapia, mas machuca muito o meu corpo e tenho que tomar algumas precauções. Tenho a disponibilidade de surfar o dia e horário que quiser, não existe mais aquela pressão do treino diário, não sou mais surfista profissional. Se pegar uma onda e descer reto até a beira terei a mesma curtição de pegar uma onda em Burleigh Heads e fazer uma série de manobras com tubo. O grande barato é estar em sintonia com o oceano, com o sol, com o vento, com Deus”, filosofa.
Formado em duas disciplinas universitárias – Comércio Exterior e Administração de Empresas – atualmente está ensinando surf com aulas particulares e praticando jiu-jitsu há 7 anos, dizendo estar aberto a propostas de empresas do setor para passar sua experiência. Tem como projeto escrever uma autobiografia contando sua história e os bastidores do surf nacional ou até um vídeo.
Mesmo fora da mídia, Cauli Rodrigues continua sendo respeitado e reconhecido por todos. “Não estou preocupado com isso, minha missão é divulgar o surf. Tenho dinheiro para comprar uma página em qualquer revista de surf e dizer o melhor, mas não preciso. Prefiro dizer dentro de uma entrevista, para um leitor interessado em saber quem realmente foi o Cauli Rodrigues. Pode ser o meu amigo de infância, o parceiro do surf. Não tenho nada na indústria do esporte, mas tenho principalmente o orgulho de ter sido um dos atletas mais responsáveis do cenário mundial. Tudo que pude adquirir como experiência de vida é o meu maior patrimônio, não é orgulho besta de desprezar o próximo, pelo contrário, é saber que a sua história está escrita e nada jamais apagará os fatos”.
*Texto publicado na edição número 21, de maio/junho/04, da revista Alma Surf.