Depois de frustrar os fãs brasileiros com sua ausência no ano passado, este ano Kelly Slater marcou presença na etapa brasileira do WCT e, como sempre, o americano 11 vezes campeão do mundo não passou despercebido.
Por Elaine Gutgold
Todos os anos, quando chega a época da etapa brasileira do Circuito Mundial, uma das presenças mais aguardadas é inegavelmente a de Kelly Slater. O Brasil talvez seja o país com o maior número de fãs do surfista americano, e, sempre que ele aparece, o público na praia vai à loucura. No ano passado Kelly desistiu de vir a poucos dias da etapa, por causa de um corte no pé sofrido durante uma sessão de treino na Austrália, e depois chegou a declarar que sua ausência pode ter lhe custado o título mundial no fim do ano.
Este ano, no entanto, Slater marcou presença e mais uma vez deu um show de surf nas ondas do Postinho, com tubos impressionantes durante sessões de freesurf e desempenhos memoráveis nas baterias que disputou, incluindo o maior somatório de pontos do evento (quando registrou 19,67 pontos na terceira rodada). Acabou eliminado ao perder para Adriano de Souza nas quartas, na quinta derrota consecutiva para o brasileiro.
Entre uma bateria e outra, Kelly concedeu com exclusividade a seguinte entrevista à FLUIR (publicada na edição de junho da revista), em que fala sobre as perspectivas para a temporada, adversários diretos na briga pelo título mundial, o momento vivido pelos brasileiros, equipamentos, longevidade no esporte, relação com os fãs e admite: “Não me vejo muito como um pai de família, pois me considero um cara egoísta”.
Qual foi sua motivação para vir à etapa brasileira este ano? Sua ausência no ano passado pode ter custado o título mundial?
Sim, com certeza. Se eu tivesse vindo ano passado e tivesse chegado nas quartas ou na semifinal, e depois ter conseguido os resultados que alcancei, eu poderia sim ter levado o título mundial. Mas foi uma decisão que eu tomei por causa de uma lesão, estava muito desconfortável surfar com o pé daquele jeito. Eu poderia pegar uns tubos, mas não fazer manobras confortavelmente. Por isso decidi relaxar e me recuperar.
Qual foi o sentimento de começar o ano vencendo a etapa de abertura? Como isso afeta sua motivação para o resto do Tour?
Obviamente me senti muito bem. Você sabe, Parko ganhou o título mundial em Pipe, numa disputa apertada. Então, voltar este ano já vencendo a primeira etapa trouxe uma sensação incrível de bem-estar. Claro que, se eu não tivesse faltado em algumas etapas, eu poderia ter levado o título. Mas aconteceu desse jeito…
Comente a campanha dos brasileiros, em especial a do Adriano, em Bells Beach, uma onda tão complexa e historicamente difícil para nossos surfistas.
Essa onda não é difícil somente para os brasileiros, ela é difícil pra todo mundo! É uma onda bem complicada de surfar do jeito certo. Este ano as ondas estavam mais fortes e havia mais oportunidades, porque tinha muita onda. Ao mesmo tempo foi difícil porque todo mundo estava dando o seu melhor. Eu não fiz um bom evento, me lesionei nas costas e não surfei bem. Mas o Adriano surfou muito bem. Já nas quartas de final eu disse que foi a vez em que o vi surfar melhor, com um repertório realmente completo. Estava sólido, com excelentes cavadas, acertando o tempo exato de cada onda. Fiquei impressionado.
Alguma novidade em termos de equipamento para este ano? Veremos Kelly com algum design diferente do que foi visto até agora?
Sim, estou trabalhando em um novo design. Eu não sei ainda o quão diferente isso será. Não fui eu quem desenhou, mas os shapers. São três modelos, de marcas novas. Meu amigo Benji desenhou uma delas.
Você tem pensado em alguma estratégia para as próximas etapas? Onde você acha que tem mais chances de se dar bem?
Na verdade, a estratégia é sempre pegar as melhores ondas. Se você pegar as melhores ondas, as chances de ganhar são bem maiores. Em 90% das vezes, se você pega as melhores ondas, vai ganhar. Algumas vezes, alguém pega menos onda, surfa bem, mas… Se você pega as melhores, vai vencer. Em Fiji a estratégia é pegar as ondas certas, se posicionar certo no line-up, você tem que conhecer o reef muito bem, em que direção a onda vem, o tipo dela, o tamanho. Tem que prestar bastante atenção nessas coisas, ter experiência é isso. Já Bali vai ser uma etapa de high performance. Todo mundo tem que ter um bom desempenho, não há nada de tão complicado pra fazer. A maioria das ondas é parecida. Tahiti também, tem que escolher as ondas certas. Enfim, pra todo lugar é quase a mesma regra. Já a França é meio imprevisível, pode estar grande ou pequeno, bom ou ruim…
Você acredita no fator sorte?
Você pode fazer a sua sorte. Eu não acredito naquela frase: “Poxa, esse cara tá com sorte hoje”. Dentro d’água tudo é baseado em decisões. Acho que também é assim na vida, onde tudo depende de boas decisões. Quando decidimos sobre as pessoas, escolhas etc. Na água, as suas decisões podem tornar as coisas mais fáceis pra você. ##
Quais as suas expectativas para a nova fase do WCT sob o comando da ZoSea? Pode adiantar alguma novidade sobre isso?
Creio que a principal diferença ocorrerá em relação à visibilidade do esporte. Não acho que o WCT vai funcionar diferente, mas acho que a visibilidade com a imprensa, nos jornais e as matérias de surf vão ficar ainda mais profissionais, assim como o trabalho de marketing. No momento, você não entenderia o que é o esporte só assistindo ao surf online ou aqui na praia ao vivo. O esporte está mais especializado agora. E acho que a imprensa está fazendo com que esse caminho fique muito melhor. Os websites estão melhores, o webcast, todos os produtos relacionados ao surf estão melhores. Não sei de todos os detalhes, mas acho que o WCT vai ficar bem sobre o comando da ZoSea.
Quem você acredita que será seu principal adversário na briga pelo título mundial este ano?
Não sei direito. É estranho falar isso agora. Mas, talvez, Parko ou Mick Fanning. Mick tem bons resultados. Estar em primeiro é obviamente muito bom, mas todos os demais estão com ótimos resultados. Mas Mick é o cara pra prestar atenção. Acho que tenho que jogar Bells fora. Vamos ver também os caras mais novos voltando, como John John. Ele está se recuperando da lesão no tornozelo, ouvi dizer que já está bom e ele vai voltar para Fiji sem problemas. Minha expectativa é que esse cara seja o Mick. Ele está bem fisicamente, tem a mente muito forte e muito desejo de vencer.
O que a gente pode esperar ou, talvez, se surpreender com você, aos 41 anos de idade?
Eu não sei. Mas acho que a minha expectativa é ficar cada vez mais forte e surfar ainda melhor. Quanto às surpresas eu não posso falar, senão não será surpresa!
Em uma entrevista você sugeriu que o surf não deveria ter uma idade limite para aposentadoria, como outros esportes. Qual a sua ideia sobre essa questão?
Acho que, se você se mantém em boa forma, tudo é possível. Muitos amigos com quem surfei a vida inteira estão em melhor forma agora do que quando tinham 20 anos de idade. Eles estão ligados no que devem comer, no que botam pra dentro do seu corpo, eles malham bastante, não vão pra balada etc. Eu não entendo, olhe só… Todos esses meus amigos, que surfam comigo desde muito jovens, estão ótimos. Já os meus amigos que cresceram comigo, na minha cidade, hoje estão ferrados. Eles só pensam em beber cerveja, não se cuidam, moram em cidade pequena onde não estão em contato com ideias saudáveis. E a tendência das pessoas é essa mesmo, quando vão ficando mais velhas. Como seus pais, que vão ficando mais gordos, fumam mais etc. Tem gente que bota a culpa disso na genética, diz que já está no “sangue”. Mas não é verdade, são escolhas que fazemos. Você tem que afastar esses pensamentos ruins. Você tem que apreciar seus amigos, a vida social e os ambientes. Mas, se você sabe que essas coisas ruins podem te fazer viver dez ou 20 anos a menos, por que não mudar a situação? Não saia pra comer pizza todas as noites! Vejo meus amigos alimentando seus filhos com essas porcarias para eles pararem de chorar, em vez de ensinar hábitos saudáveis. Fico preocupado com isso.
A última vez em que você esteve no Brasil foi há dois anos. Viu alguma mudança por aqui?
Não vi grandes mudanças, a não ser pelo aumento do trânsito. Está realmente muito ruim. É preciso encontrar alguma solução para esse problema, com melhoria do transporte público, trens, ou sei lá, porque, se agora está assim, imagine daqui a pouco com os Jogos Olímpicos, a Copa etc. Imagine daqui a dez ou 20 anos. O que vai acontecer? Outro dia, meu amigo veio do aeroporto, em um percurso que normalmente duraria 30 minutos, mas ele levou três horas. Acho que esse é um motivo que pode fazer com que as pessoas não queiram mais vir, porque dá muito trabalho. Poxa, em três horas eu poderia voar de volta pra casa, já é metade do caminho pra Flórida (risos). A população não está diminuindo, então tem que achar uma solução permanente.
Aos 20 anos de idade você se imaginava com 41 ainda competindo? Essa sempre foi a sua vontade?
Sempre achei que poderia chegar lá. Mas achei, na verdade, que estaria casado, com filhos, essas coisas. Quando eu tinha 21 anos estava noivo. Portanto, achei que aos 30 eu já estivesse parando de competir! Mas aqui estou, as coisas acontecem de forma inesperada… A cada ano existe um novo desafio, pessoas novas etc.
Como você lida com a paixão dos seus fãs, todo mundo querendo estar perto o tempo todo?
Isso tem dois lados. É muito legal, mas também é complicado. É difícil eu ter tempo para dar atenção a essas pessoas. Às vezes estou de férias, em algum lugar do mundo, onde quero curtir, conhecer o lugar com calma, e de repente sou reconhecido. E começa o assédio. Mas eu entendo, tenho um rosto conhecido, não tem jeito. E aí essas pessoas pensam que aquela é a chance de me ver, falar comigo, pois nunca vão me ver de novo. É meio engraçado, as pessoas se sentem íntimas, mas é uma situação bem difícil. É estranho, chegam pessoas que nunca vi na vida e querem uma foto comigo. Já começam a me pegar. Então é uma troca estranha entre pessoas. Não é esquisito? Pra mim seria muito mais interessante conversar com a pessoa por cinco minutos, e conhecê-la, do que tirar apenas uma foto pra colocarem no Facebook ou no Instagram. Por isso que, quando uma pessoa quer conversar comigo, eu sou muito mais aberto. Dou mais atenção. Do contrário, apenas tiro a foto, fico calado e acabou. Prefiro conversar, saber quem é a pessoa, trocar uma ideia. E são 20 anos fazendo isso… Tudo que fazemos por um longo tempo cansa. Até mesmo se eu pegasse a minha onda favorita por 20 anos seguidos, eu também ficaria cansado disso (risos)!
Tem alguma história inusitada entre você e algum fã?
Nossa, já vi muitas situações esquisitas. Todo dia aparece uma. Pessoas dormindo na minha porta, por exemplo. Outro dia eu estava visitando uma escolinha de surf e tinha uma mulher querendo um autógrafo no bumbum! Já chegou me abraçando. E tinha várias crianças atrás rindo muito. Tem várias situações engraçadas como essa. Principalmente quando eu tinha 18 anos e era solteiro (risos). Mas, vamos lá, deixa eu ver uma história boa… Em 1998 eu estava na França, viajando com o Jack Johnson, e naquela época o Jack ainda não era conhecido, era apenas um cinegrafista. Estávamos no carro e havia pessoas se aglomerando em volta, batendo no carro, não conseguíamos sair do lugar. As mulheres gritando, chorando, batendo nas janelas, superengraçado! Na época tínhamos uma banda (NR: The Surfers, formada por Kelly, Rob Machado e Peter King) e estávamos indo a uma loja de música para uma noite de autógrafos com o Peter, mas ele acabou tendo um contratempo e fui sozinho, levando o Jack comigo. O Jack e o Peter se pareciam muito, aí sugeri ao Jack: “Autografe pelo Peter!”. Ele sentou e começou a autografar, como se fosse ele. Só que tem um detalhe, o Jack é uma pessoa super-honesta. Acho que é o cara mais honesto que conheço. E ele começou a se sentir muito mal com aquilo. Depois de dez ou 15 assinaturas ele falou: “Pô, cara, preciso parar. Não consigo fazer isso”. Ele ficou cinco ou dez minutos e foi embora! Foi muito engraçado. Hoje em dia, quando vou a algum show do Jack, ele coloca a maior pilha em mim quando os fãs estão em sua volta: “Kelly, me arruma uma entrada pro show. Quero ficar no backstage com você, quero te conhecer…” (risos).
E agora que você está há cinco anos em um relacionamento estável com a Kalani Miller, tem planos de casar e ter filhos?
Ah, isso é pessoal! Não sou de falar muito sobre isso, mas vamos lá. Estamos juntos há cinco anos e meio. Ela é uma menina adorável, também gosto muito da família dela. A gente vive bem, mas não temos um “plano master” agora. Eu não me vejo muito como um pai de família, pois me considero um cara egoísta. Eu gosto das minhas viagens, de surfar, gosto das minhas atividades… Sei o que me deixa empolgado e feliz. Acho que cada um tem que fazer aquilo que tem vontade. E, quando não faço essas coisas, fico meio deprimido. Ninguém é obrigado a ter uma família, isso não tem que ser uma pressão ou obrigação. Pense um pouco, existem 6 ou 7 bilhões de pessoas no mundo, mas é difícil encontrar alguém perfeito para o outro. As pessoas são muito diferentes umas das outras. E também existem milhares de coisas diferentes para fazer no mundo, então é difícil alguém ter exatamente o mesmo gosto.

